POLÍTICA

Doria vai devorar Alckmin antes das eleições de 2018, se o governador deixar

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Breve história do discípulo político que arquiteta a derrocada política do seu mentor antes mesmo das eleições de 2018. Será que João Doria Jr. não tem vergonha do papel que cumpre na disputa política entre tucanos? Seja como for, ele está avançando na criação de uma campanha.

Doria vai devorar Alckmin antes das eleições de 2018, se o governador deixar

(Foto: Alexandre Carvalho/A2img/Fotos Públicas)

A crise do governo Michel Temer exibe as vísceras do PSDB, o partido de oposição ao PT que resolveu se tornar base. Desorganizados e vingativos, os tucanos não souberam lidar com a delação premiada de Joesley Batista incriminando Aécio Neves, o presidenciável da legenda em 2014. Tasso Jereissati assumiu a liderança do partido, enquanto José Serra tem um projeto pessoal para tentar as eleições junto a Temer, com auxílio de Aloysio Nunes. Mas, além destes caciques, há uma guerra nos bastidores rolando no tucanato de São Paulo.

Doria vai devorar Alckmin antes das eleições de 2018, se o governador deixar

(Foto: Alexandre Carvalho/A2img/Fotos Públicas)

João Doria Jr. estava em viagem pelo nordeste, onde recebeu ovada, e passou pelo interior de São Paulo. Na cidade de Barretos, prometeu trazer a Festa do Peão para a capital. E voltou atrás na proposta. Seguiu o padrão que já fez no começo do mandato, quando se vestiu de gari e apostou no populismo de direita.

Mas, para continuar fingindo que não está em campanha presidencial, Doria resolveu gravar um vídeo com seu padrinho político, o governador Geraldo Alckmin. Apelou pra propaganda no Facebook.

Doria vai devorar Alckmin antes das eleições de 2018, se o governador deixar

(Foto: LEON RODRIGUES/SECOM/Fotos Públicas)

No dia 13 de agosto, João Doria gravou um vídeo afirmando que é leal ao homem que o indicou para a prefeitura de São Paulo. De acordo com a jornalista Cristiana Lôbo, do G1/GloboNews, foi o medo de ser visto como um traidor que levou Doria a gravar a peça, com um quadro ao fundo que possui um cavaleiro com sua espada no pescoço de Alckmin.

"Reafirmo minha lealdade ao governador Geraldo Alckmin, com quem tenho uma estreita amizade há 37 anos. Especulações e notícias fantasiosas que vêm sendo divulgadas por alguns órgãos da imprensa não vão abalar nossa amizade e o respeito que temos um pelo outro", declarou o prefeito na gravação completa.

Dias depois, em 20 de agosto, o colunista Lauro Jardim, de O Globo, deu mais detalhes dos bastidores do encontro. "Que ninguém se engane com as caras sorridentes que aparecem no vídeo. O ambiente está azedo. Para Alckmin, Doria está se excedendo", explicou o jornalista.

Motivos para o governador pensar desta forma não faltam.

As infidelidades

No mesmo mês, Doria recebeu de braços abertos Michel Temer em São Paulo, que o chamou de aliado, enquanto Geraldo Alckmin manteve encontros privados com nomes do PSDB paulista para fazer as investigações do presidente na Lava Jato avançarem. Enquanto o prefeito ensaia uma aproximação com o PMDB, Alckmin joga com o afastamento da legenda da base do atual governo federal, com pensamento de sobrevivência política de longo prazo.

Como alguém que acabou de assumir a prefeitura da maior cidade da América Latina, falta humildade a João Doria Jr. para focar na administração municipal. Seu desempenho pífio em oito meses de gestão, com aumento dos acidentes das marginais, faróis quebrados e o centro antigo abandonado mostram que Doria pode ser um José Serra piorado.

Para quem não lembra, Serra prometeu governar São Paulo e abandonou a cidade para tentar a presidência contra Dilma Rousseff em 2010.

A autodestruição

Além do duelo paulista entre Doria e Alckmin, o PSDB está no alvo de investigações da Operação Lava Jato e perdeu a aura de moralidade que conquistou nos anos de crise do PT em pleno Mensalão e Petrolão. Num cenário desolado e sem chances reais de ganhar a presidência da República, porque ainda aparece com 13% das intenções de voto, João Doria Jr. acha justo pensar fora do eleitorado tucano, tentando inclusive o nordeste brasileiro.

O populismo de direita do prefeito paulistano vai devorar o governador Geraldo Alckmin antes das eleições de 2018, se ele deixar. O tucanato mais parece um ninho de cobras criadas.

Uma pronta para devorar a outra.