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Muito além da música

Pilar Magnavita
há 2 anos5 visualizações
Muito além da música
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Foi-se, nesta madrugada de 10 de janeiro, uma das pessoas mais interessantes da segunda metade do século XX. David Robert Jones era seu nome. Nasceu num dia muito frio em janeiro de 1947 em Brixton, subúrbio de Londres. Desde pequeno era visto pelos amiguinhos como um ser "estranho". Na escolinha Stockwell Infants School, as tias avaliavam o pequeno como uma "mente brilhante", mas muito rebelde. Não havia para esse espírito outro caminho a não ser o da Arte.

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Jones cresceu e virou um rapaz de qualidades únicas. Bonito, extremamente inteligente e dono de uma personalidade cativante e uma sensibilidade comparável aos dos grande gênios. Fascinava-se por Elvis Presley e Chuck Berry. Apaixonou-se depois por Charles Mingus, John Coltrane e especialmente Little Richard. Queria ser como ele. Seu coração nada tinha daquele velho mundo careta, em que um filho de uma garçonete e de um promotor de caridade não teria outro emprego senão como operário. A prisão de uma rotina que primava pela produção em busca de um sonho que era o de uma casinha no subúrbio, com cerca branca. Não.. aquele espírito pertencia à melodiosa desarmonia do jazz improvisado e à expressão de uma paleta de sentimentos que a maioria dos seus colegas desconheciam. Havia um tesouro enterrado no coração de Jones que ele simplesmente queria tirar de si.

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O melhor amigo dele, George Underwood, não o compreendia, mas ainda assim o adorava. E os dois formaram uma banda com Peter Frampton, na adolescência.

E continuaram amigos mesmo depois de Jones dizer a Underwood que a mina que o garoto estava saindo queria estar, na verdade, com ele. A língua custou caro ao pobre Jones. Enraivecido, o amigo socou o olho esquerdo dele, deixando a visão do rapaz insuficiente. Chegou a fazer cirurgias, mas o belo olho azul jamais foi o mesmo, com a pupila eternamente dilatada.

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Continuaram amigos.

Jones deixou a Bromley Tech com conhecimentos em artes, música e design. Formou uma banda e investiu na carreira artística. Participou e formou diversas bandas sem o menor sucesso. Apesar da dificuldade por quase uma década, não esmoreceu. E para não ser confundido com Davy Jones, que fazia sucesso com "The Monkeys", resolveu trocar de nome. Dizem que se inspirou em um pioneiro americano chamado Jim Bowie, que inventou em fins do século XIX a faca de caça Bowie. Queria que sua arte fosse tão afiada, competente e letal como a arma branca, fabricada até hoje.

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Nascia assim o álbum David Bowie, que também não logrou qualquer sucesso. O artista, contudo, veio depois. Abandonou-se tal como era e foi para o teatro. Sob a tutela de Lindsay Kemp, descobriu a mímica, o avant-guarde, a comedia dell'arte, a expressão muda e resolveu explorar com o próprio corpo o bizarro que tanto o fascinava. Kemp (imagem abaixo) foi para ele toda e qualquer possibilidade que David Jones quisesse ser, fora do cárcere do próprio gênero. Os dois tiveram uma relação bem difícil, volátil e à flor da pele.

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A música que compôs após o próprio renascimento artístico chamava-se Space Oddity, lançada junto do pouso de Neil Armstrong na Lua em 1969. Realizado em 11 de julho, cinco dias antes do lançamento da Apollo 11, "Space Oddity" ficou em 5º lugar no topo do ranking do Reino Unido.

Nos Estados Unidos, o álbum foi intitulado como Man of Words/Man of Music, e não teve sucesso comercial mesmo com com letras filosóficas de um mundo pós-hippie sobre paz, amor e moralidade, e um som de folk rock acústico fortificado pelo rock pesado.

Daí em diante, Jones assumia o avatar Bowie e se lançava ao mundo com a música. O que poucos sabem é que ele dedicou uma vida inteira para as outras artes. E fez até uma galeria com todas as 150 peças que produziu comercialmente.

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No site da sua galeria, ele conta a história de cada peça que fez. Uma delas me chamou a atenção pela facilidade que ele tinha de idealizar e conceber. Quase como uma brincadeira.

"Em 1978, quando estava em Mombassa, no Quênia, me deparei com um vendedor de rua que estava fazendo pequenas peças de xadrez ali mesmo na calçada. Eu comprei um conjunto dele e os mantive em casa durante todos esses anos e, em seguida, quando eu tive meu show em 1995 em Cork Street, Londres, eu tive a idéia de refazê-los em uma escala muito maior em cromo. A idéia de "fetichiza-los" em um material brilhante e caro foi diretamente influenciada por Jeff Koons. Foi uma maneira de selar para sempre minhas experiências e os atuais acontecimentos na minha vida."

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De acordo com o New York Times, em 1998, Bowie tendia para Picabia, o surrealismo, Marvel Comics e Egon Schiele, acrescentando que ele próprio parecia com Schiele. Para o artista, pintar era como resolver um problema. Recorria à pintura e às artes plásticas sempre que tinha algum bloqueio criativo na música. Aparentemente, isso dava muito certo.

A casa do artista e da esposa, a atriz e ex-modelo Iman, na Ilha de Mustique (Caribe), é uma coleção de arquitetura e peças de arte por si só, como relata a matéria da Architectural Digest, de 1992.

