POLÍTICA

Voltar para a ditadura de 64 tem mais apoio no Brasil do que votar em Bolsonaro

Pedro Zambarda de Araújo
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Pedro Zambarda de Araújo

Parece que temos mais brasileiros fãs de um regime retrógrado do que do candidato retrógrado da vez.

Voltar para a ditadura de 64 tem mais apoio no Brasil do que votar em Bolsonaro

(Foto: Creative Commons/FGV/CPDOC)

Crescem os apoios para um golpe militar que supostamente seria "constitucional". No entanto, a saudade do passado parece maior do que o candidato que representa essas aspirações. E a democracia brasileira segue fragilizada.

A pesquisa Datafolha divulgada neste começo de outubro mostrou recuo no apoio à democracia no Brasil. O levantamento sobre a questão é feito desde 1989. 21% dos eleitores concordam com a ideia de que em certas circunstâncias uma ditadura é melhor do que um regime democrático. Em dezembro de 2014, pensavam dessa forma 15% dos eleitores. Outros 17% se disseram indiferentes à forma de governo do país. No começo de 2014, 12% achavam isso. 

Na mesma pesquisa, só 56% concordam que a democracia é a melhor forma de governo, sendo que no final de 2014 o percentual era de 66%. Segundo o Datafolha, em setembro de 1989 somente 42% da população acreditava no regime democrático. O percentual cresceu sobretudo nos governos Lula e Dilma, com uma queda do índice para 56% durante a crise do Mensalão. Mas o regime democrático ficou por vários anos acima de 60% de aprovação da população.

O que aconteceu?

Desconhecimento histórico

A grande mídia brasileira, sempre conservadora e liberal, apoiou o golpe militar de 1964 chamando-o de "revolução". Os jornais O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo chegaram a dar apoio ao regime, mesmo sofrendo censura dentro das redações. A Rede Globo se ergueu como o maior grupo de comunicação nacional graças ao dinheiro da ditadura. Poucas oposições midiáticas existiram contra o regime na revista Veja, da Editora Abril, e na chamada "imprensa nanica", em publicações como O Pasquim.

Isso produziu um efeito dominó na precária educação pública brasileira. As classes média e alta, com acesso aos dados das torturas e da história real sobre a ditadura, ainda debatem o tema. Mas o regime militar não produziu a crítica necessária aos defensores da democracia.

Conforme a crise econômica se aprofundou no período Dilma-Temer, a população passou a pensar em alternativas ao atual regime democrático e corrupto. Por isso, grupos reacionários e pró-golpe militar ganharam voz nos protestos do impeachment de 2015 até hoje. Sob o slogan "SOS Forças Armadas", grupos de extrema-direita começaram a se articular nos movimentos de rua.

E eles defendem um suposto "golpe militar constitucional" baseado no artigo 142 da Constituição. O trecho da lei brasileira afirma que "as Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem".

Em momento algum a Constituição Federal defende golpe, mas essas pessoas defendem um regime ditatorial do século passado.

Uma alento: o enfraquecimento de Bolsonaro

Voltar para a ditadura de 64 tem mais apoio no Brasil do que votar em Bolsonaro

(Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/Fotos Públicas)

Muitas pesquisas mostraram neste ano que o candidato que mais agrada os militaristas, Jair Messias Bolsonaro, estava com cerca de 20% das intenções de voto. O Datafolha de outubro de 2017 mostrou um enfraquecimento de sua candidatura.

Bolsonaro oscila no levantamento entre 16% e 17%, Ele aparece empatado com Marina Silva, que varia entre 13% e 14% nas intenções de voto.

Voltar para a ditadura de 64 tem mais apoio no Brasil do que votar em Bolsonaro

(Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/Fotos Públicas)

Lula, condenado em primeira instância pelo juiz Sérgio Moro e atingido pela delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci, lidera em todos os cenários em que participa, com pelo menos 35% das intenções de voto. A taxa de rejeição ao ex-presidente caiu nos últimos três meses, de 46% para 42%.

Sem Lula na disputa, quem herda a maioria dos votos do petista descontando brancos e nulos é Marina Silva, oscilando entre 22% e 23%.

O Datafolha fez 2.772 entrevistas em 194 cidades. A margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. 

A disparada do percentual de brasileiros desejando uma ditadura no lugar do nosso frágil regime democrático merece toda a nossa atenção. E explica o fenômeno Jair Bolsonaro, que pode ser um candidato presidencial fraco no ano que vem.