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FIFA e Globo: uma delação premiada que precisa ser debatida no Brasil

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Caso envolve o maior conglomerado de comunicação brasileiro pela primeira vez e envolve o futebol. Emissora usou o Jornal Nacional para negar acusações.

FIFA e Globo: uma delação premiada que precisa ser debatida no Brasil

(Foto: Divulgação/TV Globo)

A emissora que abocanha a maior parte dos anúncios publicitários no Brasil, com filiadas que cobrem o país, pode ter utilizado licenças do esporte mais popular nacional pagos com propinas. A acusação de corrupção vem de fora do território brasileiro.

Os jornalistas Ken Bensinger e Alexandre Aragão, do BuzzFeed, divulgaram no dia 14 de novembro de 2017 que a Rede Globo de TV é acusada de pagar propina por direitos de transmissão da Copa Sulamericana e da Liberdadores da América. A informação vem do empresário argentino Alejandro Buzarco em depoimento na cidade de Nova York e é a primeira vez que o grupo brasileiro é envolvido diretamente no escândalo da Fifa.

Buzarco é ex-presidente da produtora Torneos, também conhecida como TyC, e negociava com os canais de televisão os direitos de transmissão. Seu trabalho englobava tanto aa Argentina como outros países da América Latina. O empresário está  em acordo de delação premiada com a investigação liderada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos contra a Fifa, a CBF e outras organizações do futebol internacional.

O executivo pagou US$ 112 milhões de multa e afirmou à juíza Pamela K. Chen que outras emissoras também pagaram propina.

O delator Alejandro Buzarco afirmou que participou de um jantar no restaurante Tomo Uno, em Buenos Aires, com a presença do então presidente da CBF, José Maria Marin, do atual ocupante do cargo, Marco Polo Del Nero, e do então diretor de Esportes da Globo, Marcelo Campos. A reunião teria ocorrido em junho de 2012. Os conhecidos na imprensa pelo apelido de "cartolas do futebol" teriam negociado propinas na ocasião.

Antes da Globo, a principal empresa brasileira de mídia envolvida no escândalo da Fifa era a Traffic, pertencente à José Hawilla. Ela também fechou acordo com as autoridades dos Estados Unidos e concordou em pagar US$ 151 milhões a título de indenização.

Contribuição milionária da Fox Sports, entre outras

Além do grupo da família Marinho, a empresa Fox do empresário Rupert Murdoch está no escândalo. Segundo Burzaco, a Fox Sports pagou US$ 3,7 milhões pelos direitos de transmissão da Libertadores e da Sulamericana. O canal é dono dos direitos para transmitir a competição e é sublicenciado para a Globosat no Brasil desde 2012.

Alejandro Buzarco também cita a participação da mexicana Televisa no esquema. O ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira teria recebido US$ 600 mil por ano pelo esquema desde 2006. As propinas eram provenientes dos contratos de transmissão da Copa Libertadores e da Copa Sulamericana, que são torneios organizados pela Conmebol.

Segundo Buzarco Teixeira recebia os pagamentos em contas no Oriente Médio, na Ásia e em Andorra. Os pagamentos chegaram a ser viabilizados, segundo o argentino, pelo próprio dirigente. "Nós tinhamos problemas constantes com bancos que não queriam enviar dinheiro a esses destinos exóticos", disse o empresário em delação premiada.

Outro ex-presidente da CBF, José Maria Marin, também foi acusado pelo argentino de receber propina. Atualmente ele está em prisão domiciliar em seu apartamento na Trump Tower, em Nova York, e é réu na mesma ação em que o argentino testemunhou. Marin nega ter recebido dinheiro de forma ilegal.

A resposta da Globo

A emissora respondeu no programa Jornal Nacional no mesmo dia, apresentado pelos jornalistas Willian Bonner e Renata Vasconcellos. "Sobre depoimento ocorrido em Nova York, no julgamento do caso Fifa pela Justiça dos Estados Unidos, o Grupo Globo afirma veementemente que não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina. Esclarece que após mais de dois anos de investigação não é parte nos processos que correm na Justiça americana. Em suas amplas investigações internas, apurou que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos. Por outro lado, o Grupo Globo se colocará plenamente à disposição das autoridades americanas para que tudo seja esclarecido. Para a Globo, isso é uma questão de honra. Não seria diferente, mas é fundamental garantir aos leitores, ouvintes e espectadores do Grupo Globo que o noticiário a respeito será divulgado com a transparência que o jornalismo exige", disse o veículo em nota.

A Globo não esclareceu como foi realizado a sua "investigação interna" e também não comentou outras acusações que sofreu no passado. Ela teria utilizado empresas de fachada nas Ilhas Virgens Britânicas para sonegar impostos referentes aos direitos de transmissão da Copa de 2002. O escândalo da época gerou um rombo de R$ 600 milhões que a Globo só sanou por volta de 2014.

Os impostos não pagos, com juros e correção monetária, ultrapassaram R$ 1 bi.

Outras acusações que envolvem a Globo

A emissora também é acusada de comprar os direitos de transmissão das Copas de 2022 e de 2030. O blog do jornalista Rodrigo Mattos, do UOL, afirmou que a Fifa está disposta a cobrar indenização se for comprovado os delitos.

A negociação teria envolvimento do ex-presidente da Fifa, Julio Grondona. ''Como o Departamento de Justiça já reconheceu, a Fifa é vítima de alegadas irregularidades que estão sob questão no julgamento. Fifa fortemente apoia e encoraja as autoridades norte-americanas pelos esforços de responsabilidade os indivíduos que abusaram das suas posições para corromper o futebol internacional para seu benefício próprio. No caso de o juri constatar que os acusados são culpados dos crimes que são acusados, a Fifa vai tomar medidas necessárias para procurar restituição e recuperar qualquer perda causada pelas suas más condutas", disse a entidade em nota.

O jornal Folha de S.Paulo publicou no dia 19 de novembro um perfil sobre o advogado Marcelo Campos Pinto. Ele teria criado dentro da TV Globo o modelo de pagamento a "cartolas do futebol" que seria replicado em todas as categorias esportivas de interesse da emissora.

O governo Temer, alvo de reportagens da Rede Globo sobre propinas em Joesley Batista e a JBS, teria ficado feliz com as denúncias da Fifa e estaria estudando criar uma CPI sobre o caso no Brasil. A informação é da coluna Radar da revista Veja, que retrata um clima de "revanche" no Planalto. Michel Temer pode revogar a concessão pública que dá direito ao Grupo Globo para manter sua TV aberta.

Uma morte misteriosa e o que devemos discutir

Adolfo Lagos, vice-presidente da Televisa, foi assassinado no dia 19 de novembro na Cidade do México, enquanto andava de bicicleta. De acordo com a versão de testemunhas, dois homens que estavam numa moto abordaram o executivo, que foi atingido por tiros. Largos chegou a ser levado para um hospital local, mas não resistiu aos ferimentos. Ele tinha 69 anos e teria sofrido uma tentativa de assalto.

Um reportagem do UOL publicada ainda no mesmo dia afirma que Marcelo Campos Pinto da Globo ainda tem influência na CBF. O jornalista Juca Kfouri, que denuncia Marin, Ricardo Teixeira e outros nomes associados com a corrupção do futebol há décadas, resume a questão: "todos negam" envolvimento no propinoduto.

Por ser um escândalo com magnitude internacional e por envolver o maior grupo de comunicação do Brasil, o caso da Fifa precisa mesmo ser discutido por todos.

Sobretudo aqueles que apreciam futebol.