LAVA JATO

Em quais pontos o depoimento de Tacla Durán atingem Moro, Santana e Janot?

Yazar

O ex-advogado da Odebrecht falou na CPI da JBS. O que ele diz, por teleconferência na Espanha, coloca em xeque a Operação Lava Jato.

Em quais pontos o depoimento de Tacla Durán atingem Moro, Santana e Janot?

(Foto: Reprodução/YouTube)

A Operação Lava Jato, depois da queda de Dilma Rousseff, não vive os seus melhores dias. Com o presidente da República delatado, Ministério Público, Polícia Federal e corpo jurídico estão desmoralizados pelas cabeças do PMDB e do PSDB estarem soltas. Aécio Neves perdeu a liderança do PSDB, mas recuperou o mandato de senador e livrou a irmã Andrea e o primo Fred da cadeia. Aécio foi gravado pedindo propina de R$ 2 milhões.

Rodrigo Tacla Durán é o homem que questiona as delações premiadas da Lava Jato. Em agosto de 2017, o ex-advogado da Odebrecht acusou o advogado trabalhista Carlos Zucolotto Junior, amigo e padrinho de casamento do juiz Sergio Moro, de intermediar negociações paralelas envolvendo o magistrado. Zucolotto é sócio de Rosângela, a esposa de Moro.

No final de novembro, refletindo no noticiário deste mês de dezembro, Tacla Durán finalmente se apresentou no Brasil via teleconferência da Espanha. Ele participou da sessão na CPI da JBS, que investiga o ex-procurador Marcelo Miller, o ex-procurador-geral Rodrigo Janot e os Batista, proprietários da empresa de proteína animal que decidiu fazer delação premiada.

O depoimento e os documentos de Durán colocam em xeque pelo menos três atores da Lava Jato: o juiz Sérgio Moro, os publicitários Mônica Moura e João Santana, além de Janot.

Moro na mira

Tacla Durán foi alvo da 36ª fase da Lava Jato em novembro do ano passado. A operação acusa seu escritório de ter movimentado R$ 54 milhões de propinas ligadas à Odebrecht. O ex-advogado trabalhou para Departamento de Operações Estruturadas entre 2011 e 2016. A divisão era chamada de "departamento de propinas".

Os procuradores pediram R$ 15 mi de multa a Durán. Ainda em 2016, Zucolotto o procurou para reduzir o pagamento para R$ 5 milhões em mensagens no aplicativo Wickr, que apaga mensagens em cinco segundos. O ex-advogado fotografou a troca de textos, provando a tentativa de negociação de delação premiada.

Zucolotto disse que tinha Deltan Dallagnol "no circuito" e tem uma relação muito próxima com Moro. A documentação periciada e apresentada na CPI coloca o time do Ministério Público e da Justiça em Curitiba num caso de conflito de interesses.

Ele pontuou: “Carlos Zucolotto então iniciou uma negociação paralela entrando por um caminho que jamais imaginei que seguiria e que não apenas colocou o juiz Sergio Moro na incômoda situação de ficar impedido de julgar e deliberar sobre o meu caso, como também expôs os procuradores da força-tarefa de Curitiba”.

João Santana e Mônica Moura protegidos

A delação dos publicitários João Santana e Mônica Moura desestabilizaram o governo Dilma nos últimos dias até o impeachment. Tacla Durán traz informações novas que colocam em dúvida o que foi publicado em 2016.

Segundo o ex-advogado, pagamentos a João Santana e Mônica Moura foram realizados em contas da Suíça abertas em nome da offshore - empresa de paraíso fiscal - chamada Shellbill. A soma dos valores depositados é de US$ 4,8 milhões. Na mesma planilha, há registros de outras transferências, mas não é possível saber quem é o beneficiário e, por decisão da Justiça, os registros foram tarjados.

As informações omitidas mostram que João Santana agiu muito mais em benefício da Odebrecht do que apenas para campanhas do PT, principalmente de Lula e Dilma. Campanhas na América Latina foram realizadas pelo publicitário e ele fez lobby pela empreiteira.

Flechada no Janot

Sobrou até para o ex-procurador-geral Rodrigo Janot, antecessor de Raquel Dodge. Durán afirmou na CPI da JBS que teve dúvidas sobre a atuação de integrantes da equipe do Procuradoria-Geral da República e do Ministério Público Federal. E as suspeitas dele caem sobre a qualidade de informações fornecidas pela Odebrecht em seu acordo de delação envolvendo 77 executivos. 

Uma das informações foi a de João Santana. Outro dos nomes mencionados foi o de Marcello Miller. Segundo Durán, o ex-procurador e braço direito de Janot o forçou a dizer quais políticos e autoridades ele deveria delatar em um eventual acordo. Havia uma pressão para fazer “delações a la carte”, diz o ex-advogado da Obebrecht.

Janot também reclamou da atuação de Miller. Para ele, o ex-procurador fez um jogo duplo entre a PGR e Joesley Batista, o chefe da JBS.

Sem defender o PT, Tacla Durán colocou figuras-chave em dúvida. Ele afirma que não atacou o juiz Sérgio Moro, mas tudo o que falou deixa a Lava Jato mais debilitada.

Assista o depoimento.