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A crise dos 30 anos

Pilar Magnavita
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Pilar Magnavita
A crise dos 30 anos

Confesso que me perdi nos anos. Quando falo do fim dos anos 90, ainda tenho mania de dizer que foram há 10 anos e que não faz tanto tempo que eu assistia Chris Nicklas na MTV. Mas a idade faz isso com as pessoas, faz essa noção de tempo se distorcer nas memórias queridas de antigamente. E que memórias queridas eram as minhas dos 20 anos! Foram as melhores. E as piores também.

Ao mesmo tempo em que todo um mundo de possibilidades se descortina diante de ti, toda essa novidade chega acompanhada de muita ansiedade, objetivos confusos e uma sensação de ser um pouco mais solitário do que na adolescência, quando você vivia rodeado da própria patota. Começamos a trabalhar, ganhar nosso dinheiro, experimentar sensações novas que a liberdade propõe...

Primeiro a gente experimenta a facul...

Tentando entregar trabalhos que você não faz a mínima ideia do que se tratam na verdade..

Depois a gente começa a trabalhar no estágio, achando a maior curtição.

Até que não... não dá para continuar só na curtição.

Até porque a gente acha que, por ter um ano de empresa, já é natural ocupar algum cargo de chefia. Afinal, somos muito capacitados com inteligência e bom-senso natos, inglês e uma faculdade inteira! Sabemos até mexer em váaaarios aplicativos nas diversas plataformas. Somos os verdadeiros especialistas em mídias sociais!

Aí a coisa fica séria. Party time is over! Já mandamos na nossa vida, chegamos a hora que queremos em casa e viajamos quando bem entendemos. Mas ainda não dá para morar sozinho porque ganhamos muito pouco para manter o padrão de vida que nos acostumamos, não é mesmo?!

A vida está boa assim. Você persiste na carreira, persegue a grana, persegue o sonho de um dia se sustentar sozinho e, quando você está vivenciando os últimos anos dos 20, uma coisa mágica acontece: você percebe que pode se manter sozinho. Aí vem a escolha de Sofia. Sair da casa dos pais ou buscar a vida lá fora?

Alguns estudos sugerem que os jovens de hoje estão sofrendo mais do que as gerações anteriores. Por exemplo, a idade média para o início da depressão caiu de quarenta e tantos anos ou início dos anos cinquenta, onde era 30 anos atrás, com vinte e poucos anos, e é esperado que continue a baixar. Os psicólogos não estão inteiramente certos do porquê. Acredito que seja por uma série de fatores que marcam exclusivamente a Geração Y, porque é o que venho concluindo nas minhas pesquisas no Centro de Ciências da Saúde da Universidade Católica de Petrópolis (RJ).

Independentemente da causa, a crise, que deveria ser marca de um único momento da vida, muitas vezes se estende por vários anos e inclui fases típicas:

Ela começa com uma dificuldade de manter vínculos. Há uma constante sensação de estar preso a um compromisso, seja no trabalho ou em casa. Acaba não sendo muito fácil segurar a vida adulta pelos chifres e dominar a besta fera das muitas responsabilidades e da pouca diversão. A maneira que muitos jovens encontram de resolver essa matemática da vida, entre dever e poder, é anulando o problema. Ou seja, desistindo. Troca de romance, troca de emprego, troca de carreira, troca de cidade, de amigos, faz um curso novo.

Aí vem o segundo problema: o questionamento da identidade. É fase em que as pessoas, passada a primeira parte da crise, vão tentar se descobrirem. Recalibram os planos de vida, reafirmam novas metas, sozinhos e isolados, até que finalmente saem e vão explorar novos hobbies, interesses e grupos sociais, finalmente. Vai emergir da crise mais feliz, mais motivado e com maior clareza. Este processo pode durar anos, ou se repetir por mais de uma vez. É doloroso, mas é também uma tremenda oportunidade de crescimento, uma vez que pode criar indivíduos que passam a levar uma vida mais significativa e mais feliz.

Nos estudos que conduzo na Universidade, trabalhamos a terceira escola de psicologia chamada de Logoterapia. É basicamente ajudar pessoas a descobrirem o sentido de suas vidas e preencher vazios existenciais, ideológicos e a crise do querer ser e ser de verdade. E temos identificado um crescente número de pessoas que se encontram um tanto perdidinhas na vida, carecendo de um incentivo a se encontrarem e perseguirem o que querem. E isso é cada vez mais comum nessa modernidade líquida (como explica o sociólogo Zygmunt Bauman). Crise dos 30 anos, gente, nunca existiu! É novidade desses tempos.

Ran Zilca, diretora de dados da Happify, fala da pesquisa que desenvolveu ano passado com 88 mil clientes da empresa, especializada em coaching, no artigo "Why your late twenties is the worst time of your life" (Por que seus 20 e altos são a pior época da sua vida). Ela identificou níveis de estresse bastante incomuns para a idade, do tipo que só se via na meia idade, antigamente. Mas a galera também está lidando melhor com isso e encarando de forma positiva esses momentos de crise em tão tenra idade. O que ela conclui é que os jovens estão tendo mais maturidade para lidar com todas as complexas questões de vida do que seus pais e seus avós no passado.

Dentro da psicologia cognitiva, aprendemos que, pela melhora da nossa capacidade de percebemos o mundo e nos autopercebermos, temos melhores condições de trabalhar nosso domínio psicológico em vez de hesitar tanto por tanto tempo. A gente aprende a nos permitir errar com o tempo e tentar de novo, sem medo de ser feliz! À medida que envelhecemos, aprendemos a colocar as coisas em perspectiva, acreditamos mais em nós mesmos e percebemos que as emoções que às vezes atravessam nossos peitos são temporárias e não precisam nos consumir tanto. 

Enfim, quando entramos nos 30 anos, compreendemos o tempo de outra maneira. Compreendemos também o que deve ser líquido e o que deve ser sólido por toda uma existência.

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