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Palestra de Obama no Brasil: ele pode e Lula não?

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

O presidente americano pode ganhar US$ 400 mil por palestra? E por que o ex-presidente Lula é investigado pelas mesmas práticas com seu instituto?

Palestra de Obama no Brasil: ele pode e Lula não?

(Foto: Obama Foundation/Fanpage do Facebook)

O ex-presidente americano está em eventos na cidade de São Paulo pela Obama Foundation. No dia 5 de outubro, ele discursou no Fórum Cidadão Global, promovido pelo jornal Valor Econômico em São Paulo. No dia seguinte encontrou-se com jovens líderes para falar de empreendedorismo na capital paulistana.

Barack Obama fez palestras no nosso Brasil. Embora seja sem-fins lucrativos, a entidade criada pelo ex-presidente dos Estados Unidos tem custos próprios para promover ações pelo mundo todo e, muito provavelmente, o grupo Globo, dono do jornal Valor, remunerou o político em sua ação.

Na palestra, Obama exaltou o jornalismo independente, disse que é fundamental ficar próximo dos jovens e criticou posicionamentos do presidente Donald Trump, especialmente de agressão com a Coreia do Norte. Para melhorar o mundo, Barack Obama credita que é fundamental cinco fatores: "garantir que os novos modelos econômicos funcionem para todas as nações; prosseguir com as cooperações globais; combater Estados rebeldes e redes de terrorismo; manter um senso de abertura em relação a pessoas de culturas diferentes e que não se parecem conosco; e reconhecer que a tecnologia muda a forma com que as pessoas consomem a informação".

Em setembro deste ano, a Bloomberg publicou que Barack Obama recebe US$ 400 mil por palestras de uma hora em bancos de investimento vinculados com Wall Street, ou US$ 6,6 mil por minuto. No seu governo, uma das empresas que mais recebeu investimentos públicos foi o Facebook, o que explica sua fala alinhada com as empresas de tecnologia no Brasil. A economista italiana Mariana Mazzucato publicou estudos sobre o "Estado empreendedor" que é comum nos Estados Unidos, ao contrário do que prega a turma do "governo mínimo".

O que o ex-presidente americano fez é promover boas ações e fazer lobby para empresas e iniciativas. Soa familiar? O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez a mesma coisa. E é investigado na Operação Lava Jato por isso.

O Instituto Lula

O ex-presidente petista afirmou que cobrou US$ 200 mil por palestras "igual ao Bill Clinton". O Instituto Lula, que surgiu em 2011 a partir do seu antigo Instituto Cidadania, encaminha boa parte das ações privadas dele e agora é investigada pela Operação Lava Jato.

No dia 6 de novembro de 2015, durante a 19ª fase da Operação Lava Jato, a Polícia Federal encontrou indícios que o Instituto Lula, o Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC) e a empresa LILS, responsável por organizar as palestras do ex-presidente, teriam recebido cerca de R$ 4 milhões em recursos da Odebrecht. De acordo com o laudo, o iFHC recebeu R$ 975 mil da Odebrecht, entre dezembro de 2011 e dezembro de 2012, enquanto os pagamentos para as duas entidades ligadas ao petista totalizaram R$ 3,97 milhões, pagos entre 2011 e 2014.  Em 22 de fevereiro do ano passado, na 23ª fase da Lava Jato, o Instituto Lula voltou a ser alvo de investigações, após indícios de que R$ 12,4 milhões da Odebrecht foram utilizados ilicitamente para obras no mesmo. O instituto nega as acusações

Em 4 de março de 2016, na 24ª fase da operação Lava Jato, expediram-se mandados de busca e apreensão, um deles no Instituto Lula, e mandados de condução coercitiva para o presidente da entidade Paulo Okamotto e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Objetos pessoais de Clara Ant, diretora do instituto, foram apreendidos e as autoridades não devolveram.  No dia 31 de agosto de 2016, a Receita Federal retirou o direito a isenção tributária, particular de organizações sem fins lucrativos, por 'desvio de finalidade' e cobra multa. 

Outra das principais irregularidades apontada é o repasse de R$ 1,3 milhão para a empresa G4 Entretenimento, que tem como donos Fábio Luís, filho do ex-presidente, e Fernando Bittar, proprietário do sítio em Atibaia investigado por pertencer a Lula no âmbito da Lava Jato. No dia 14 de setembro de 2016, o Ministério Público Federal apresentou formalmente denúncia contra Paulo Okamotto, presidente do instituto que foi acusado de usar contratos falsos de armazenagem do acervo pessoal do ex-presidente Lula e dissimulação da origem do dinheiro proveniente de crimes.

Em 9 de maio deste ano, a Justiça Federal determinou a suspensão das atividades do Instituto Lula. No dia 17 de maio de 2017, as atividades do Instituto Lula foram reabertas. O desembargador Néviton Guedes derrubou ordem de primeiro grau e autorizou retorno imediato das atividades da entidade ligada ao ex-presidente.

Lula é investigado por suas relações com a Odebrecht e a empresa do filho em seu instituto. Fernando Henrique Cardoso não sofreu nenhuma sanção. E Barack Obama faz exatamente o mesmo tipo de palestras do ex-presidente pelo mundo.

Por que alguns políticos podem ganhar dinheiro com palestras e outros merecem ser alvo de investigação criminal? Isso é um mistério.