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Agimos automaticamente 40% das vezes

Pilar Magnavita
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Pilar Magnavita
Agimos automaticamente 40% das vezes

Numa manhã, Mariazinha saiu de casa e, a caminho do trabalho, parou no café que gosta e resolveu comer um cookie, aquele biscoito (ou bolacha, vai...) com gotas de chocolate, para começar bem o dia. Mariazinha não tem hábito de comer esse docinho de manhã, mas com aquele café com leite e açúcar, o lanchinho caía muito bem. O que Mariazinha não sabia era que (além dos três quilos que ela ganhou) ela tinha mesmo o hábito de comer o tal cookie. Como, se ela não parava ali todos os dias?

A neurociência já comprovou que a maior parte das nossas ações são reflexos inconscientes (ou irracionais) de situações que nosso cérebro já se treinou para executar. A informação de que Mariazinha se recompensa com um biscoitinho ou com um docinho pela manhã nem fica registrada na memória dela. Esta é até capaz de identificar os alimentos que "costuma" comer, mas não processa facilmente informações como a frequência ou o comidas similiares. Se a nutricionista de Mariazinha perguntar a ela o que costuma comer, ela não conseguirá dizer a verdade. Aliás, é por isso que muitos se utilizam de diários para ter melhor noção daquilo que come.

Doido, né?

Isso é normal! E foi essa capacidade do cérebro de dizer para a gente "fica alerta aí que a gente cuida do trivial" é que fez a humanidade sobreviver as intempéries do inóspito planeta Terra. Serviu para que ficássemos de olho nos eventos que quebrassem certo padrão (o perigo!), enquanto a mente se voltava sozinha para aquilo que não representava risco à vida: ou seja, o hábito.

Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, responderam que 40% do que você faz no dia a dia é por força do costume. Todo esse percentual é processado no inconsciente neurológico, como automatismo. O que faz a gente pensar: o quanto, de fato, eu me conheço?

Ah! É aí que aparece o enigma da Esfinge.

A gente não se conhece. E é por isso que a quimera nos devora todos os dias. Talvez até o Alzheimer também, com o tempo. Pois já se sabe que o automatismo também pode desencadear males da cabeça.

Quem quiser melhor esse processo automático da mente, recomendo a leitura do livro do Nobel em Economia, Daniel Kahneman, "Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar", da Objetiva.

É no automatismo que mora o hábito. Bons ou ruins, eles são resultados da irracionalidade. São criados a partir de algum tipo de recompensa. Assim nascem vícios, escolhas erradas de alimentação e até mesmo sua comunicação com outras pessoas. Em geral, levamos dois meses para transformar uma ação rotineira em um hábito.

O assunto chamou atenção de Charles Duhigg, jornalista do New York Times formado em história e pós-graduado em Negócios. Para entender melhor sobre o mundo corporativo que escrevia, começou a estudar melhor o tema "hábitos". A princípio foi apenas para compreender o sistema produtivo de um funcionário e de uma empresa. Depois, com o avançar das pesquisas do MIT às quais teve acesso, trouxe ao público a obra "O Poder do Hábito", também da editora Objetiva, com os resultados dos 30 anos de pesquisa do instituto de tecnologia.

Agimos automaticamente 40% das vezes

Segundo o esquema que Duhigg fez no livro, hábitos são criados a partir de uma ação que tem como parceiro outro elemento. Tipo: ao sair de casa de manhã para o trabalho, tenho hábito de comprar o jornal. Eu estipulei um horário, um determinado tipo de roupa e o local onde compro o jornal é no caminho do trabalho. São três condicionantes. Meu hábito já terá elementos para se tornar automático, mas isso só vai acontecer se esse hábito me der uma recompensa. Ao ler o o jornal, consigo chegar no meu trabalho e conversar com as pessoas sobre o que está acontecendo. E com isso me sinto muito bem. Por isso que se viciar em exercício físico só acontece depois de alguns meses, quando os resultados da prática já são visíveis (recompensa) e passa a ser considerado pelo cérebro como algo automático, devido ao tempo de repetição.

Agimos automaticamente 40% das vezes

Na boa, acho que meu border collie é mais esperto do que eu. Três repetições e o bicho já pegou o automatismo da coisa!