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Cinco dicas para sermos felizes para sempre

Pilar Magnavita
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Pilar Magnavita
Cinco dicas para sermos felizes para sempre

O rei Salomão era um cabra inteligente. Viveu na riqueza, gozou de todos os prazeres da vida e, ainda assim, morreu dizendo que jamais conheceu a felicidade. Disse que tudo o que fruiu satisfez apenas sua vaidade, palavra que eu costumo traduzir também como "capricho". Salomão não estava de todo errado. Somos criaturas caprichosas, eu e você. Queremos coisas e queremos agora. E também não queremos nos esforçar por nenhuma delas. Queremos esticar as mãos e "apanhar" uma sensação, um estímulo legal. A isso imaginamos buscar nossa felicidade. E se não conquistamos isso, sofremos demasiadamente.

Milênios depois de Salomão, o príncipe hindu Sidarta Gautama (o Buda), que também viveu como rei até cerca dos 30 anos (aos 29 anos, Saturno passou na vida dele e bagunçou a cabeça do moço), disse ter encontrado a felicidade suprema em um reino que não era deste mundo. Explicou que "nós somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos fazemos o nosso mundo." E isso pode ser feliz ou não. Curiosamente, Jesus afirmou a mesma coisa, poucos séculos antes do Buda, na Palestina, corroborando Salomão: "a felicidade não é deste mundo"; "meu reino não é deste mundo".

Confúncio, Lao Tsé, entre outros chegaram a falar a mesma coisa. E todo esse período de contemplação sobre a felicidade recebeu o nome de Era Axial (que diz respeito a "eixo" do homem). Ninguém tem muita ideia sobre o motivo de tanta gente bacana ter dito a mesma coisa, em períodos quase seguidinhos de tempo, em geografias totalmente disparatadas. Talvez porque na época não houvesse internet e a galera podia "perder" tempo com coisa mais útil.

Condutas meramente religiosas?

Não. Em 480 antes de Cristo, Sócrates postulou que a felicidade ela não se relacionava apenas à satisfação dos desejos e necessidades do corpo, mas da alma. Na sua concepção, o homem não era apenas matéria, mas fundamentalmente espírito. Algo que o psicólogo Viktor Frankl concluiu após passar um bom bocado de anos em campo de concentração nazista e observar os companheiros de cárcere: a ideia de que é preciso alimentar o aspecto noógeno (da alma) do homem. Esse postulado todo de sabedoria humana vem acertando um pouquinho as lentes kantianas e schoppenhauseanas, com uma boa ajudinha da ciência. Em especial, da neurociência.

Em um artigo para a Time, o jornalista Eric Barker entrevista o neurocientista Alex Korb, da Universidade da Califórnia e autor do livro “The Upward Spiral: Using Neuroscience to Reverse the Course of Depression, One Small Change at a Time.” Na tradução, "Espiral ascendente: usando a neurociência para reverter o caminho da depressão, uma pequena mudança de cada vez". Em suma, a felicidade não está alheia à nós, do lado de fora e nas coisas do mundo. Está na cabeça! E esse estado de espírito depende pouco dos estímulos que recebemos dos nossos sentidos, em reação ao que nos cerca. Se nos acostumamos a identificar "felicidade" no consumo, então habituamos nosso cérebro a só se sentir feliz com esse comportamento. Assim acontece com outros diversos hábitos que podem estimular nossos neurotransmissores e, para muitos distúrbios de comportamento ou hábitos negativos, costumamos a fazer uso de medicamentos para "quebrar" o círculo vicioso ao qual nos impomos. No entanto, sem uma mudança do nosso sistema de crenças e significados, em paralelo, seremos eternamente escravos dos medicamentos. É aquela história: "mais Platão, menos Prozac".

Na matéria, Korb lista cinco hábitos que poderiam fazer seu cérebro – e, consequentemente, você – feliz. São coisas simples, que mostram que até mesmo o sentimento de felicidade pode (e deve!) ser exercitado. Como em tudo em nosso corpo, a "visão" também requer alguma dose de exercícios.

1) Ouça músicas de momentos felizes de sua vida


Os efeitos da música no cérebro são incríveis. Além de muitas consequências felizes, a melodia é capaz de ativar memórias de quando você ouviu aquelas notas. Uma viagem legal que você tenha feito e o momento em que você escutou uma música que marcou ocasião especial… ou canções da infância em situações felizes… tudo isso serve de veículo para você evocar aquela emoção tão legal. Isso afeta seu humor. Isso é feito por uma estrutura bastante primitiva no cérebro (lá dos répteis) chamada "sistema límbico". Especificamente, no hipocampo, dentro dele. Então, ouça música! E porque não dançar também?

