ELEIÇÕES 2018

O recuo de Luciano Huck e os riscos dos "aventureiros" de 2018

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Ainda é cedo para descartar completamente Huck do baralho eleitoral do ano que vem. No entanto, o recado é claro: até o momento são nomes tradicionais que estão vingando.

O recuo de Luciano Huck e os riscos dos "aventureiros" de 2018

(Foto: Reprodução/GShow/Globo.com)

Na penúltima semana de novembro, o nome do apresentador global movimentou a política nacional mais do que Lula ou Bolsonaro. No entanto, quem botava fé em sua candidatura deu com os burros n'água.

Luciano Huck oficialmente diz que não é pré-candidato a presidente da República. O primeiro a confirmar a informação negativa foi o jornalista Gilberto Dimenstein pelo Facebook no dia 23 de novembro citando parentes do apresentador. O dado foi chancelado por Mônica Bergamo da Folha de S.Paulo no mesmo dia. 

Naquela data, o jornal O Estado de S.Paulo estampou a pesquisa Ipsos apontando que 60% dos consultados enxergavam Huck como um nome positivo em seu trabalho na TV e na vida pública. Na mesma semana, a revista Istoé deu capa para o global chamando-o de "O Incrível Huck".

O apresentador tornou oficial sua decisão num artigo para Folha no dia 27 do mesmo mês. Comparou-se com o personagem Ulisses da obra "A Odisseia" e disse que escapou da "sedução das sereias" da política.

"A tripulação, com seus ouvidos devidamente tapados com cera, esforçando-se em não deixar que eu me deixasse levar pelos sons dos chamados quase irresistíveis. São meus amores incondicionais. Meus pais, minha mulher, meus filhos, meus familiares e os amigos próximos que me querem bem. Eles são unânimes: é fundamental o movimento de sair da proteção e do conforto das selfies no Instagram para somar forças na necessária renovação política brasileira. Mas daí a postular a candidatura a presidente da República há uma distância maior que os oceanos da jornada de Ulisses", pontuou Luciano Huck no texto.

Seu posicionamento, no entanto, difere muito da palestra que fez no Festival de Cultura Empreendedora em outubro. Naquela ocasião, mesmo mancando de uma perna e com dores, Huck discursou sobre a falta de ação das pessoas de sua geração. Utilizou o Caldeirão, seu programa na TV Globo, para defender que conhecia o Brasil de perto.

No artigo da Folha, Luciano Huck se coloca numa condição passiva que não condiz com o que ele tem falado em público ou nos bastidores: "Vendo meu nome apontado, é muito importante frisar sempre, sem ter levantado a mão ou me oferecido para concorrer ao cargo mais importante na governança do país, minha reação natural foi tentar entender melhor do que se tratava. Gosto de aprender, de saber o que não sei e penso que cultivo um bom hábito desde muito cedo: tentar descobrir e encontrar quem sabe".

Por que ele mudou de ideia?

A "decepção com Aécio" e a política real

A resposta não estava bem em seu artigo oficial, mas sim numa entrevista ao UOL publicada no mesmo dia. No texto, ele diz que se decepcionou com as acusações de corrupção de Aécio Neves na Lava Jato e que tomou muita "porrada" por suas relações com ele.

Ora, Huck não sabia da natureza do próprio amigo ou da vida política real? Não sabe da corrupção sistêmica que afeta todos os partidos e não apenas o PT? Ele não tem formação cultural, educacional e política de classe para entender como se comportaram os partidos nas últimas eleições?

Ele não sabia ou finge que não sabia?

O assédio dos partidos

Huck é assediado por pelo menos quatro partidos: PPS, DEM, NOVO e PSDB. Do quarteto, o que mais falou em público de sua aproximação com o global foi o PPS de Roberto Freire. E talvez isso tenha estragado a possível candidatura.

O PSDB não assume publicamente que quer Luciano Huck, mas se vê num beco sem saída com Geraldo Alckmin pré-candidato. O governador não tem a musculatura necessária para bater na popularidade de Lula ou Bolsonaro. Huck teria mais potencial de crescimento para fora do campo da direita.

