POLÍTICA

Marcos, cultura do estupro e a falta de responsabilidade da Globo

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Sobre a expulsão do BBB e o motivo que leva a gigante TV Globo a explorar audiência sem nenhuma responsabilidade na agressão de Marcos contra Emilly.

Marcos, cultura do estupro e a falta de responsabilidade da Globo

O médico Marcos Harter apontou o dedo na direção de Emilly Araújo, apoiado na boca dela, para calá-la. Não foi a primeira vez que fez isso. Aumentou o volume de voz e mandou que ela ficasse calada, logo após uma festa no Big Brother Brasil. Em outras imagens, ele ficou com o corpo em cima do dela, num sofá da casa e aconteceu isso por duas vezes. As agressões verbais foram claras, ocorrendo abuso psicológico. Emilly se queixa, em uma das brigas, de agressão física. A violência aconteceu narrada pelo apresentador Tiago Leifert e a TV Globo não tomou medidas para sua expulsão imediata. Alegou que cabia a Emilly interpretar o acontecimento como abuso ou não.

No paredão daquele domingo (9), Marcos ficou na casa e Marinalva foi eliminada. O público que assiste BBB e vota nos participantes do reality show aparentemente não ligou pra situação de abuso explícita e manteve o acusado.

O caso da Globo foi corretamente caracterizado pelo jornalista Maurício Stycer como "covarde". Mas o problema da maior emissora de TV aberta não acaba aí.

Em determinados momentos da agressão registrada pelas câmeras, a impressão que se teve é que Marcos infringiu ou chegou perto de infringir a lei Nº 12.015, que define estupro e crime de liberdade sexual. A letra fria da legislação coloca que o delito é "constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso". No momento em que Marcos coloca o próprio corpo sobre o da parceira e imobiliza ela, Emilly poderia denunciar uma agressão mais grave do que abuso físico ou psicológico.

A socióloga Ana Paula Portella, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Violência, Criminalidade e Políticas Públicas de Segurança da UFPE, definiu o caso como abuso em reportagem do Diário do Pernambuco que também aponta o favorecimento do casal no reality. Na mesma linha, a deputada estadual Terezinha Nunes (PSDB) colocou que a agressão entraria na Lei Maria da Penha.

Lembrando da lei Nº 11.340, no artigo sétimo: "I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal; II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação".

Dito e feito. Na tarde desta segunda-feira (10), a delegada titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) de Jacarepaguá, Viviane da Costa, esteve nos estúdios da Rede Globo para pedir as imagens das discussões entre Marcos e Emilly. A policial conversou com a produção e foi instaurado inquérito de investigação. Marcos Harter, em seguida, foi expulso do programa, enquanto Emilly se submeteu a um exame para verificar lesões corporais.

A falta de responsabilidade da Globo

Não foi o apresentador Tiago Leifert individualmente e nem seu texto. O caso evidencia que Boninho e a direção do Big Brother Brasil exploraram uma agressão verbal e física de um homem contra uma mulher para ter audiência. E uma agressão que poderia ter resultado em mais crimes além do abuso. A TV Globo teve culpa nos acontecimentos recentes.

Marinalva, a eliminada no paredão com Marcos, reclamou no programa da apresentadora Ana Maria Braga que temeu discutir com o ex-BBB na cozinha quando ele estava próximo de facas.

Seguindo a receita das edições anteriores, a Globo apelou apenas para o sensacionalismo barato envolvendo os participantes do jogo e não tomou precauções jurídicas e éticas caso a brincadeira fugisse do controle. Numa TV aberta com audiência decadente, cada ponto no Ibope aparentemente é uma vitória para manter a sua estrutura cara de subsistência.

Da publicidade estatal, principalmente do governo federal, a TV aberta chegou a corresponder abocanhar 59% nos anos Lula e Dilma, maior do que 49% na era FHC. Só para a Globo chegou mais de R$ 6,2 bilhões, o que dá mais de sete vezes a publicidade da revista Veja no período completo. A Rede Globo faz entretenimento, jornalismo e programação cultural, sendo considerada uma das maiores televisões do mundo e o maior oligopólio de comunicação brasileira. Sem leis como a americana para frear propriedade cruzada, tem TV, jornal, revista e diferentes formatos e subsidiárias sem nenhum freio.

Além do dinheiro público abundante, a Globo também se beneficia de um mecanismo privado chamado BV.  A Bonificação por Volume dá uma verba adicional para agências de publicidade fecharem patrocínios com aquela empresa, concentrando as campanhas num veículo gigantesco e cruzado que desfavorece concorrentes menores ou mais especializados.

Dito isso, uma gigante destas, sustentada com o dinheiro público e muita verba privada concentrada, rodou imagens de um abuso criminoso no seu maior programa de entretenimento televisivo e tentou encobrir o caso. Felizmente a polícia ficou em cima e, com a comoção social na internet, tomou as devidas providências de investigação.

Reclamar do BBB, desligar a sua TV ou nunca mais consumir Globo não resolve o problema. Mudanças acontecem se deixarem de anunciar ou botar dinheiro público na emissora, porque ela tem poder político efetivo.

A coisa dói no bolso.

A cultura do estupro

Sou homem, hétero, cis e gozo de privilégios sociais que muitas das mulheres indignadas com o caso de Emilly Araújo não possuem. Por isso, a discussão sobre o crime no BBB é política, midiática e precisa envolver uma das expressões-chave do feminismo.

A cultura do estupro é uma expressão difundida por movimentos feministas em 1970 para caracterizar ambientes propícios ao abuso sexual e crimes do mesmo segmento. Trata-se de uma série de características próprias do machismo que instigam a agressividade masculina a ponto de objetificar a mulher, transformar sexo numa relação de poder sem consentimento e perpetuar abusos que cercam estas questões.

Marcos Harter cometeu atos que merecem investigação da polícia para se constatar estupro ou não. Mas o abuso físico e psicológico está flagrante nas imagens registradas. E é bom ouvir as mulheres vítimas de casos similares para entender a gravidade do que aconteceu e da irresponsabilidade da Globo no caso. Foi apologia ao crime.

O maior grupo de comunicação brasileiro usou crimes abjetos para conquistar audiência diante dos nossos olhos. Na edição passada do BBB, uma acusação grave de estupro foi abafada.

É bom a gente parar de falar apenas "ah, isso é só BBB" e entender que os limites legais foram quebrados de maneira grave no caso Marcos x Emilly.

A Rede Globo precisa responder pelo que fez. E isso não envolve só expulsar o brother.