2) Sorria e use óculos escuros


Quer coisa mais contagiosa do que uma gargalhada bem dada? Você acaba rindo e nem sabe o motivo, não é verdade? Pois é. O cérebro é um órgão meio bobinho mesmo. Ao receber informações positivas dos nossos sentidos, a cabeça reage da mesma forma. É um processo chamado de “biofeedback”, em que o cérebro busca por pistas quando é bombardeado de informações que não procedem, como por exemplo "todos estão rindo. Eu não sei o motivo, mas vou rir também porque deve ser engraçado". QUando você passa a sorrir mais, o órgão responde da mesma maneira: mesmo não sabendo o motivo, ele entende que é hora de soltar umas endorfinazinhas. Ele está sempre ‘sentindo’ o que acontece com o corpo e revisando a informação para decidir como se sente em relação ao mundo, segundo Alex Korb. Assim, você evita de se entupir de chocolate para ter o mesmo barato.

Ah! E use óculos escuros. Na mesma lógica do sorriso, quando a claridade te faz franzir o cenho a cabeça entende que você está preocupado. Então sorria de óculos escuros e se sinta mais "cool".

3) Pensar sobre o sentido da vida e objetivos


O psiquiatra austríaco Viktor Frankl fundou a terceira escola de psicologia com a criação da Logoterapia. Basicamente, inspira as pessoas a encontrarem o sentido de suas vidas. À época que concebeu essa forma de ajudar pacientes a serem mais felizes, nos anos 60 e 70, a neurociência ainda não havia descoberto muito sobre o cérebro. Hoje, sim. E as pesquisas já indicam a mesma coisa: pensar sobre o futuro dá ao cérebro a sensação de que você está no “controle” e, portanto, vai liberar uma substância chamada dopamina, que fará você se sentir melhor e mais motivado. A técnica é fundamental para os momentos da vida em que nos encontramos em uma encruzilhada, sem saber qual caminho tomar. Dilemas, problemas que nos prendem ocasionalmente a situações difíceis… tudo isso parece ser mebnor quando temos em foco nossos objetivos. É um poderoso sistema de recompensa.

4) Durma bem


Gente, dormir é fundamental. Não sou ninguém se não tiro minhas oito horinhas de sono. Às vezes até nove! Acordo renovada e pronta para mais uma batalha. No entanto, estresse, ansiedade e depressão são capazes de afetar a qualidade das nossas noites. Já se sabe que dormir mal causa depressão! Nem sempre a gente consegue, não é mesmo? Graças à ciência, temos subterfúgios para esses momentos menos felizes: quando se sentir cansado no escritório, no meio do expediente, dê um rolé na rua (a pretexto de um lanche, por exemplo) só para que sua pele absorva um pouco da luz natural. E de noite busca o escurinho. O corpo aidna depende muito do que a natureza nos dá para ser feliz. Por isso, é bom evitar os gadgets e a TV logo antes de dormir. Anote também o que aconteceu de bom no dia ou coisas pelas quais você é grato em sua vida. Isso ajuda a doutrinar sua cabeça às coisas boas e seu cérebro acaba entendendo que você é feliz.

5) Vencer a procrastinação


Isso é difícil, mas essencial. A procrastinação é um círculo vicioso em que você deixa para depois o que pode fazer hoje. Quase sempre, você se deixa em segundo plano em nome dos deveres e do trabalho.  E aí você fica no limite do estresse e até da depressão.

Há três importantes regiões no cérebro: o córtex pré-frontal (que pensa em objetivos de longo prazo), o estriado dorsal (que considera coisas feitas no passado) e o núcleo accumbens (que nos leva a escolher as coisas mais divertidas, em vez de trabalhar). Quando nos esforçamos, o córtex pré-frontal se sobrepõe aos outros dois. Ao repetir o processo, você consegue estabelecer um padrão e construir bons hábitos. O que pode atrapalhar o processo? Estresse, que enfraquece o córtex. A cabeça não consegue ficar em alerta o tempo todo. Como? Pense no que, de fato está causado a estafa e se esse momento é necessário no futuro para você: ou seja, se é um caminho para você conquistar seus objetivos. Se não for, amigo, então dê adeus e vá atrás do que você quer. Ressalto: o que você quer! E não o que disseram o que você tinha que querer.

Se esse momento de esgotamentos fizer parte de uma longa caminhada para atingir sua meta, então lance mão de outros recursos: caminhada pelas manhãs para pegar um solzinho, atividades em companhias agradáveis e óculos escuros!

Se quiser ler a matéria em português, a revista Época Negócios publicou o artigo no dia 6 de janeiro deste ano.