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Estadão diz que Bolsonaro é de esquerda: faz sentido?

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Breves considerações sobre o texto do jornal que faz comparações rasteiras que podem confundir o leitor desavisado sobre as reais intenções de Jair Bolsonaro caso chegue ao poder em 2018.

Estadão diz que Bolsonaro é de esquerda: faz sentido?

(Foto: Lucio Bernardo Jr./Câmara dos Deputados/Fotos Públicas)

O grande jornal de São Paulo começa a se preocupar com o pré-candidato de extrema-direita. Será que suas ideias são retrógradas demais? O que há de equivocado no texto? E quais pontos ressaltam o medo que a própria direita tem de Bolsonaro.

O deputado Jair Bolsonaro foi tema de um texto do jornalista Gilberto Amendola do jornal O Estado de S.Paulo. Com o título "O antipetista com ideias de esquerda", a reportagem defende que o congressista de extrema-direita pode ser uma ameaça à direita neoliberal se for realmente candidato ao cargo de presidente da República em 2018.

Ele tem ideias de esquerda mesmo?

Estatismo como vertente de esquerda

O Estadão é taxativo no começo do texto, afirmando com todas as letras que Bolsonaro apoia um governo forte e intervencionista quando o próprio pré-candidato é contraditório em entrevistas, ora apoiando privatizações, ora falando no nacional-desenvolvimentismo. A confusão é óbvia porque Jair Bolsonaro se diz fã dos ditadores e generais da ditadura, como Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. E nenhum deles apoiou uma economia liberal, apostando na reserva de mercado e no Estado grande como prerrogativas sociais.

Em seguida, o jornal se vale de declarações dos cientistas políticos Bolívar Lamourier e Christian Lohbauer. Entre os dois, Lamourier faz parte do círculo de intelectuais que orbitam ao redor do PSDB e são extremamente críticos ao PT. No entanto, ele parece não concordar com um candidato fora do círculo tucano, como é o caso de Bolsonaro, embora diga que o partido de direita "perdeu a identidade e beira o surrealismo".

Analistas das corretoras Gradual e XP Investimentos, também consultadas pelo Estadão, também afirmam que Bolsonaro trará insegurança ao mercado financeiro se frear as reformas encabeçadas por Michel Temer. O professor da FGV Joelson Sampaio endossa as mesmas teses.

Por que estes intelectuais pensam desta maneira? Porque eles ainda separam esquerda e direita pela presença estatal na economia, o que é uma falácia. Desde a Revolução Francesa de 1789, o conceito de esquerda se desenvolveu em torno de uma pauta de maior igualdade social, enquanto a direita defende direitos individuais e, portanto, os mecanismos de lucro do capital. O Estado forte tem mais a ver com governos mais ou menos autoritários.

O Estadão, portanto, reduz a opinião de especialistas para apontar, de maneira controversa, que Jair Bolsonaro teria alguma familiaridade com as pautas de Lula e de Dilma com a maior presença do governo na economia. Isso não é verdade. O Estado brasileiro, para o ex-capitão Bolsonaro, serve como órgãos repressor e, portanto, de segurança nacional. Os ex-presidentes petistas pensam no governo e nos organismos estatais como mecanismos de distribuição social. O PT nunca se opôs à pauta liberal, desde que ela não impedisse a transformação das classes sociais em seus governos.

Mas vamos às declarações em si

Bolívar Lamourier disse ao jornal Estadão: “Com ele [Bolsonaro], o País caminharia, sem dúvida, para a velha tradição populista e nacional-desenvolvimentista, cujo último exemplo foi o governo de Dilma Rousseff. O contrário do que, no meu entender, do que o Brasil precisa”.

Christian Lohbauer vai na mesma linha e amplia a crítica mais simpática aos tucanos, que adotaram Geraldo Alckmin como candidato em 2018: “Ele se ampara na burocracia militar-desenvolvimentista. Não fala sobre concorrência e representa um nacionalismo de proteção. Não fala em integração comercial, das cadeias produtivas, não fala em inserir a economia nas cadeias internacionais...”.

André Perfeito, economista da Gradual, solta o seguinte: “[Bolsonaro] tem um modelo nacional-desenvolvimentista, um pouco antimercado”.

Qual a prova de que Jair Bolsonaro rejeita o mercado financeiro? Ficamos sem a resposta no texto. O pré-candidato responde que técnicos em economia são os mesmos que "levaram o Brasil ao buraco", e reforça que é oposição à esquerda.

Ele próprio não é claro em suas ideias, de acordo com as declarações públicas. Mas o Estadão, ainda assim, tascou na manchete que Bolsonaro pode ser meio esquerdista.

Dá pra entender?