MULHERES

Brinquedos de "menina" afastam as meninas de carreiras na ciência

Pilar Magnavita
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Pilar Magnavita
Brinquedos de "menina" afastam as meninas de carreiras na ciência

A criança nem bem nasceu e o quarto já tem a cor rotulada do gênero. Os brinquedos vem de acordo com aquilo que as criancinhas trazem entre as pernocas. Bonecas, carrinhos, vestidinhos, shortinhos, tênis, sandalinhas... Não há dúvidas sobre a interferência desses estereótipos na construção da identidade de gênero, o que acaba influenciando também nas escolhas profissionais futuramente. O lugar das mulheres dentro dos laboratórios começa a ser cerceado ainda na infância. E o dos homens, incentivado.

Nessa matéria do jornal britânico The Guardian, a professora de física experimental e conselheira da Universidade de Cambrigde, Athene Donald, explica os brinquedos que damos às crianças e as habilidades que eles desenvolvem nelas definem muito cedo para que lado a criança vai tender: humanas, exatas, artísticas... e os brinquedos considerados femininos em nada estimulam o pensamento científico nas mulheres. Barbies, panelinhas, bonecas e a maioria dos brinquedos tidos como "femininos" não instigam a criatividade, o senso crítico e o desenvolvimento de habilidades motoras. Pelo contrário, são objetos atrelados à passividade, à vaidade e à subserviência.

Já brinquedos "de menino", como Legos, carrinhos, jogos de química, maletas de mecânico, dão mais oportunidades para a criança ficar exposta a brincadeiras que envolvam ciência e engenharia - e, claro, aumentam as chances de ser influenciada por esses conhecimentos desde cedo.

A pesquisadora, que estuda a física de sistemas biológicos, disse que os interesses acadêmicos das crianças começam a ser estimulados muito antes de elas escolherem qual deseja estudar no nível acadêmico: humanas, exatas, biomédicsa, etc. Encorajar as meninas mais nas áreas das ciências vai ajudar a construir uma sociedade informada e igualitária, que pode tomar boas decisões sobre questões tão variadas como vacinas, antenas de telefonia móvel e as mudanças climáticas e atender melhor o público feminino, em pé de igualdade. Para não acontecer isso aqui, em todas as áreas de conhecimento:

Athene Donald conta que há pessoas que pensam que aquilo que as crianças fazem aos quatro anos é irrelevante para a vida adulta, o que é um erro! O que somos hoje é um acúmulo de experiências ao longo de toda nossa existência. As evidências científicas sugerem que as crianças definem desde muito cedo o tipo de área que se sentem mais à vontade, pelos estímulos que recebem em casa e na escola, na maioria das vezes. Por isso as brincadeiras com panelinhas, bonecas e coisas consideradas totalmente femininas não encorajam curiosidade, resolução de problemas matemáticos (como Lego e quebra-cabeças), capacidade de construção (argila, jogo de peças) e o interesse pela física (como maletas de química e física para as crianças).

Curiosamente, eu sempre tive dos meus pais brinquedos que ultrapassavam a barreira do gênero como blocos de montar (meus preferidos), aquelas aeronaves de brinquedo que a gente tem que construir, bonecos do Lion e Jaspion, carrinhos, além das minhas Barbies. Curiosamente, sempre tive mais amigos meninos do que meninas, que me consideravam uma chatonilda e sem assunto para falar com elas. Confesso que a vida era difícil no aspecto social pelas diferenças (minhas amigas mulheres não têm nenhum nhém-nhém-nhém), mas isso realmente me ajudou muito profissionalmente.

Um estudo da Universidade de Washington reforça a teoria de Donald: antes mesmo de aprender as operações de divisão e multiplicação, as crianças já acham que "matemática é para meninos".

Brinquedos de "menina" afastam as meninas de carreiras na ciência

A pesquisa, conduzida pelo psicólogo Andrew Meltzoff, especialista em desenvolvimento infantil e co-diretor do Instituto de Aprendizado e Ciências do Cérebro da Universidade de Washington, mostra que o estereótipo de que as ciências exatas são para meninos aparece antes do 2º ano do ensino fundamental. Gente, isso é na infância ainda!

Brinquedos de "menina" afastam as meninas de carreiras na ciência

Um grupo de 247 crianças de 1ª a 5ª série participou de testes que associavam matemática e gênero. Foram avaliados três aspectos: identidade de gênero (se a criança se identifica como feminino ou masculino), associação da capacidade matemática a gênero e autoavaliação sobre habilidades matemáticas.

Em um dos testes, foi pedido às crianças que combinassem quatro tipos de palavras: nomes de meninos, nomes de meninas, palavras relacionadas à matemática e palavras comuns.

Como esperado, a maioria das crianças - tanto meninos como meninas - associou os termos matemáticos a nomes de meninos. Além disso, no teste de autoavaliação, mais meninos do que meninas se declararam identificados com perfil matemático.

Tá na hora de mudar, né?!

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