LAVA JATO

Raquel Dodge pode ser o golpe final de Temer na Lava Jato

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Como encontros nos bastidores da futura sucessora de Rodrigo Janot na Procuradoria-Geral da República podem significar o abafamento final na Operação Lava Jato e a impunidade do presidente Michel Temer, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Raquel Dodge pode ser o golpe final de Temer na Lava Jato

(Foto: Lula Marques/AGPT/Fotos Públicas)

Primeiro ele tentou a asfixia financeira de procuradores do Ministério Público e de policiais federais. Agora, depois que o truque nos bastidores não funcionou, ele permanece operando na escuridão com jantares e encontros escondidos do público. O presidente da República não desiste de se safar de investigações e de um processo judicial no exercício do mandato.

Raquel Dodge, sucessora de Rodrigo Janot no comando da Procuradoria-Geral da República, disse ao repórter Leandro Colon da Folha de S. Paulo que se reuniu com Temer às 22 hrs de terça-feira, 8 de agosto de 2017, para discutir a agenda de sua posse em setembro. Raquel ficou cerca de uma hora com o presidente Michel Temer.

A futura procuradora-geral poderia delegar a tarefa para cerimoniais e a assessoria da presidência. Decidiu falar pessoalmente com Temer fora da agenda oficial, que é divulgada publicamente.

E não ficou só nisso.

Depois do presidente, Raquel Dodge teve um encontro com Gilmar Mendes, ministro do STF e outro crítico da gestão de Janot na PGR. Ela falou com o juiz do Supremo no dia 9.

Articulação pelos bastidores

A proximidade de Raquel com o poder interessa diretamente Michel Temer, que deseja que a Operação Lava Jato tenha como único alvo o PT e não as delações premiadas de Joesley Batista e da JBS, que atingiram o PMDB e o PSDB. Interlocutores da nova procuradora acharam que os encontros foram uma gafe, um erro perante à população.

No mesmo dia, Aécio Neves do PSDB teve seu inquérito arquivado sobre o caso da Lista de Furnas, com caixa dois para tucanos, em Minas Gerais pela Polícia Federal. E uma investigação envolvendo Lula no Mensalão foi desarquivada.

Nas sombras da política, o grupo de Temer e aliados articula para barrar de vez a Lava Jato para eles, mantendo o caráter seletivo da operação.

Um contraponto de uma pessoa ligada ao PT

 O ex-ministro Eugênio Aragão, que coordenou a pasta da Justiça no governo Dilma Rousseff, divulgou um texto defendendo Raquel Dodge. Ex-colega de graduação na Universidade de Brasília, Aragão alega que Raquel é uma jurista rigorosa e que não cairia na tentação de fazer favores políticos com Temer.

E Eugênio Aragão também afirma que Raquel Dodge é vítima da cobertura "distorcida" da Rede Globo, que teria interesse político na queda de Temer depois do controverso impeachment de Dilma.

"Longe, portanto, de ser sabujo ou interessado pessoalmente em qualquer aliança ou mesmo proximidade com Raquel Dodge, tenho que reconhecer que tem virtudes que podem a todos surpreender. Com certeza menina de recado não é e nunca será. É mais do tipo alpha-dog. Não é controlável. E não dará mole ao executivo federal golpista, mas o exigirá sem adjetivos, de forma protocolar (...). Não permitirá vazamentos criminosos e nem se omitirá diante deles. Este é seu estilo legalista e discreto de trabalhar. Com uma enorme vantagem sobre seu antecessor: é meticulosa, metódica ao extremo e pouco festeira", frisa.

O problema é que Eugênio Aragão, como muitos no debate político, pode estar menosprezando um golpe dentro do golpe que ocorre no centro do governo Temer, feito por um presidente morto-vivo que tenta fugir da Justiça.