POLÍTICA

Um ano de golpe: Como o discurso do impeachment não se sustentou

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Eduardo Cunha. Romero Jucá. Michel Temer. O Supremo. Dilma Rousseff. Lula. Aécio Neves, Geraldo Alckmin. José Serra. Fernando Henrique Cardoso. A Operação Lava Jato. Um xadrez de nomes, diria Luis Nassif.

Um ano de golpe: Como o discurso do impeachment não se sustentou

"Que Deus tenha misericórdia desta Nação", disse o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff no dia 17 de abril de 2016. Hoje preso pela Lava Jato e cassado, os efeitos do processo conduzido por Cunha ainda são sentidos por todo o Brasil.

O título deste artigo faz uma brincadeira necessária. A direita frequentemente chama a tese do golpe branco, formulada pelas esquerdas, de "narrativa". Em menos de um ano, a narrativa do impeachment "regular" ruiu.

Conduzido por Eduardo Cunha, o processo de impeachment acatado foi a tese dos juristas Hélio Bicudo, Janaína Paschoal e Miguel Reale de que as pedaladas fiscais da ex-presidente Dilma Rousseff consistiam em crime de responsabilidade. Ela foi afastada, seus 54 milhões de votos foram cassados e o seu partido, o PT, foi tirado do governo federal após 13 anos sem ser pelas urnas.

Temer empossado, vazaram áudios do seu líder no PMDB e então ministro, Romero Jucá, negociando um abafamento da Operação Lava Jato que apura a corrupção na Petrobras e em empresas privadas correlatas com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Era um acordo englobando o Supremo Tribunal Federal, a Câmara, o Senado e o povo para abafar escândalos de Lula, de Aécio Neves e de todos os políticos em atividade.

Vieram as delações premiadas e, com a Lista do ministro Edson Fachin, ficou exposto que não somente o PT se aproveitou de propinas e de caixa dois. A tese do antipetismo, embora a mídia ainda faça coro, perdeu sentido quando tucanos como José Serra e Geraldo Alckmin negociaram propinas entre R$ 10 milhões e R$ 25 mi. O modelo de financiamento da Nova República pós-Ditadura Militar se mostrou corroído pelo dinheiro não contabilizado e pela troca de favores bilionária com empreiteiras como a Odebrecht.

Os escândalos foram muito além do uso indevido de dinheiro público de estatais ou empresas de capital misto como Petrobras e Sabesp. As delações, embora as do PSDB não resultem em condenações, escancararam que a propinagem privada decidiu como Lula e Dilma escolheram ministros e como a oposição se manteve pouco ameaçadora mesmo com o estouro do Mensalão.

O impeachment foi um golpe branco, um golpe praticado por parlamentares que enxergaram no PT um perigo para os seus privilégios. E porque Dilma deixou Sérgio Moro na primeira instância e Rodrigo Janot na Procuradoria-Geral da República condenarem políticos do seu próprio partido e do PMDB. Michel Temer ascendeu para abafar o caso, erguer a economia e dar um "rumo" ao país.

Temer conseguiu apenas que as contas do governo tivessem o pior mês de março desde 1997. O déficit primário foi de R$ 11,061 bilhões no mês de acordo com o Tesouro Nacional. O único índice que Michel Temer reduziu de fato foi o da inflação, que pode fechar o ano em 4%. Mas o Produto Interno Bruto (PIB), no entanto, não tem projeção de crescimento nem de 1%.

Muitos da direita ainda atribuem a culpa pela maior crise econômica na história recente brasileira a Dilma. Como Temer era sua base de sustentação, a hipótese é muito manca.

O vice de Dilma Rousseff fez de tudo para se blindar nas ocasiões. Em seu governo, quando Eduardo Cunha começou a achacá-lo para se manter vivo politicamente, ele deixou que o Ministério Público e a Polícia Federal o prendessem. Ao ver que o desempenho da gestão naufragou, Renan Calheiros, um dos maiores aliados do novo presidente, deixou o barco e flerta com a possibilidade de firmar alianças com Luiz Inácio Lula da Silva, restaurando aliança com o PT.

Os rachas entre políticos e o jogo em torno da economia escancaram a natureza do golpe que aconteceu e segue em curso. A flexibilização dos direitos trabalhistas e da Previdência dão a entender que a população será diretamente afetada. E, como resposta, sindicalistas e diversos setores farão uma Greve Geral neste dia 28 de abril de 2017.

Um ano depois, o golpe que muitos duvidavam virou golpe de verdade.

E, como diria Cunha, "que Deus tenha misericórdia desta Nação".