LULA

E se a Lava Jato terminar livrando Eduardo Cunha da prisão para entregar Lula?

Pedro Zambarda de Araújo
Author
Pedro Zambarda de Araújo

Vale a pena absolver os crimes de Cunha se isso levar a uma punição do ex-presidente petista?

E se a Lava Jato terminar livrando Eduardo Cunha da prisão para entregar Lula?

(Foto: Filipe Araújo/Marcelo Camargo/Agência Brasil/Fotos Públicas)

Numa entrevista controversa à revista Época, ocasião em que o editor-chefe Diego Escosteguy não soube explicar com clareza se o ex-presidente da Câmara falou na prisão ou de fora dela, o presidente Michel Temer foi poupado e o PT voltou a ser alvo. Vale a pena atenuar seus crimes por mais acusações sem fundo real?

Eduardo Cunha começou a traçar sua delação premiada segundo a revista Época da Editora Globo. Na entrevista, poupou Temer, disse que Janot quis derrubar o presidente baseado em delações mentirosas, afirmou que Sérgio Moro recriou a "Operação Mãos Limpas" italiana no Brasil com a Lava Jato e fez acusações ao PT.

"O Joesley fez uma delação seletiva, para atender aos interesses dele e do Janot. Há omissões graves na delação dele. O Joesley poupou muito o PT. Escondeu que nos reunimos, eu e Joesley, quatro horas com o Lula, na véspera do impeachment. O Lula estava tentando me convencer a parar o impeachment. Isso é só um pequeno exemplo. Eu traria muitos fatos que tornariam inviável a delação da JBS. Tenho conhecimento de omissões graves. Essa é uma das razões pelas quais minha delação não poderia sair com o Janot", disse o delator à Época.

Entregar Luiz Inácio Lula da Silva numa delação premiada faz valer a absolvição de Eduardo Cunha ou uma pena menor por seus crimes?

Preso preventivamente

Eduardo Cosentino da Cunha foi preso em 19 de outubro de 2016 preventivamente. Foi cassado um mês antes de ser detido, por 450 votos a favor, 10 contrários e 9 abstenções, em virtude de quebra de decoro parlamentar. Para a Câmara, o ex-deputado teria mentido à CPI da Petrobras ao negar, durante depoimento em março de 2015, ser titular de contas bancárias no exterior.

Ele é acusado de ter contas na Suíça e em Nova York. O Ministério Público suíço denunciou Cunha e a conta nos Estados Unidos foi apontada por seu operador, Lúcio Funaro. O ex-deputado teria recebido sozinho R$ 56,9 milhões de propina depois do início da Lava Jato, mas sua atuação nos bastidores organizando pagamentos ocorrem desde quando era presidente da Telerj no governo Fernando Collor durante a década de 90. Os repasses foram tanto para ele quanto para correligionários. Há denúncias de que Eduardo Cunha teria comprado sozinho 25 deputados na votação do impeachment de Dilma Rousseff, que ele coordenou como presidente da Câmara.

As ações, segundo Funaro, teriam ocorrido com anuência do hoje presidente Temer.  No dia 30 de março deste ano, Eduardo Cunha foi condenado pelo juiz Sérgio Moro a 15 anos e quatro meses de reclusão pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Vale soltar um lado para prender outro?

Cunha diz que Lula articulou para evitar o impeachment de Dilma e conversou diretamente com ele. "O MP e o Moro queriam ter um troféu político dos dois lados. Como Janot já era meu inimigo, todos da Lava Jato estavam atrás de mim", diz o delator.

Mas vale inocentar Eduardo Cunha ou colocar uma tornozeleira mecânica nele para que Lula seja preso e impedido de concorrer às eleições? A lógica das delações premiadas, de soltar um peixe pequeno para pegar um grande, vale para Moro e Lula? 

Se vale, por que foram encontradas contas no exterior de Cunha e não no caso de Lula? Por que existem provas extensivas da corrupção estrutural do PMDB financiado por Eduardo Cunha, enquanto a Lava Jato tem dificuldades de provar a culpa do ex-presidente.

O presente de Eduardo Cunha para a Operação Lava jato parece mesmo presente de grego. Mas, para se livrar da cadeia, o ex-deputado está disposto a tudo. Inclusive a proteger o presidente da República que sentou no lugar de Dilma e nada fez para evitar o seu encarceramento.