POLÍTICA

Reduzir Lula ao populismo emperra o debate para 2018

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Frequentemente associado ao populismo de esquerda, o possível candidato Luiz Inácio Lula da Silva traz muito mais atributos do que aparenta.

Reduzir Lula ao populismo emperra o debate para 2018

Lula é um político habilidoso e esta é uma verdade inegável, admitida até por seus maiores críticos na imprensa. Na ativa desde o final dos anos 70, ele organizou greves, perdeu muitas eleições presidenciais e transformou o PT ao assumir a presidência da República. Transformou o Partido dos Trabalhadores no maior da América Latina e estabeleceu laços para além do país, com legendas que comungam das mesmas ideias e até figuras públicas que nunca tiveram qualquer vínculo esquerdista, como foi o caso do ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.

Saído do novo sindicalismo pós-ditadura militar, Luiz Inácio Lula da Silva provavelmente é o maior nome da ideologia centro-esquerda no Brasil. Eleito presidente por duas vezes, aliou as políticas de privatizações e liberalizações da era FHC com incentivos públicos de consumo interno, bolsas para combater desigualdade social e aperfeiçoamento da pesquisa e do ensino superior. Deu as bases para a economia saltar até 7,6% em 2010, antes que a gastança pública e as desonerações promovidas por sua sucessora Dilma Rousseff jogassem o país na pior recessão pós-ditadura. Michel Temer, o vice que aplicou um golpe parlamentar travestido de impeachment, aprofundou o caos social dos anos finais de governos petistas ininterruptos.

Não bastassem estas informações mais generalistas sobre seu governo, Lula ainda sobreviveu aos maiores escândalos de corrupção conhecidos na história brasileira mais recente: o Mensalão (embora exista controvérsias em comparação ao Banestado e à compra de votos da reeleição de Fernando Henrique Cardoso) e o Petrolão. Figuras políticas importantes, como José Dirceu e José Genoino, além de tesoureiros e outras personalidades foram condenados por crimes desde formação de quadrilha até lavagem de dinheiro. O ex-presidente, até o momento, segue intacto.

O principal discurso contra Lula candidato em 2018, além da não-renovação do PT, traz uma carga fortemente moralista. Parte dos opositores acredita piamente em sua condenação na Justiça e não leva em consideração a presunção de inocência.

Outra parte, que vem da direita e até de setores do centro, considera que ele é apenas um "populista de esquerda". Argumento vazio e vago.

É verdade também que Lula faz comícios com a população pobre. É verdade que Lula faz campanha andando pelo nordeste.

Mas considerando oito anos de governo, entre 2003 e 2010, reduzi-lo a um político que beija a cabeça de crianças e bate nas costas da população é um reducionismo tosco. André Singer, cientista político, ex-secretário de redação da Folha de S.Paulo, ex-editor de revistas da Abril e ex-secretário de comunicação de Lula, tem uma tese correta de que os governos do ex-presidente trouxeram um "reformismo fraco".

No entanto, é na "fraqueza" que está a força de Luiz Inácio Lula da Silva. Em 10 de março de 2017, Singer publicou a coluna "Cenário de 2018 só estabiliza com Lula" e explicou:

 "Lula terá que empunhar a bandeira óbvia da retomada do crescimento, que, aliás, provavelmente já estará em curso. Não creio que se proponha a revogar o que tiver sido aprovado por Temer. A diferença entre a sua candidatura e a do PSDB —hoje provavelmente representada por Alckmin— seria relativa ao papel do Estado e dos programas sociais na aceleração de um crescimento bem baixo. Embora em visível ascensão, o nome de Bolsonaro não parece vocacionado a estar rapidamente entre os maiores. No segundo cenário, o Partido da Justiça (PJ), a mídia, os capitalistas e a classe média recusam-se a 'salvar a política' em nome de serem fieis à narrativa de que é preciso ir até o fim no combate à corrupção. Nesse caso, o PJ teria que disponibilizar um quadro para concorrer, pois os partidos tradicionais estarão aniquilados. Joaquim Barbosa, Sergio Moro, Cármen Lúcia, Ayres Britto? Como falta ao PJ um programa abrangente para os problemas brasileiros, se chegar à Presidência, vai prolongar a instabilidade. Combater a corrupção não é suficiente para responder aos desafios brasileiros. Um terceiro cenário em que se condenam todos, salvando-se apenas o PSDB, tampouco estabiliza o quadro. Sem um partido popular competitivo, as instituições brasileiras ficam mancas".

A fraqueza do reformismo lulista, abordado no livro "Os sentidos do Lulismo" (2012), de André Singer, está no seu pacto com as elites. No entanto, é no diálogo com a direita que a esquerda do PT se consolida como establishment. Jogar o país numa terceira via por um candidato ungido pela Lava Jato e pelo Poder Judiciário seria aniquilar de vez a classe política sob uma narrativa que perde adeptos, a do "combate à corrupção" que demorou décadas para detectar crimes do PSDB, a legenda das elites brasileiras.

Os tucanos, por sua vez, não conseguem sair do pedestal e conversar com o povo. O melhor político deles foi Fernando Henrique Cardoso, que não consegue simplesmente dar um programa popular a sucessores como José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves ou mesmo ao novato João Doria Jr. Lula conseguiu por algum tempo manter seus programas com Dilma Rousseff e agora volta a concorrer para lutar por eles.

Chamar Luiz Inácio Lula da Silva de populista é apenas parte da real história - e é uma designação que emperra o real debate das eleições de 2018. Ele é, na verdade, o político mais habilidoso atuante no nosso cenário nacional. Com 71 anos, nenhuma figura pública efetuou tantas mudanças quanto ele na presidência da República e nenhuma possui tanto poder de articulação diante da população, por mais que a grande mídia o demonize.

Por isso mesmo ele já chega nas eleições com 30% das intenções de voto, mesmo tendo até 40% de rejeição segundo o Datafolha. 

E conforme Michel Temer afunda, Lula cresce se aproximando do centro e das elites.