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Narramos a mal documentada história dos games no Brasil, diz produtor de "1983"

Pedro Zambarda de Araújo
Autor
Pedro Zambarda de Araújo

Documentário "1983: O Ano dos Videogames no Brasil" conta as origens dos jogos eletrônicos no nosso país com a chegada dos primeiros consoles. O Storia Brasil, por meio do Drops de Jogos, entrevistou um dos produtores do filme, que está disponível na internet.

Narramos a mal documentada história dos games no Brasil, diz produtor de "1983"

(Foto: Divulgação)

A cena brasileira de jogos digitais é carente de uma documentação mais efetiva. Tomada pelo chamado "mercado cinza" da pirataria, muito sobre o passado dos videogames está perdido em coleções de aficionados e dividida entre diferentes museus que se dedicam a catalogar aparelhos e nem tanto as suas experiências. Pensando nisso, um grupo de jornalistas decidiu se dedicar a retratar o ano zero dos games no Brasil.

Narramos a mal documentada história dos games no Brasil, diz produtor de "1983"

(Foto: Artur Palma com a esposa Fernanda Domeniche no Canadá/Arquivo Pessoal)

O jornalista, produtor audiovisual e professor Artur Palma é uma das pessoas por trás do documentário "1983: O Ano dos Videogames no Brasil" (você pode assistir abaixo), idealizado pelo entusiasta de retrogames (jogos antigos) Marcus Vinicius Garrett Chiado. Palma concedeu uma entrevista ao Drops de Jogos através do Storia Brasil.

Ele explicou como foi a campanha de financiamento coletivo de "1983", o que movimentou sua produtora ZeroQuatroMídia e como foi a recepção do filme, lançado no MIS durante o dia 7 de setembro e depois disponibilizado na internet.

Confira.

Narramos a mal documentada história dos games no Brasil, diz produtor de "1983"

(Foto: Palma jogando MSX antes de saber andar, "onde tudo começou"/Arquivo Pessoal)

Storia Brasil: Como foi a campanha de crowdfunding pro documentário? Vocês tiveram alguma dificuldade? Quais?

Artur Palma: A campanha foi relativamente tranquila. Eu e o Marcus começamos a conversar uns 2 ou 3 meses antes dela começar, através do André Forte (do Kapoow!), que nos colocou em contato. Eu já tinha um documentário que começou no meu TCC e eu sempre procurava alguma ajuda para concluí-lo ou prometia que um dia daria um jeito de terminá-lo. 

Ao mesmo tempo o Marcus queria adaptar os livros dele. Acabou servindo como uma união de duas pessoas com um sonho comum: narrar a tão mal documentada história dos videogames no Brasil.

Enfim, depois desse contato, de muitas conversas, estimativas e cálculos, lançamos o crowdfunding com um trailer escrito pelo Marcus e revisado/apresentado pela Fê Domeniche, também da ZeroQuatroMídia.

Obviamente surgiram algumas críticas, gente falando que tinha problemas no trailer, que a gente tava pedindo um monte de dinheiro para botar no bolso. Teve gente que falou que a gente não entendia nada. Mas, felizmente, a grande maioria das pessoas apoiou, falou que o projeto era importante e o boca-a-boca foi importantíssimo.

Vale notar que até poucos dias antes do fim da campanha ainda não tínhamos atingido a meta de R$ 20 mil. Felizmente isso mudou e até a ultrapassamos por quase 20%.

As fontes ajudaram a mapear a cena de 1983? Ou foram os conhecimentos do Marcus Garrett?

AP: O Marcus já tinha uma pré-pesquisa com os livros. A ideia era usar aquele esqueleto e expandi-lo. Somamos as informações dele com as que eu tinha de outros materiais que eu havia capturado.

É um período bastante difícil de recontar, porque muitas informações acabam perdidas ou misturadas na cabeça das pessoas. Muitas informações são fragmentadas, outras estavam erradas nos jornais da época, isso sem falar na tentativa de restaurar e dar vida nova a equipamentos antigos, como a história do Top Game narrada no documentário. 

Foi uma pesquisa jornalística e arqueológica ao mesmo tempo.

SB: Quantas pessoas se envolveram no projeto? 

AP: Considerando envolvimento em qualquer pequena parte, a equipe total deve ser algo de mais de 20 pessoas, como o Saulo Santiago e sua ajuda com as artes, as animações do Roosevelt Garcia o jornalista Carlos Bighetti ajudou demais. Tivemos ajuda de pessoas do Museu do Videogame Itinerante, o Leandro Sá fez uma trilha sensacional, a UCEG (União Cearense de Games) e tivemos trilhas adicionais da Chippanze.

Outras pessoas que ajudaram foi a galera da Retro Rio e Retrocomputaria, a Fê Domeniche ajudou demais, o Vinicios Duarte e Eddy Antonini ajudaram em entrevistas, assim como o Daniel Mello.

Eu vou esquecer o nome de muita gente também, é um trabalho coletivo Mas no dia a dia por quase dois anos era eu e o Marcus.

SB: Por quanto tempo a ZeroQuatroMídia se envolveu?

AP: A ZeroQuatroMídia foi uma ideia que começou nos corredores da Cásper, com outros três colegas de sala, Thiago Rebouças, que hoje trabalha na agência Galo, o Rob Vitorino, que hoje está com a GoMídia, e o Willian Sassano, que ainda dá uma força ocasional. O Sassano trabalha em todos os projetos de audiovisual do Brasil e ajuda o canal umdois.

Assim que tivemos o piloto do TCC aprovado, a ideia era vender o documentário e conseguir bancar os outros quatro episódios contando a história dos videogames no Brasil. Depois de tentar vender para muita gente, ninguém se interessou. Decidimos começar um canal do YouTube com o mesmo nome já que todo mundo andava frustrado com as limitações dos seus trabalhos na época. 

