POLÍTICA

Como o Lide, grupo empresarial de Doria, explica o "gestor"?

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Entenda as tais alianças "sem contrapartidas" do novo prefeito de São Paulo com o setor privado na sua gestão.

Como o Lide, grupo empresarial de Doria, explica o "gestor"?

O repórter Joaquim de Carvalho, do DCM, fez um grande texto sobre a demissão que o prefeito João Doria Jr. fez, por vídeo, da vereadora Soninha Francine da Secretaria de Assistência Social. Joaquim diz na sua apuração que Doria também desautorizou o vice Bruno Covas a utilizar dinheiro das privatizações no dia a dia da prefeitura.

O jornalista volta ao passado de João Doria e sua atuação no Lide, o maior grupo de encontros empresariais no país.

Diz Joaquim:

"O Lide alavancou a fortuna de Doria, mas ele já tinha melhorado de vida muito tempo antes, quando foi secretário do pai numa entidade que este trouxe de fora, o Instituto Mind Power. A entidade realizava palestras para ensinar um método que teria sido criado por Doria pai, com o objetivo declarado de desenvolver 'as potencialidades da mente e combate às tensões, o estresse e desordens psicossomáticas decorrentes'. Somente em São Paulo, entre 1980 e 1983, cerca de 12 mil pessoas fizeram o curso, entre os quais militares do Segundo Exército, que, em agradecimento, lhe entregaram uma placa de agradecimento. Curioso que, na sua volta do exílio imposto pelos militares, Doria pai tenha prestado serviço ao Exército. Mas vá lá. O Brasil já era outro. Vivia os tempos da abertura e, por outro lado, começava a onda da auto-ajuda, na qual entidades como o Mind Power de Doria surfou. O Mind Power pode ter sido uma das muitas iniciativas controversas da época, como o israelense Uri Geller, que entortava objetos metálicos na TV, dizendo que fazia isso com a força da mente – uma fraude mais tarde desmascarada. Mas há quem veja no estilo impessoal e centralizador de Doria o resultado das experiências do pai. 'Ele não foi apenas secretário do Mind Power, foi cobaia do pai', diz um homem que é hoje desafeto do prefeito".

A reportagem basicamente aponta duas coisas. A primeira é que a Mind Power do baiano João Doria pai, perseguido na ditadura militar brasileira, ensinou o estilo de "gestão" que o filho emprega, dando guaraná quente aos secretários que fazem perguntas consideradas estúpidas na reunião. Doria Jr. leva tão a sério a suposta rigidez que dorme apenas quatro horas por noite, vive de vitaminas e transformou-se no terror dos funcionários da Prefeitura, colecionando reclamações por mensagens no WhatsApp de madrugada.

Mas a caixa preta de João Doria é seu instituto Lide.

O Grupo de Líderes Empresariais, Lide, é a joia da coroa do grupo empresarial Doria. Foi fundado em 2003, dois anos depois de Doria se filiar ao PSDB. Surgiu com apoio financeiro do dono da Amil, Édson de Godoy Bueno, especializando-se em aproximar empresários de autoridades, principalmente do governo Lula. João Doria passou a receber dinheiro dos empresários com o argumento de que precisavam se organizar para influir no governo do petista. Os encontros empresariais recebem prefeitos, governadores e autoridades públicas para se aproximarem do setor privado brasileiro.

São nestes encontros que surgiu a revista Caviar Lifestyle, que recebeu meio milhão de reais do governo Alckmin num publieditorial e possui uma tiragem declarada de 40 mil exemplares. A publicação é distribuída entre o público que participa de atividades do Lide e é apreciador de “gastronomia e luxo”.

João Doria Neto, filho do prefeito que tem 22 anos, assumiu progressivamente o comando acionário das empresas que compõem o Grupo Doria, incluindo o Lide, e o economista Roberto Giannetti da Fonseca ficou com a liderança política da associação empresarial. Numa grande associação familiar, Doria Jr. faz negócios e política, empurrando o slogan de que é "gestor e não político" e que "faz parcerias privadas sem contrapartidas".

O que ele promove, na prática, é a privatização do espaço público sem a transparência necessária de qualquer Associação Público-Privada.

Se alguém quer começar a apurar jornalisticamente ou investigar as associações do novo prefeito com o empresariado, precisa obrigatoriamente observar os movimentos do Lide. Foi em seu grupo de encontros empresariais que se montou a sua candidatura à prefeitura.

E é por lá que discutem a possibilidade de Doria tentar o governo do estado ou mesmo a presidência da República, se o padrinho Geraldo Alckmin deixar.