POLÍTICA

Livro mostra por qual razão Paulo Henrique Amorim critica a grande mídia

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Lula aparece em poucas linhas do livro "O Quarto Poder" (Editora Hedra, 2015). Recorrendo a memórias e anotações escritas à mão, PHA volta ao começo de sua carreira para abordar, essencialmente, o que é a Rede Globo hoje. E não utiliza tanto a expressão "PIG", o "Partido da Imprensa Golpista". A ideia é falar que a Globo é, de fato, um poder no Brasil.

Livro mostra por qual razão Paulo Henrique Amorim critica a grande mídia

"Quarto Poder" é uma expressão que vem do teórico Edmund Burke, um dos pais do conservadorismo moderno e crítico contumaz da Revolução Francesa. Paulo Henrique Amorim, no entanto, emprega a expressão em um livro para fazer uma crítica de cunho progressista. O "4 Poder", que tem um desenho parecido com o "1º Poder", é a TV Globo e a família Marinho, donos da maior televisão aberta no Brasil e de pelo menos 60% do bolo publicitário nacional.

Autor do blog Conversa Afiada, que existia desde os anos 90 como um programa de economia na TV Cultura e se tornou um site pró-esquerda e anti-PSDB, PHA sempre foi reconhecido como aquele "ex-âncora da Globo que é rancoroso com os antigos chefes". Ativo aos 74 anos e mordaz em suas críticas, o carioca Amorim tem o que falar porque atua na imprensa desde 1961, no pré-golpe militar. Atualmente na TV Record, reserva o blog para realmente disseminar suas opiniões. E o livro "Quarto Poder" veio coroar todas as alfinetadas de Amorim.

Poucos sabem, mas ele foi o primeiro correspondente internacional da revista Veja em Nova York, trabalhando com Carlos Lacerda, o golpista que tentou derrubar Getúlio Vargas. Foi um dos principais editores da revista EXAME e criou o anuário empresarial Melhores e Maiores. Foi na Editora Abril que consolidou sua amizade com Mino Carta - e de onde provavelmente ele alfineta Elio Gaspari até os dias atuais.

O "Quarto Poder", no entanto, se debruça em detalhes da temporada de Paulo Henrique Amorim no Jornal do Brasil, considerado por ele o "New York Times brasileiro". A paixão pela imprensa diária de qualidade e a concorrência com o Globo no Rio, caminhando para a ruína da publicação sob a família Nascimento Brito o fez ter sentimentos antagônicos antes de ir para a televisão. Já dentro da Globo, criou o slogan "Olá, tudo bem?", foi correspondente da CNN e ampliou a cobertura de economia com Lilian Witte Fibe. Na época, Míriam Leitão não era uma das jornalistas mais premiadas do Brasil e da emissora dos Marinho, o que deixava PHA na liderança da cobertura.

Amorim usou a televisão para se promover e foi por ela promovido, mas é, acima de tudo, um jornalista de texto.

Os anos Lula levaram Paulo Henrique Amorim para a internet, onde ele passou pelos portais UOL e iG, enquanto mantinha participações na TV Cultura. O desligamento das emissoras da grande mídia e sua entrada na Record, sobretudo para treinar equipes, o tornou mais próximo do PT e do trabalhismo de Lula.

O livro, no entanto, não se debruça em elogios ao ex-presidente. Considera um erro grave do Partido dos Trabalhadores ter mantido o financiamento público que abastece atualmente os cofres da Globo. E, politicamente, PHA se sente mais herdeiro político de Leonel Brizola, político do PDT que foi acompanhado por Amorim desde o golpe de 1964.

Se fosse recomendar um livro a um estudante de jornalismo, recomendaria sim o "Quarto Poder". Sua linguagem é muito diferente do abuso de ironias do blog Conversa Afiada e seus dados são preciosos contrapontos. Tanto à grande mídia quanto a muitos jornalistas contemporâneos de Amorim.

Livro mostra por qual razão Paulo Henrique Amorim critica a grande mídia

E recomendaria por este trecho abaixo.

"Muitas pessoas, em debates e palestras, perguntam por que eu cuspo no prato em que comi: Falar mal da Globo, depois de trabalhar nela por doze anos, morar em Nova York, viajar o mundo, ser bem pago...

Costumo responder assim.

Dediquei à Globo profissionalismo, lealdade e trabalho.

Como fiz na Abril, no Jornal do Brasil, na TV Manchete, na Band, na TV Cultura, no ZAZ, no Terra, no UOL e na TV Record.

Mas existe uma diferença entre o trabalho no regime servil e no regime capitalista.

No regime servil, o patrão é dono do escravo.

No regime capitalista, patrão e empregado contratam trocar trabalho por salário.

Quando uma das partes fica insatisfeita, se desfaz o contrato.

Uma pequena diferença.

Alforriado, critico patrões e empregos. E se trato mais da Globo e de Roberto Marinho, é porque eles fizeram por merecer".