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Lula e a aliança vergonhosa com Renan Calheiros são espólios do PMDB rachado

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

O senador traiu o PT e voltou pelo impeachment de Dilma Rousseff. Agora Renan aparece dividindo palanque com Lula. O que ele pretende? E Lula? Vai voltar a fazer alianças com as velhas raposas da política, sabotando a esquerda?

Lula e a aliança vergonhosa com Renan Calheiros são espólios do PMDB rachado

(Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula/Fotos Públicas)

O PT, mesmo golpeado, parece não ter se liberado dos velhos vícios. A autocrítica se faz necessária num momento decisivo da pré-campanha presidencial. O homem que pode ser o futuro do partido pode colocar tudo a perder neste aperto de mãos. Mas existem razões para o acontecimento.

Em 22 de agosto de 2017, Lula estava em pré-campanha presidencial passando por Alagoas. O ex-presidente chegou até a cidade de barco, numa jornada registrada ao vivo em suas redes sociais, especialmente no Facebook e no Twitter. Até então estava tudo certo nas aparições públicas de Luiz Inácio Lula da Silva.

Eis que Lula sobe ao palanque com o governador do estado, Renan Filho, e seu pai, o senador Renan Calheiros do PMDB. Renan, animal antigo da política nacional, aproveitou o evento para capitalizar sua audiência com o ex-presidente.

O que aconteceu para o presidente mais popular da história brasileira recente aparecer com coronéis do nordeste?

Os espólios

Há um ditado comum no jornalismo que diz "na dúvida, siga o dinheiro". Renan Calheiros foi o homem que protegeu Fernando Collor de Mello enquanto pôde do impeachment nos anos 90, Livrou-se, em 2007, de denúncias que vieram de uma reportagem de capa da revista Veja. Na ocasião, a empreiteira Mendes Júnior pagava R$ 12 mil por mês à jornalista Mônica Veloso, sua amante, por trocas de favores. Renan foi absolvido das acusações, numa manobra que contou com a ajuda de seu padrinho político, José Sarney.

Quando Sarney saiu da presidência do Senado, no governo Dilma Rousseff, Renan assumiu seu posto e defendeu o quanto pôde a ex-presidente eleita. No processo de impeachment arquitetado por Eduardo Cunha, as pressões políticas do próprio PMDB e de Michel Temer forçaram Renan Calheiros a mudar seu voto sobre o impedimento.

O golpe parlamentar, no entanto, não foi total. Apesar de condenar Dilma sem crime de responsabilidade claro, Renan votou com o senador Randolfe Rodrigues (Rede) para manter os direitos políticos da ex-presidente.

Depois da deposição, Renan Calheiros parecia ser mais um aliado de Temer. No entanto, a ação do STF de dar seguimento às investigações da Operação Lava Jato o levou a mudar de direcionamento político. Renan chegou a recusar o pedido de afastamento da presidência do Senado pedido pelo Supremo. Simplesmente não recebeu a documentação que a Justiça queria obrigá-lo a receber.

Numa habilidade política pouco vista no cenário nacional, dobrou o Poder Judiciário e saiu da presidência do Senado sem ser cassado. Seu cargo foi ocupado por Eunício Oliveira, homem forte de Michel Temer. E, desde o episódio, Renan Calheiros virou oposição.

E virou petista desde criancinha, falando abertamente que apoia a candidatura do ex-presidente Lula, seu antigo aliado. Com a crise econômica aprofundada por um crescimento que não chega a 1% do PIB, o PMDB literalmente rachou entre Renan e Temer. Eduardo Cunha, o grande catalisador do processo, foi preso pela Lava Jato. E cada um dos congressistas teme uma judicialização generalizada.

Portanto, mais do que antigos vícios, o que interessa ao PT numa aliança com Renan Calheiros são os espólios desta disputa. Por sua vez, o que interessa em Lula para Renan é a recuperação de seu capital político depois de tantas manobras para se livrar da cadeia.

Lula declarou, em sua conta oficial no Twitter, no dia 25 de agosto: "Eu estou convencido que a aliança política continua necessária. O Renan pode ter todos defeitos, mas me ajudou a governar esse país".

O que está em jogo nesta disputa suja é uma pauta comum de sobrevivência política.

Unidos pela crítica à Lava Jato

No entanto, apesar das alianças baseadas em propinas entre PMDB e PT, há uma motivação digna nesta união mostrada em Alagoas. Com exceção das investigações feitas por Rodrigo Janot na Procuradoria-Geral da República baseadas na delação premiada de Joesley Batista e da JBS, nenhuma outra linha de apuração da Lava Jato atinge Michel Temer.

Temer se beneficiou com as denúncias do juiz Sérgio Moro afetarem principalmente partidos como PP e PT, sem tocar em seus homens fortes, como Romero Jucá e Geddel Vieira Lima. Quando Eduardo Cunha ameaçou delatar o presidente da República em exercício, Moro não considerou suas declarações. O temor de Renan, com a blindagem de Michel Temer, é justamente todos os inimigos deste governo serem investigados.

É o que Temer fará se Raquel Dodge cumprir sua função de afundar os avanços que Rodrigo Janot fez nas investigações de seu grupo governamental.

O apoio político a Lula seria, portanto, uma aposta redobrada de que a crítica à Operação Lava Jato é o que vai prevalecer. E seria uma resposta de uma classe política unida contra os abusos do judiciário.

Corretos ou não, o ex-presidente e o senador golpista têm suas razões para trocarem abraços e apertos de mão numa aliança vergonhosa.