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Fome Zero de Lula versus "Ração Humana" de Doria: projetos com visões opostas

Pedro Zambarda de Araújo
Autor
Pedro Zambarda de Araújo

O objetivo das duas iniciativas é o mesmo: lidar com a fome dos pobres. No entanto, um projeto tem empatia com as classes baixas, enquanto o outro não lidou com sua própria repercussão.

Fome Zero de Lula versus "Ração Humana" de Doria: projetos com visões opostas

(Foto: José Cruz/Agência Brasil/Prefeitura de São Paulo/Divulgação)

O combate à fome é um problema nacional que mobiliza candidatos em eleições e governos no poder. Recentemente tivemos um exemplo de uma má política pública aplicada neste segmento, mas já existiu uma iniciativa que funcionou no plano brasileiro.

Fome Zero foi criado em 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao cargo de presidente da República. Ele é considerado o maior programa de combate à fome já implantado no Brasil e se consolidou pela implantação de cartões com auxílio financeiro, chamado de Bolsa Família, e também pela construção de cisternas no nordeste brasileiro. 

A iniciativa lulista foi criticada por sua falta de foco, mas tirou 36 milhões de brasileiros da linha da pobreza e da miséria, segundo dados oficiais do governo federal. A iniciativa bem sucedida do Fome Zero, sobretudo com o Bolsa Família, desenvolveu iniciativas locais que estavam fragmentadas na gestão Fernando Henrique Cardoso e nos planos estaduais.

O sucesso foi tamanho que o ex-presidente criou o Instituto Lula com o intuito de continuar o combate à fome e as missões que estabeleceu em países africanos, recebendo financiamento por palestras. A entidade hoje é alvo de investigação na Operação Lava Jato, sobretudo após a aquisição de um terreno com contribuição da Odebrecht.

Menos ambicioso, mas ainda na mesma frente, o prefeito tucano João Doria Jr. lançou em outubro de 2017 o projeto Alimento para Todos. A ideia é lançar um alimento granulado feito através de um composto de farinata. Ele é processado a partir de comida vencida ou perto do vencimento.

De maneira pejorativa, setores da esquerda política chamaram a iniciativa de "ração humana". O Conselho Regional de Nutrição afirmou que o produto fere o Direito Humano à Alimentação Adequada, um dos avanços obtidos do ponto de vista jurídico envolvendo o Brasil. A engenheira de alimentos Jana Bianchi, formada pela Unicamp, também criticou a iniciativa de Doria. "Considerando que o produto é liofilizado, meus conhecimentos técnicos me permitem afirmar que a textura é sofrível e que sim, compostos de aroma e sabor são invariavelmente retidos, em maior ou menor quantidade, no produto final", afirmou a especialista.

O prefeito revidou afirmando que "pobre não tem hábito alimentar, mas fome". A afirmação surgiu na verdade de um programa "O Aprendiz" que Doria apresentava na TV em 2007 e viralizou nas redes sociais. Numa coletiva de imprensa com o cardeal dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, tanto o político quanto o religioso reforçaram a declaração.

Diferente do Fome Zero, o Alimento para Todos possui inúmeros pontos polêmicos já de partida. A empresa Plataforma Sinergia, da executiva Rosana Perrotta, não tem sede própria ou produção pronta da "ração". Segundo o prefeito Doria, a farinata já seria distribuída em novembro deste ano.

Uma reportagem da Rede Brasil Atual aponta que a sede da Sinergia na verdade é um endereço residencial. A vereadora Juliana Cardoso, do PT, foi ao local e fez uma denúncia. A vereadora Sâmia Bomfim, do PSOL, abriu uma petição para convocar uma CPI sobre o tema, para investigar irregularidades com apoio de parlamentares.

As duas congressistas apontam que a Sinergia tem ligação com restaurantes e entidades que teriam interesse em obter abatimento de impostos produzindo a farinata para o programa municipal. João Doria propôs e depois recuou no uso do alimento processado na merenda escolar, criticado pela medida.

Dois programas alimentares e duas visões de mundo opostas

De origem nordestina e na pobreza, Lula tem uma visão mais empática com as classes populares. Mesmo atingido por escândalos de corrupção, o ex-presidente conseguiu ter uma imagem externa ligada aos menos favorecidos no Brasil.

Colocando-se como o anti-Lula nas eleições de 2018, Doria não parece ter qualquer conhecimento sobre a pobreza considerando suas declarações oficiais. Ele tenta fazer um populismo de direita, sobretudo utilizando as redes sociais, mas não consegue lançar iniciativas consistentes por afobação e falta de planejamento claro.

As políticas lulistas foram tão efetivas que, em 2014, o Brasil deixou o Mapa da Fome, que elenca países cuja população ultrapassa 5% em situação de risco alimentar. O relatório é organizado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação). Com a crise econômica e a gestão Michel Temer, o país pode voltar a ter cidadãos famintos.

Doria, que nem se declara abertamente candidato presidencial, não propõe nada similar com a iniciativa Alimento para Todos. A ideia soa como suas fantasias de gari, pedreiro e outros personagens. Parece mesmo ação de marketing de uma classe mais rica.