POLÍTICA

Folha de S.Paulo perde com a saída de Guilherme Boulos

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Sobre a saída do colunista líder do MTST e da "pluralidade" do maior jornal brasileiro.

Folha de S.Paulo perde com a saída de Guilherme Boulos

Guilherme Boulos, o líder do MTST e da esquerda atual brasileira, está fora do jornal Folha de S.Paulo desde o dia 9 de março, quando publicou seu último texto. A publicação diz que sua saída é natural. A ombudsman do jornal alerta que a publicação está com falta de diversidade, no concurso de ilustradores até as charges que já estão na Folha.

Para mim, os dois assuntos, embora diferentes, são correlatos.

Não é raro ler do editor-executivo, Sérgio Dávilla, que o jornal prima por pluralidade. De fato, existe um colunismo de esquerda forte na Folha. De Gregório Duvivier, Vladimir Safatle, Laura Carvalho, André Singer e Juca Kfouri, que são abertamente esquerdistas, até Mario Sergio Conti e Elio Gaspari, que são centro-esquerda e mais focados no noticiário.

No entanto, há uma entrada de gente de direita mais notória, do juvenil Kim Kataguiri (opositor de Boulos, no MBL) até Demétrio Magnoli, Reinaldo Azevedo e o senador Ronaldo Caiado. Há defensores, dentro da Folha, da bancada ruralista, do empresariado e dos bancos.

Assinei a Folha por alguns anos. Ao lado do Estadão, que lia mais pelo noticiário econômico, a Folha de S.Paulo sempre respirou ares mais progressistas, sobretudo no meio opinativo.

O que se vê na Folha de hoje é que ela visa apenas vender mais papel físico entre leitores mais velhos, conservadores e alguns reacionários. E, dentre estes reacionários, muitos estão migrando para sites na internet como O Antagonista.

"Recebi nesta quarta-feira uma ligação da direção da Folha dizendo que esta seria minha última coluna. Não estranhei. Estranhei, na verdade, que essa ligação tenha demorado tanto tempo para acontecer. Tenho posições antagônicas às do jornal e, principalmente, uma militância que incomoda a maior parte dos leitores e anunciantes que o mantém", diz Boulos, resumindo o caso.

E ele arremata: "A vida é feita de escolhas. Quando um jornal que pretende ser equilibrado toma a decisão de reduzir seu já restrito grupo de colunistas afinados com o pensamento de esquerda e manter um batalhão de colunistas conservadores e de direita, aprofunda sua opção por um certo tipo de público. Sinal dos tempos".

O problema é o que a Folha de S.Paulo e seus leitores perdem com a retirada de Boulos. Sua ocupação na Avenida Paulista é um exemplo de luta à esquerda no atual cenário político.

No entanto, as pessoas só querem ler o que elas concordam, certo?

Guilherme Boulos ainda fará mais sucesso fora das páginas da Folha.