Nessa época a formação mudou para eu, Rob, Willian, Daniel Mello e Jéssica Marques. Todos trabalharam na PlayTV. A ideia era produzir um conteúdo diferenciado com um foco em coberturas e entrevistas, além de dar um espaço grande para desenvolvedores nacionais.

O cenário era diferente e, infelizmente, o retorno foi quase nulo talvez até por culpa nossa, talvez. Depois de uns quatro ou cinco meses a galera começou a desencanar. Hoje, quem ajuda nas produções é o Daniel Mello, o Eddy Antonini e, claro, a Fê Domeniche, que apresenta nossos especiais de consoles.

Apesar de termos mudado um foco para produções com um orçamento mais humilde, e gameplays, a gente ainda tenta dar um foco legal em contar a história dos jogos. Por isso o sonho de documentários e proporcionar esse tipo de conteúdo sempre permaneceu. 

Até por isso nossas jogatinas sempre tentam adicionar detalhes e curiosidades sobre desenvolvimento e a época do lançamento. Foram feitas mais de 40 entrevistas, das quais eu fiz praticamente todas. O Marcus tentava acompanhar e o fazia sempre que era possível com seu trabalho.

SB: Vocês pretendem ligar o documentário com projetos como a Sociedade Histórica de Videogames do Brasil (SHVB)?

AP: A primeira coisa que fiz quando vi o anúncio deles foi mandar uma mensagem para o Fabão, Fabio Santana, perguntando como eu posso ajudar. Eu acho que o conhecimento é um bem universal e deve ser feito e criado para todos. 

Vejo a iniciativa como algo muito bom e espero poder ajudar o Fabão, o Gus e o nosso ex-BBB preferido (o jornalista Pedro Falcão) da melhor maneira possível.

Infelizmente, no momento, não temos nada, mas por mim a gente começa a se ajudar agora.

SB: Artur, pergunta mais pessoal, quando você começou a jogar? O projeto te puxou pelo lado mais íntimo também?

AP: Eu comecei a jogar com menos de um ano de idade. Meu pai escrevia como colaborador para o caderno de informática da Folha de S.Paulo. Lá ele escrevia sobre várias coisas, entre elas, MSX e, obviamente, jogos do computador.

Meu pai é um grande nerd. Não tinha muita escolha na loteria do DNA a não ser herdar parte disso.

Até hoje jogos como Knightmare, Eggerland Mystery, mais conhecido como Adventures of Lolo, Doki Doki Penguin Land e Boulder Dash. Eles estão entre meus jogos preferidos da plataforma.

Eu sempre senti uma grande carência do ponto de vista histórico dos games. Não apenas no Brasil. Por isso em todo lugar que eu trabalhei, eu sempre tentei consertar isso. Fosse escrevendo matérias sobre jogos antigos na finada GameMaster ou NGamer, produzindo vídeos e mini-documentários na PlayTV, ou com o conteúdo do meu canal.

Como eu disse anteriormente, um dos meus objetivos sempre foi concluir aquele documentário que comecei no meu TCC, exatamente pelo amor aos games. Fiz por achar fundamental expandir o conhecimento sobre essa área tão pouco documentada e para tentar ter uma abordagem mais série e menos "achística".

Esse projeto arrecadou mais de R$ 20 mil, mas o custo dele de hora de trabalho, equipamentos e tudo mais deu facilmente o triplo disso de custo. Qualquer um que já trabalhou com produção sabe que um documentário dessa extensão, com licenciamento de imagens, viagens, mais de 40 entrevistas e muito mais custa na casa das centenas de milhares de reais.

Foi um projeto de amor. Eu e o Marcus amamos muito o assunto, e espero que mais pessoas também amem e vejam o valor.

SB: Tem algo que eu não perguntei e você gostaria de falar?

AP: Muitas pessoas têm perguntado sobre a continuação do documentário. O próprio Marcus veio falar. Eu acho importante deixar claro que boa parte das entrevistas que haviam espaço para perguntar sobre Nintendo e Sega, eu perguntei. Além de já ter algumas horas de material do meu documentário anterior.

A vontade com certeza existe, eu joguei muito mais do MSX, NES para frente do que Atari, Odyssey, Coleco ou Intellivision. Mas hoje existe um obstáculo geográfico, pois estou morando em Toronto, no Canadá, e dou aula de produção e direção aqui na Sheridan College.

Eu precisaria conseguir financiar a ida ao Brasil por umas 2 semanas, e atolar a agenda de entrevistas, coisa de 20 ou 30 entrevistas nesse período, para somar com as mais de 20 ou 30 que eu já tenho e ter um conteúdo sério. Eu acho que o período da "Guerra dos Consoles" foi tão forte no Brasil quanto no resto do mundo e merece ser documentado.

Apenas não sei ainda como, se faria outro crowdfunding, se faria por conta própria, ou como tocaria as coisas.

Fora isso, é só um chororô meu mesmo, eu só queria destacar para a galera do "não existe conteúdo bom no Brasil" de iniciativas como o seu trabalho no Drops de Jogos, o trabalho dos caras do Overloadr, o que o Jogabilidade faz, além de gente como o Meia Lua, Resident Evil Database, o trabalho que o JogaêTV fazia (hoje tomam conta do Inside Xbox), a SHVB, WarpZone, Bonus Stage, o Gamerview... 

Enfim, existe uma centena de canais e sites produzindo conteúdo de altíssima qualidade, e a gente precisa ter mais vergonha na cara como um todo se ajudar mais ao invés de ficar com picuinha e se dividindo.

Ah, e é claro, não esqueça de se inscrever na ZeroQuatroMídia (risos)!