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David Bowie também atuou em 19 filmes, fazendo o papel dele mesmo em sete deles. Na minha opinião, as aparições que mais me marcaram foi, sem sombra de dúvida, o élfico rei dos duendes em "Labirinto", com Jennifer Connoly (1986);

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... como Pôncio Pilatos, na "Última Tentação de Cristo" (1988) de Martin Scorsese;

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fazendo o papel dele mesmo em Zoolander, gente!

E é claro que não deixaria de fora "O Grande Truque" (2006), de Christopher Nolan, com Christian Bale e Hugh Jackman. Bowie era o cientista Nikola Tesla.

A riqueza que esse homem tinha de si e à sua volta era incrível. Certamente, ele foi uma das pessoas mais legais do mundo na segunda metade do século XX. Não é à toa que outras inúmeras celebridades o cercaram de amor, amizade e arte! É a Lei da Afinidade.

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Sua última grande obra veio a público há apenas três dias, no aniversário dele na última sexta-feira. Era para ser sua despedida da ribalta, no apagar das luzes, no cerrar das cortinas. Na minha opinião, a obra reúne todas as magníficas aptidões de Jones: a música (é claro), as artes plásticas, a mímica, a letra. Aos 69 anos, de forma ultra avant-garde, tal como começou.

Foi herói não em apenas um, mas nos seus 24.495 dias. Especialmente nos últimos 532, quando lutou contra o câncer. E nos transformou em heróis todas as vezes que nosso universo íntimo nos foi estranho. Compreendia o bizarro de cada um de nós como ninguém. O número 69 (sem piadinhas pejorativas dos pobres de espírito) data que lançou Bowie ao mundo com Space Oddity, seria coincidentemente também a idade que Jones deixaria a Terra para voltar para seu planeta iluminado de arte, onde quer que seja.

Projeto de grego

Imagine este cenário: você foi demitido. O banco negou a você um empréstimo. Seus familiares também estão se segurando com uma inflação violenta e ninguém tem uma moeda para você comprar um pão. Você não tem um tostão furado para você, quanto mais para levar a mina para tomar um sorvete. Você está na mão, cara! O desemprego aumentou, tomaram sua motoca, você está vivendo de biscate aqui e acolá... Por fim, seu país quebrou e não há mais o que fazer, a não ser vender miçangas para turistas. Ou então, construir um Colosso de Rodes. Óbvio, não?

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Explico:

Um grupo de jovens gregos, falidos e desesperançosos com a situação econômica da Grécia resolveu arregaçar as mangas diante do futuro triste e construir novamente essa obra clássica da antigüidade. Aquela escultura do deus grego Hélio (o Sol), de 30 metros em bronze, que servia de farol aos navegantes. Em qual local? Na ilha de Rodes, Grécia. Claro! 

O arquiteto Ari Pallas, sua mulher espanhola e economista Matilda, o relações públicas Dionisis Mpotsas, o arqueólogo Christos Giannas (pelo nome dá para perceber que os rapazes são gregos), se juntaram ao engenheiro civil espanhol Enrique Fernández Menendez, à arquiteta italiana Ombretta Iannone e ao engenheiro civil britânico Eral Dupi. Assim nascia o projeto com todo esse vulto. No lugar de construir um novo Hélio de bronze de 30 metros como o antigo, o novo projeto contempla uma estrutura de 150 metros de altura. É o equivalente a cinco estátuas empilhadas do Cristo Redentor, no Rio.

De acordo com o jornal britânico The Guardian, o empreendimento foi orçado em 250 milhões de euros e ainda está angariando recursos. O que os organizadores pretendem com isso é gerar empregos no país que tem taxas de desocupação em 25%. Para se ter noção, no Brasil isso é 8,4%. Pode-se dizer que é uma estratégia keynesiana de auxiliar o povo grego na crise. Apenas para explicar o que é isso, o termo faz referência ao economista britânico John Maynard Keynes, que fez escola ao defender intervenção do governo na economia e que é preciso gastar na crise para gerar emprego e renda.

O novo colosso deverá ser pago com dinheiro arrecado de crowdfunding, doações, empresas e alguma ajuda governamental. A expectativa é de que gere renda de 35 milhões de euros em turismo anualmente.  A estátua manterá sua função original de servir como farol aos navegantes, mas abrigará ainda museu, cafés e uma biblioteca.

O Colosso de Rodes original foi considerado como uma das Sete Maravilhas, na famosa lista do poeta Antípatro de Sídon (do século II A.C). Com ele estão os Jardins Suspensos da Babilônia, a estátua de Zeus em Olímpia, o templo de Ártemis em Éfeso, o Mausoléu de Halicarnasso, o Farol de Alexandria e as Pirâmides de Quéops, as únicas da relação a ficarem de pé até hoje.

Você pode dar uma olhada no projeto no vídeo abaixo.

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escrita por
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pilarmag
Escritora, psicóloga de parentes e amigos, experimentada na cozinha e na Comunicação, já pipocou na chapa quente de grandes jornais e empresas, mãe de cachorro, esposa prendada e tirana, mulher sensível e chorona, teóloga meia boca, fã de Neil Degrasse Tyson. Namastê! Prazer em te conhecer.