POLÍTICA

Vladimir Safatle e o "combate sem trégua" ao fascismo BR

Pedro Zambarda de Araújo
Author
Pedro Zambarda de Araújo

Um dos colunistas da esquerda mais eloquentes e sensatos da imprensa brasileira, com proximidade óbvia com o PSOL, Safatle atacou o candidato Jair Bolsonaro. Mas há uma lógica coerente em sua coluna afiada na Folha de S.Paulo.

Vladimir Safatle e o "combate sem trégua" ao fascismo BR

Tive aulas por três semestres com o professor de filosofia Vladimir Safatle na USP. Estudei música, filosofia contemporânea francesa (Deluze) e Theodor Adorno. Posso dizer que suas aulas foram fundamentais na minha formação, considerando a originalidade do pensamento e a ideia de se estudar o todo e não apenas o fragmento do conhecimento.

Safatle sempre foi um crítico contumaz da política "conciliatória" do PT: Um misto de roubalheira do PMDB e acordos com a elite brasileira que permitiram quase quatro mandatos seguidos no governo federal. Adepto de uma esquerda globalista e sintonizada com os protestos contra Wall Street desde 2008 nos Estados Unidos, o professor sempre alertou para os perigos da radicalização da direita no Brasil.

Na sua coluna da Folha de S.Paulo publicada no dia 3 de março, Vladimir Safatle faz um ataque direto a Jair Bolsonaro, o principal beneficiado da pesquisa de intenção de voto para 2018 da CNT/MDA junto com Lula.

O filósofo diz:

"Uma leitura mais detalhada da pesquisa revela fatos ainda mais surpreendentes. Bolsonaro é o candidato mais votado dentre aqueles que possuem ensino superior (20,7%) e aparece empatado com Lula na escolha dos que ganham acima de cinco salários mínimos (20,5%)".

O argumento contradiz a espinha dorsal de colunistas como Reinaldo Azevedo e da chamada "direita liberal", mais de centro. Jair Bolsonaro não parece ser um fenômeno de direita populista, ligada aos mais pobres e menos escolarizados. Pelo contrário, o candidato parece próximo de estudantes, jovens adultos e cidadãos brasileiros escolarizados.

Safatle então relembra o significado clássico do fascismo, que veio do nacionalismo italiano se baseando na xenofobia exagerada e no belicismo. Bolsonaro é um dos poucos deputados na ativa que defende a ditadura militar, saudou um torturador no impeachment de Dilma Rousseff. Ele seria, portanto, um representante desta linha de pensamento totalitária de direita e, portanto, defensora dos valores do capitalismo convencional.

"Já há algum tempo, o termo fascista é utilizado no embate político de forma meramente valorativa, e não descritiva. Ou seja, não se trata de descrever algum tipo específico de fenômeno político, mas simplesmente de desqualificar aquele que gostaríamos de retirar do debate político. No entanto, há sim um uso descritivo do termo, há situações nas quais devemos nomear claramente o que, no final das contas, é a pura e simples adesão a práticas facilmente qualificadas como fascistas. Pois poderíamos dizer que todo fascismo tem ao menos três características fundamentais", completa.

Vladimir Safatle ainda arremata concluindo que Bolsonaro é um exemplar do "culto à violência sistemática do Estado" e o conecta diretamente aos manifestantes verdes-amarelos que tiram selfies com a PM. "De toda forma, há de se nomear claramente o caminho que parte significativa dos eleitores tomou. Essa radicalização não desaparecerá, mas é embalada pelo espírito do tempo e suas regressões. Na verdade, ela se aprofundará. Contra ela, só existe o combate sem trégua".

O filósofo pede que a gente pegue em armas para combater este tipo de pensamento?

Como todo o bom pensador, a ideia não é meramente recorrer à ação direta. Mas sim dar a designação correta aos movimentos políticos em ascensão e alertar para os perigos reais deste pensamento.

A ditadura militar matou, no papel, 357 pessoas. O jornal Folha de S.Paulo, onde Safatle publica suas colunas, aumenta o número para 600. Há relatos de que, somente num hospício em Minas Gerais, 60 mil pessoas morreram.

Chile matou 40 mil pessoas. Argentina, 30 mil. Em plena Guerra Fria, naquela mentira do "capitalismo contra o comunismo".

Safatle não fala em pegar em armas. Mas parece que o fascismo de direita está de volta.