POLÍTICA

Olavo e Suplicy: A esquerda pode falar com a direita?

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Há diálogos possíveis depois do impeachment/golpe branco no Brasil? Até existe. O problema é que a direita segue defendendo o direito dos beneficiados diretamente com o atual momento no Brasil.

Olavo e Suplicy: A esquerda pode falar com a direita?

A Universidade Harvard, em Massachusetts, passou o começo do mês de abril reunindo figuras políticas e públicas brasileiras antagônicas em uma série de palestras. Dilma Rousseff esteve lá. Sérgio Moro esteve lá. E a BBC noticiou no dia 8 de abril um acontecimento inusitado.

O filósofo de extrema-direita Olavo de Carvalho elogiou o vereador de centro-esquerda Eduardo Suplicy. "Suplicy é um sujeito muito simpático e a ideia dele não é ruim, que todo mundo tenha uma renda. A renda básica moralmente está certa. Mas não adianta se não se especificar quem tem que dar esse dinheiro e de onde tem que sair. Se não é assim: Você tem direito a esse dinheiro, mas ninguém tem a obrigação de te dar esse dinheiro".

Questionado se juntaria forças com Suplicy no projeto, Olavo não titubeou: "Trabalharia junto com o Zé Antonio Satanás da Silva, se for preciso. O que a gente não faz pelo Brasil?".

Olavo pode ser favorável a uma renda mínima, mas acredita que existe uma "Nova Ordem Mundial" contra os Estados Unidos da América formado por bilionários que financiam a esquerda pelo mundo. Olavo pode ser favorável a algumas medidas para os pobres, mas nega a luta de classes e ainda acredita na expansão do comunismo soviético e chinês em 2017. Olavo parece viver num mundo antes da queda do Muro de Berlim nos anos 80. E acredita na fábula que o capitalismo venceu o socialismo na história. Ele não tem uma análise complexa dos acontecimentos, o que o afasta do neoliberalismo mais amplo na sociedade e o situa na extrema-direita.

Olavo já escreveu para grandes veículos de comunicação, como Revista Época e Jornal da Tarde. Hoje faz o seu site Mídia Sem Máscara, dá aulas de filosofia para dois mil alunos na internet e se situa na imprensa alternativa de direita, com posições extremadas. Faz oposição à intelectuais de esquerda e centro-esquerda, como Marilena Chauí e Vladimir Safatle. Olavo de Carvalho é historicamente contra o curso de filosofia da USP, tradicionalmente progressista ou de esquerda.

A notícia de Olavo entrando em acordo com Suplicy me provocou risadas. Mas a verdade crua é muito mais triste. O diálogo entre esquerda e direita é bonito num evento norte-americano.

A realidade brasileira cria distanciamentos grandes entre uma esquerda com mínima conexão com as demandas populares e uma direita que insiste em defender classes privilegiadas e conservadoras.

Na prática e na teoria séria, Olavo de Carvalho e Eduardo Suplicy dialogam muito pouco.