Luz e sombra
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Um apartamento e 10 identidades

Minha avó morou a vida toda (desde que nasci) no 402, um imenso apartamento na Tijuca, zona norte do Rio, onde toda a minha numerosa família (e meus amigos de escola também) se encontrava na hora do almoço ou nos fins de semana. Se me dissessem que a casa dela era o maior ponto de encontro tijucano depois da Saens Peña (na verdade é Sáenz) e Afonso Pena, eu talvez até acreditasse. O local foi tão importante para mim que, depois que ela se mudou para outro número no mesmo prédio, um dos maiores desejos que passei a ter foi invadir o velho só para espiar como os novos vizinhos se acomodaram. Acho que foi aí que desandei de vez. Minha curiosidade sobre como as pessoas moravam passou a me devorar toda vez que alguém faz alusão à própria casa.

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Como diz minha titia, "coisa de gente biruta".

O fato é que deixo minha imaginação voar ao tentar cruzar as características da pessoa com os móveis e ambiente onde ela vive. Pessoa extrovertida, descolada, cheia das amizades... apartamento colorido, moderninho e muito prático. Móvel amarelo na parede branca e copos de plásticos na cozinha. Mulher octogenária morando sozinha.... casa escura, janelas com aquela persiana vertical de tiras de pvc que fazem barulho, móveis escuros chippendale e muitos paninhos de bordado inglês. Esteriótipos, talvez. No entanto, essa minha curiosidade me mata para saber de que forma meus vizinhos enfeitaram as próprias casas, que têm arquitetura igual a minha.

No entanto, eis que pesquisando sobre o que anda rolando no mundo da fotografia (uma das minhas paixões platônicas), me deparei com o artista romeno Bogdan Girbovan, que teve a ótima ideia de juntar minha admiração pela arte com a minha esquisitice. No projeto "10/1", ele clicou dez apartamentos com plantas iguais em um mesmo prédio. Daí o nome do trabalho: "10 andares, um apartamento". 

Como todo bom fotógrafo tem que ter alguma coisa de "cara de pau", Girbovan se infiltrou na casa desses moradores romenos e registrou como elas viviam.

Nas fotos do projeto do artista (abaixo), conseguimos perceber as diferentes identidades de cada residência, todas com a mesma metragem e desenho arquitetônico. Tirem suas conclusões!

1) Primeiro andar

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2) Segundo andar

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3) Terceiro andar

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4) Quarto andar

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5) Quinto andar

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6) Sexto andar

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7) Sétimo andar

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8) Oitavo andar

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9) Nono andar

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10) Décimo andar

Um apartamento e 10 identidades

Todos os apartamentos desse prédio, na parte oriental de Bucareste, Romênia. O próprio artista é personagem do projeto. Ele é esse rapaz que aparece no apartamento do 10º andar.

Um apartamento e 10 identidades

A matéria original é do portal romeno Metropotam:

Muito além da música

Pilar Magnavita
há 2 anos5 visualizações
Muito além da música
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Foi-se, nesta madrugada de 10 de janeiro, uma das pessoas mais interessantes da segunda metade do século XX. David Robert Jones era seu nome. Nasceu num dia muito frio em janeiro de 1947 em Brixton, subúrbio de Londres. Desde pequeno era visto pelos amiguinhos como um ser "estranho". Na escolinha Stockwell Infants School, as tias avaliavam o pequeno como uma "mente brilhante", mas muito rebelde. Não havia para esse espírito outro caminho a não ser o da Arte.

Muito além da música

Jones cresceu e virou um rapaz de qualidades únicas. Bonito, extremamente inteligente e dono de uma personalidade cativante e uma sensibilidade comparável aos dos grande gênios. Fascinava-se por Elvis Presley e Chuck Berry. Apaixonou-se depois por Charles Mingus, John Coltrane e especialmente Little Richard. Queria ser como ele. Seu coração nada tinha daquele velho mundo careta, em que um filho de uma garçonete e de um promotor de caridade não teria outro emprego senão como operário. A prisão de uma rotina que primava pela produção em busca de um sonho que era o de uma casinha no subúrbio, com cerca branca. Não.. aquele espírito pertencia à melodiosa desarmonia do jazz improvisado e à expressão de uma paleta de sentimentos que a maioria dos seus colegas desconheciam. Havia um tesouro enterrado no coração de Jones que ele simplesmente queria tirar de si.

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O melhor amigo dele, George Underwood, não o compreendia, mas ainda assim o adorava. E os dois formaram uma banda com Peter Frampton, na adolescência.

E continuaram amigos mesmo depois de Jones dizer a Underwood que a mina que o garoto estava saindo queria estar, na verdade, com ele. A língua custou caro ao pobre Jones. Enraivecido, o amigo socou o olho esquerdo dele, deixando a visão do rapaz insuficiente. Chegou a fazer cirurgias, mas o belo olho azul jamais foi o mesmo, com a pupila eternamente dilatada.

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Continuaram amigos.

Jones deixou a Bromley Tech com conhecimentos em artes, música e design. Formou uma banda e investiu na carreira artística. Participou e formou diversas bandas sem o menor sucesso. Apesar da dificuldade por quase uma década, não esmoreceu. E para não ser confundido com Davy Jones, que fazia sucesso com "The Monkeys", resolveu trocar de nome. Dizem que se inspirou em um pioneiro americano chamado Jim Bowie, que inventou em fins do século XIX a faca de caça Bowie. Queria que sua arte fosse tão afiada, competente e letal como a arma branca, fabricada até hoje.

