POLÍTICA

Qual vai ser o discurso do PT para 2018?

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Sobre a pesquisa com as periferias feita pela Fundação Perseu Abramo, vinculada ao Partido dos Trabalhadores.

Qual vai ser o discurso do PT para 2018?

"O comissariado ouviu o povo e assustou-se", brincou o jornalista Elio Gaspari em sua coluna. A Fundação Perseu Abramo do PT divulgou no dia 5 de abril a pesquisa "Percepções e Valores Políticos nas Periferias de São Paulo". Presidida pelo economista Marcio Pochmann, o centro de estudos entrevistou 63 moradores da periferia de São Paulo que votaram no PT de 2000 a 2012, mas não elegeram Dilma Rousseff em 2014 nem se identificaram com Fernando Haddad em 2016.

A pesquisa tentou contrastar os perfis periféricos e entender uma mudança neles nos anos de hegemonia petista. O resultado exibiu que estes eleitores não veem a existência de uma luta de classes em que patrões exploram trabalhadores. A opinião deles dentro do levantamento qualitativo percebe ricos e pobres no mesmo barco contra o Estado taxador e burocrático que não entrega serviços de qualidade.

A tal da "ideologia do mérito" de liberais com histórias de superação e sucesso reúne admiradores de Lula e até João Doria Jr, o que explica sua vitória esmagadora em primeiro turno contra Haddad. O candidato de Alckmin teria, seguindo esta lógica, reais chances contra o ex-presidente em 2018. A pesquisa acendeu o sinal vermelho dentro do PT.

Pochmann marcou uma reunião pública com o iFHC e com pessoas ligadas ao PSDB para discutir os resultados, conforme noticiou a repórter Fernanda mena da Folha de S.Paulo no dia 18. 

"Há material muito interessante para reflexão a partir desta tentativa do PT de entender como o cinturão vermelho se pintou de azul", disse Sérgio Fausto, diretor do Instituto Fernando Henrique Cardoso, ao se referir aos resultados de João Doria. "A ideologia dominante afeta os dominados, mas não se trata de uma reprodução pura e simples. Ela é reelaborada", completou Andréia Galvão, do departamento de ciência política da Unicamp.

O fato é que a pesquisa encomendada pelo instituto de Pochmann bate de frente com a propaganda do PT hoje na televisão, que mostra um Lula envelhecido e se defendendo das acusações da Lava Jato. Os petistas hoje apostam no medo real das ideias reacionárias de Jair Bolsonaro e numa aposta futura de que João Doria terá seus esquemas de corrupção revelados em breve.

Mas a periferia e os pobres já não engolem direito o discurso petista. As pesquisas mostram Luiz Inácio Lula da Silva com alguma chance de chegar ao Planalto. A pergunta é: Com que propostas? Mais alianças com o PMDB de Renan Calheiros? Mais repasses de dinheiro para acalmar os "golpistas"?

A periferia mandou um recado claro ao PT: Falamos línguas diferentes.

O problema é o que os pobres colocarão no lugar de um governo de centro-esquerda. O problema é como a elite aproveita a onda para não discutir os problemas reais de pobreza no Brasil. Foge-se ao debate econômico real, tanto entre petistas quanto tucanos. Interessa a governabilidade e, sobretudo, a grana que cada um leva nisso.