POLÍTICA

O ovo e o vexame de Doria podem brecar seu antipetismo

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Atingido na cabeça durante uma visita em Salvador, o prefeito de São Paulo pode ter encontrado um teto para o seu ódio antipetista. O que será que ele vai fazer sem poder odiar Lula nas redes sociais? Será que João Doria vai ter que trabalhar?

O ovo e o vexame de Doria podem brecar seu antipetismo

(Foto: Divulgação/ISTOÉ/Montagem/Jornalistas Livres)

Na segunda semana de agosto, a revista ISTOÉ deu capa ao prefeito João Doria Jr. Numa imagem muito inspirada na fotografia de Bill Clinton na Esquire americana, a publicação fez um perfil muito favorável ao político tucano, que parece querer concorrer à presidência da República em 2018 no lugar do seu guru Geraldo Alckmin.

E o discurso de Doria é ser o "Anti-Lula". O pré-candidato petista é francamente favorito nas pesquisas Datafolha, Ibope, Vox Populi e Paraná Pesquisas, com cerca de 30% das intenções de votos. O prefeito coxinha aparece com apenas 13%, mas ainda assim parece ser o nome mais poderoso do PSDB para o ano que vem.

A sorte de Doria, no entanto, pareceu virar.

O prefeito paulistano foi atingido por um ovo quando chegava à Câmara Municipal de Salvador na noite desta segunda-feira (7). Lá ele recebeu o título de cidadão soteropolitano. Ele estava na companhia de ACM Neto, do DEM, que também foi atingido.

Na terça (8), Doria respondeu em seu Facebook: "cada agressão que sofro mais me fortalece e me inflama na defesa da democracia. Nenhum tipo de violência me intimidará. Não à violência, não ao autoritarismo e não às ditaduras. Sim à democracia, a um país unido e de paz. Quem tem propósitos discute ideias, não agride".

O cara, que se vendia como "Anti-Lula" agora quer emplacar nas redes sociais a hashtag #BRUnido e fala em democracia ao chamar de companheiro um homem como Michel Temer.

As duas faces do discurso do ódio

Apoiado pela grande mídia, sobretudo os grupos Estado, Folha, Globo e Abril, o antipetismo se ergueu na sociedade como uma reação à popularidade dos governos Lula e Dilma do PT. Politicamente, é ele que se coloca no cenário como a real direita política, segundo o professor Pablo Ortellado da USP que fez pesquisas no Facebook e de campo sobre o tema. Baseado no ódio à esquerda e às pautas populares, que diminuem a riqueza da classe mais rica, o fenômeno anti-PT se sustenta neste cenário.

Doria pega no embalo deste discurso porque, para uma eleição que promete polarizar novamente com Lula, esta pode ser uma oportunidade de tomar votos de Bolsonaro, Marina Silva e outros candidatos que se alimentam do mesmo ódio. No entanto, o prefeito insiste na proposta de não apresentar um projeto de país ao abraçar o populismo de direita.

E atrai para si o mesmo ódio, sobretudo de setores da sociedade que se identificam com a esquerda e com as demandas populares num país economicamente desigual.

O vexame da ovada

Ao ser acertado por um ovo, assim como as figuras públicas de Margaret Thatcher, David Cameron, Ruth Kelly, Arnold Schwarzenegger (sim, o Exterminador do Futuro), Nick Griffin, Simon Cowell, Mário Covas e Paulo Maluf, João Doria foi ridicularizado diante de todos. E sua coragem contra o PT acaba quando ele está desmoralizado.

Páginas de esquerda como os Jornalistas Livres e um game chamado Doria Ovacionado já atingiram milhões de pessoas com memes do prefeito nas redes sociais. O jogo já foi apreciado mais de 43 mil vezes.

E como João Doria Jr. responde a isso? Brecando seu antipetismo. O discurso de ódio do prefeito é fraco e corresponde ao período em que vivemos: como Michel Temer tomou o poder na rasteira de Dilma Rousseff e do PT, está acabando desmoralizado pela própria sociedade que ignorou no processo.

Se Doria fosse mais esperto, brecaria sua campanha de ódio. Ainda dá tempo.