LAVA JATO

Quem é Raquel Dodge, a sucessora de Rodrigo Janot na PGR

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

A Procuradoria-Geral passará por uma mudança num período que a Operação Lava Jato está em dúvida. O que esperar da procuradora que vai substituir o homem que colocou Michel Temer na berlinda?

Quem é Raquel Dodge, a sucessora de Rodrigo Janot na PGR

Em maio de 2017 o Estadão apurou que a Lava Jato teve um corte de um terço das verbas para manter policiais investigando políticos e empresários no escândalo da Petrobras. Na ocasião, a Superintendência da Polícia Federal do Paraná informou que Ministério da Justiça destinou R$ 20,5 milhões – R$ 3,4 milhões para os gastos extras da operação – ante os R$ 29,1 milhões de 2016 – dos quais R$ 4,1 milhões especificamente para a Lava Jato –, uma queda de 29,5%. O aperto financeiro é ainda maior, pois, além da redução, houve contingenciamento de 44% da verba destinada originalmente.

No meio deste impasse, o presidente Michel Temer indicou o nome de Raquel Elias Ferreira Dodge, goiana de Morrinhos, para a Procuradoria-Geral da República que conduz os processos no Supremo Tribunal Federal da Operação Lava Jato. Diferente de outros procuradores, indicados pelo PT, Raquel era a segunda indicada na lista tríplice e seu nome apareceu no dia 28 de junho de 2017. A aprovação dela no Senado Federal se deu por 74 votos a um no dia 12 de julho.

Ela tomará posse em 17 de setembro de 2017. Janot já deixou claro que encaminhará as denúncias envolvendo o presidente Temer na PGR, o que pode gerar sua cassação em agosto deste ano. Se algo acontecer com o processo, Raquel Dodge pode paralisá-lo - se ela for mesma favorável ao governante acusado de praticar corrupção passiva e lavagem de dinheiro por Joesley Batista da J&F/JBS.

No dia 18 de julho, já escolhida, Raquel Dodge questionou Janot sobre a verba reduzida da Lava Jato, o que ele negou. O procurador, então, triplicou a verba da operação em Curitiba no dia 25 de julho. O valor da verba do Ministério Público para policiais e oficiais vai passar de R$ 522 mil para R$ 1,65 milhão na capital do Paraná. O conselho ainda incluiu no orçamento um reajuste de 16,7% para todos os procuradores do MP.

É neste contexto que a procuradora assume as funções de Rodrigo Janot. Mas quem é, de fato, Raquel Dodge?

Pró-direitos humanos, casada com americano e próxima do Mensalão

Raquel nasceu em 26 de julho de 1961, tem 55 anos e é casada com Bradley Dodge, cidadão americano residente no Brasil como professor da Escola das Nações, instituição de ensino para filhos de integrantes do corpo diplomático de Brasília. Dentro do MP, ela atuou em processos envolvendo a defesa dos direitos humanos, principalmente casos sobre trabalhadores em situação análoga à escravidão e violações aos direitos indígenas.

A nova procuradora integrou a operação que investigou o esquadrão da morte comandado pelo ex-coronel e ex-deputado federal Hildebrando Pascoal, na década de 1990, no Acre. No ano de 2009, convidada pelo então procurador-geral Roberto Gurgel, seu amigo, coordenou a força-tarefa da Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal, responsável por investigar um esquema de corrupção que tinha, entre seus integrantes, o então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, do PR. Gurgel comemora sua nomeação e era o procurador do processo do Mensalão, que condenou os petistas José Dirceu e José Genoino.

Ela foi coordenadora da Câmara Criminal do MPF, membro da 6ª Câmara, Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão Adjunta. Raquel Dodge também atuou na equipe que redigiu o 1.º Plano Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil, e na 1.ª e 2.ª Comissão para adaptar o Código Penal Brasileiro ao Estatuto de Roma. Hoje ela integra a 3ª Câmara de Coordenação e Revisão, que trata de assuntos relacionados ao Consumidor e à Ordem Econômica. 

E trocará o cargo pelo posto de Janot, um dos mais criticados na Lava Jato por cuidar dos processos de políticos com foro privilegiado, o que gerou as prisões preventivas de políticos como Eduardo Cunha e Sérgio Cabral, bem como ampliou as delações premiadas.

Renan Calheiros foi um dos poucos senadores que reclamou da nomeação de Raquel Dodge, segundo a revista Época. Segundo o ex-procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, que assumiu o posto em 2003 após indicação do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a seleção de Raquel desprestigia a tradição do Ministério Público de escolher o primeiro da lista. A informação consta numa entrevista feita à Carta Capital.

De qualquer forma, tudo indica que Raquel Dodge tende a dar continuidade ao trabalho do "doutor Rodrigo Janot", que é criticado por valorizar delações e publicizar grampos sem crimes - alguém lembra do caso entre Reinaldo Azevedo e Andrea Neves?

Mas uma dúvida não existe: Temer e políticos como Renan Calheiros vão aproveitar a troca de cadeiras para se blindarem.