No entanto, o PPS próximo de Huck trouxe um trauma recente: a naufragada tentativa de João Doria Jr. de bater em Alckmin e tentar o Planalto depois de levar a prefeitura de São Paulo em primeiro turno. Doria começou bem, com um largo alcance em suas ações no Facebook, deu entrevistas à imprensa e depois afundou no escândalo da "ração humana", que se somou com sua gestão controversa no âmbito municipal - descuidando dos semáforos, dos acidentes, da criminalidade, entre outros problemas paulistanos.

Luciano Huck, mais do que o exemplo de Silvio Santos em 1989, não quer repetir Doria de 2017 numa disputa presidencial. Se for pra afundar, ele prefere nem entrar.

O fator Globo

A família Marinho, proprietária da Rede Globo, deu sinais claros que não gostaria muito de Luciano Huck presidente. A emissora não emitiu nenhum comunicado oficial, mas ameaçou tirar o emprego de Huck na TV.

Por qual motivo fizeram isso? O risco da presidência virar um projeto pessoal de Luciano Huck é grande, aparentemente. E a Globo se tocou que, para ela, é melhor que exista separação entre a empresa e a política brasileira.

João Roberto Marinho tem um relacionamento muito bom com Lula, independente da oposição aberta do PT com a emissora. Ele aparentemente sabe que, se a TV aberta ficar exposta no governo federal, quem perde credibilidade é a Globo. A relação entre o filho de Roberto Marinho e o ex-presidente petista foi exposta no artigo do ex-prefeito Fernando Haddad na revista Piauí de junho.

Sérgio Moro e Joaquim Barbosa

Segundo o instituto Paraná Pesquisas, além de Huck, os novos aventureiros na política brasileira podem vir do Judiciário e da Lava Jato. Sérgio Moro tem 35% de citações, seguido por Joaquim Barbosa (11,1%), Deltan Dallagnol (6%) e Modesto Carvalhosa (2,1%). 

O patamar de Moro, portanto, seria praticamente equivalente ao de Lula nas pesquisas Datafolha, DataPoder360 e Ibope. O ex-presidente, no entanto, já encara condenação em primeira instância na própria Operação Lava Jato e pode ter a pré-candidatura impugnada se for condenado em segunda instância.

Luiz Inácio Lula da Silva, portanto, teria uma resistência maior ao noticiário negativo do que seus concorrentes do Judiciário. E promotores, juízes e procuradores se meterem na corrida eleitoral após uma operação anti-corrupção soa no mínimo contraditório. Eles acusaram e prenderam políticos para colocar os seus no poder?

E outra pergunta que se ergue é: Moro aguentaria uma corrida eleitoral se os equívocos da Lava Jato forem à tona?

Se Moro não for emplacado como candidato, há o caso de Joaquim Barbosa. O ex-presidente do STF é marcado pela condenação controversa do ex-ministro José Dirceu. Recorrendo à tese do "domínio do fato", Barbosa sentenciou Dirceu sem provas materiais. Após o julgamento do Mensalão, o magistrado saiu de cena e ressurgiu nas redes sociais criticando o PSDB e quadros como Aécio Neves, não se limitando ao PT.

Nos bastidores, Joaquim Barbosa conversou com Marina Silva da Rede e com Luciano Huck. O ex-ministro nega que seja candidato, mesmo celebrado pelos chamados manifestantes anti-corrupção.

O colunista Elio Gaspari, dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo, afirma que Barbosa pode ser um plano B de Lula caso ele não vá concorrer. A tese parece sem sentido, mas trata-se de um nome que antagonizou menos com o ex-presidente do que o próprio Sérgio Moro.

Os "aventureiros" prejudicados e o desespero anti-Lula

Pelo cenário exposto, os "outsiders" não estão com muito espaço na política nacional. Como o PT e o PSDB não formaram quadros novos e passaram para a ofensiva polarizada, muito alimentada pela imprensa, a discussão sobre o governo tornou-se pantanosa para quem está de fora do meio. E a corrupção, ao contrário dos otimistas e dos antipetistas, não dá sinais que vai acabar.

Luciano Huck, Sérgio Moro, Doria e até os planos B de Lula (Haddad, Celso Amorim, Jacques Wagner) não estão num cenário muito benéfico para 2018. A probabilidade de um nome historicamente conhecido sentar na cadeira do Palácio do Planalto é estatisticamente mais alta.

O jornalista José Roberto de Toledo resume a questão dos novatos em sua coluna: "à medida que abril e o prazo fatal para filiação de neófitos se aproxima, o canto das sereias partidárias vai virando um grito estridente e desesperado".