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Nascia assim o álbum David Bowie, que também não logrou qualquer sucesso. O artista, contudo, veio depois. Abandonou-se tal como era e foi para o teatro. Sob a tutela de Lindsay Kemp, descobriu a mímica, o avant-guarde, a comedia dell'arte, a expressão muda e resolveu explorar com o próprio corpo o bizarro que tanto o fascinava. Kemp (imagem abaixo) foi para ele toda e qualquer possibilidade que David Jones quisesse ser, fora do cárcere do próprio gênero. Os dois tiveram uma relação bem difícil, volátil e à flor da pele.

Muito além da música
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A música que compôs após o próprio renascimento artístico chamava-se Space Oddity, lançada junto do pouso de Neil Armstrong na Lua em 1969. Realizado em 11 de julho, cinco dias antes do lançamento da Apollo 11, "Space Oddity" ficou em 5º lugar no topo do ranking do Reino Unido.

Nos Estados Unidos, o álbum foi intitulado como Man of Words/Man of Music, e não teve sucesso comercial mesmo com com letras filosóficas de um mundo pós-hippie sobre paz, amor e moralidade, e um som de folk rock acústico fortificado pelo rock pesado.

Daí em diante, Jones assumia o avatar Bowie e se lançava ao mundo com a música. O que poucos sabem é que ele dedicou uma vida inteira para as outras artes. E fez até uma galeria com todas as 150 peças que produziu comercialmente.

Muito além da música
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No site da sua galeria, ele conta a história de cada peça que fez. Uma delas me chamou a atenção pela facilidade que ele tinha de idealizar e conceber. Quase como uma brincadeira.

"Em 1978, quando estava em Mombassa, no Quênia, me deparei com um vendedor de rua que estava fazendo pequenas peças de xadrez ali mesmo na calçada. Eu comprei um conjunto dele e os mantive em casa durante todos esses anos e, em seguida, quando eu tive meu show em 1995 em Cork Street, Londres, eu tive a idéia de refazê-los em uma escala muito maior em cromo. A idéia de "fetichiza-los" em um material brilhante e caro foi diretamente influenciada por Jeff Koons. Foi uma maneira de selar para sempre minhas experiências e os atuais acontecimentos na minha vida."

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De acordo com o New York Times, em 1998, Bowie tendia para Picabia, o surrealismo, Marvel Comics e Egon Schiele, acrescentando que ele próprio parecia com Schiele. Para o artista, pintar era como resolver um problema. Recorria à pintura e às artes plásticas sempre que tinha algum bloqueio criativo na música. Aparentemente, isso dava muito certo.

A casa do artista e da esposa, a atriz e ex-modelo Iman, na Ilha de Mustique (Caribe), é uma coleção de arquitetura e peças de arte por si só, como relata a matéria da Architectural Digest, de 1992.

Muito além da música
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David Bowie também atuou em 19 filmes, fazendo o papel dele mesmo em sete deles. Na minha opinião, as aparições que mais me marcaram foi, sem sombra de dúvida, o élfico rei dos duendes em "Labirinto", com Jennifer Connoly (1986);

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... como Pôncio Pilatos, na "Última Tentação de Cristo" (1988) de Martin Scorsese;

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fazendo o papel dele mesmo em Zoolander, gente!

E é claro que não deixaria de fora "O Grande Truque" (2006), de Christopher Nolan, com Christian Bale e Hugh Jackman. Bowie era o cientista Nikola Tesla.

A riqueza que esse homem tinha de si e à sua volta era incrível. Certamente, ele foi uma das pessoas mais legais do mundo na segunda metade do século XX. Não é à toa que outras inúmeras celebridades o cercaram de amor, amizade e arte! É a Lei da Afinidade.

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Sua última grande obra veio a público há apenas três dias, no aniversário dele na última sexta-feira. Era para ser sua despedida da ribalta, no apagar das luzes, no cerrar das cortinas. Na minha opinião, a obra reúne todas as magníficas aptidões de Jones: a música (é claro), as artes plásticas, a mímica, a letra. Aos 69 anos, de forma ultra avant-garde, tal como começou.

Foi herói não em apenas um, mas nos seus 24.495 dias. Especialmente nos últimos 532, quando lutou contra o câncer. E nos transformou em heróis todas as vezes que nosso universo íntimo nos foi estranho. Compreendia o bizarro de cada um de nós como ninguém. O número 69 (sem piadinhas pejorativas dos pobres de espírito) data que lançou Bowie ao mundo com Space Oddity, seria coincidentemente também a idade que Jones deixaria a Terra para voltar para seu planeta iluminado de arte, onde quer que seja.

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pilarmag
Escritora, psicóloga de parentes e amigos, experimentada na cozinha e na Comunicação, já pipocou na chapa quente de grandes jornais e empresas, mãe de cachorro, esposa prendada e tirana, mulher sensível e chorona, teóloga meia boca, fã de Neil Degrasse Tyson. Namastê! Prazer em te conhecer.