MULHERES

#vamosfazerumescândalo

Pilar Magnavita
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Pilar Magnavita

Nestes próximos dias iremos desfrutar de mais um Carnaval. Pulem e curtam muito essa data, mas tenham cuidado, meninos e meninas. Por favor, tenham cuidado. A libertinagem própria desse festejo confunde a cabeça de pessoas que não têm discernimento suficiente para entender o que é pular no bloco apenas por pular, dar uns amassos apenas por dar e permitir que esses amassos evoluam para o ato sexual.

Hoje vi esse depoimento no Facebook pedindo para ser compartilhado. É um relato de uma moça que foi duramente assediada sexualmente em um bar na Vila Madalena, em São Paulo, e, em vez de ser defendida, quase precisou pedir desculpas para o gerente do bar que a expulsou do estabelecimento. Em vez disso, resolvi publicá-lo aqui.

A história é de Julia Velo:

O Carnaval começou com uma dose cavalar de silenciamento.

Senta que lá vem textão.

Ontem à noite, eu e meus amigos tivemos a infelicidade de ir parar no Bar Quitandinha, na Vila Madalena. Sentamos em um mesão com nossos amigos homens e só eu e a Isabella de mulher. Bebemos algumas durante umas horas, até que todos os homens resolveram se levantar para ir fumar ao mesmo tempo. Absolutamente normal. Eu e ela continuamos sentadas, batendo papo.

E, no intervalo de 5 minutos sem a escolta masculina, um absurdo aconteceu.

Dois caras se sentaram na nossa mesa de forma extremamente desrespeitosa. Puxaram a cadeira e se acomodaram, sem nenhum tipo de convite ou abertura. Tentaram puxar papo insistentemente, enquanto nós desconversávamos, bastante incomodadas. Um deles achou conveniente se servir da nossa cerveja. Obviamente indignadas com a situação, pedimos para que ele não fizesse isso e deixasse a mesa. Ele ignorou e seguiu fazendo o que bem entendesse. Chamamos o garçom e pedimos para ele afastar os caras, que, a esse ponto, já estavam perdendo a linha. Nada – nada - foi feito.

Enquanto eu e a minha amiga tentávamos ignorar os dois trogloditas, eles resolveram partir para o contato físico, já que uma conversinha amigável não estava adiantando. Um deles puxou meu braço. Pedi para ele não tocar em mim. E aí, meu amigo, imagina um cara que ficou puto. Como assim eu não posso tocar numa mulher que tá sentada sozinha? Eles se levantaram da mesa e começaram a nos xingar dos piores nomes da face da terra. “Puta e “lixo” foram dos mais leves. Disseram que não queriam nos tocar mesmo, já que somos feias, gordas e escrotas. Que eles tinham tanto dinheiro (?) que poderiam até nos comprar, se eles quisessem. É. Esse tipo de babaca.

O garçom chegou com o gerente no meio da discussão. Ah! Esses daí vão ajudar a gente, pensamos. Até parece. Eles deram um cumprimento caloroso nos dois assediadores – clientes da casa há 10 anos, reforçaram inúmeras vezes, para tirar a nossa credibilidade. E, ao invés de retirar os caras, o segurança nos retirou, de forma bruta. Sim. As duas meninas que estavam sentadas na mesa tomando conta das nossas próprias vidas. Nesse ponto, nossos amigos homens já tinham voltado e estavam tentando convencer a equipe do bar de que a culpa não era nossa, também em vão, também indignados com tudo.

Saímos e o gerente veio conversar conosco. Aliás, conversar não, dar mais um dose de humilhação. Enquanto minha amiga tentava explicar o absurdo que tinha acontecido, o tal gerente não a olhou nos olhos nenhuma vez e bufava com desprezo. Quando resolveu falar, disse que, se não houve agressão física (que aliás, mais tarde, descobri roxos e cortes nos meus braços, adquiridos no momento em que o lindo me segurou para me xingar), não poderia fazer nada. Que os dois indivíduos que nos assediaram eram clientes e não iriam lidar com as nossas acusações.

Enquanto tudo isso acontecia, a dupla ficou lá dentro, tranquila, sendo servida como príncipes. Olhavam para trás entre um gole e outro para rir mais um pouquinho da nossa cara e nos mostrar o dedo do meio.

A polícia chegou. Ufa, quem sabe agora vai nos escutar? Pff. Não dá pra fazer nada não, moça. Se você quiser, vai ter que ir até a putaqueopariu fazer um BO junto com os seus agressores. Tudo o que você precisa ouvir em um momento traumático e sem nenhum suporte.

Um dos agressores finalmente saiu do bar para falar com a polícia. E a cena foi a seguinte: ele e o policial se cumprimentaram com um toque íntimo de mão e algumas risadas. Apontaram para nós, nos chamaram de histéricas, e retornou para sentar dentro do bar com seu amigo. Tranquilo. Suave.

Tudo isso aconteceu diante dos nossos olhos ardendo de chorar de impotência e raiva. Nenhum grito foi suficiente para ser ouvida: nem pelos dois caras, nem pela equipe do bar, nem pela polícia. Ninguém saiu perdendo, só nós: as mulheres, vítimas daquela merda toda.

‪#‎vamosfazerumescândalo‬

EDIT: Essa é a página do bar. Sintam-se à vontade para dizer para eles o que vocês pensam. https://www.facebook.com/Quitandinha-Bar-339947812719370/

Lembro quando estava em uma festa e um cara que eu tinha acabado de ficar pela primeira vez me levou para o quarto e apagou a luz sem nem mesmo me perguntar se eu estava a fim de me afastar do grupo. E pior que eu nem mais queria nada com ele! Eu tive que gritar, porque ele não entendeu que eu não queria estar com ele. Ficou emburrado e me chamou de histérica. Quem me conhece sabe que minha personalidade é contida e silenciosa, mas aprendi que gritar também é importante. Da mesma forma que, quando eu tinha 16 anos, também tive que gritar quando o meu ficante rasgou minha blusa em uma rua escura, durante um Carnaval em Praia Seca (Região dos Lagos, no Rio de Janeiro). E (graças ao meu anjo da guarda!) minha presença de espírito foi suficiente.

Eu, que já detestava Carnaval, parei de frequentar de vez essas festas, muito embora eu goste de ver os desfiles na Sapucaí.

Mas o que se passa na cabeça desses homens, não é?! Na verdade, nada de mais. Isso que eles fizeram é aceitável. Isso é a chamada cultura do estupro. E esse valor social em que um homem deve atacar uma mulher porque ela, mesmo dizendo não quer dizer sim, está na educaçã, que nos ensina que somos o "segundo sexo", aquele que está subordinado ao primeiro, o que é fruto e nasceu de uma costela do primeiro. 

... na cultura...

...até nas propagandas. Especialmente de Dolce & Gabanna (marca da qual jamais comprei nada!)

#vamosfazerumescândalo
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De acordo com pesquisa realizada pelo Datafolha a pedido do fórum em 84 municípios brasileiros com mais de 100 mil pessoas, 67% da população tem medo de ser vítima de agressão sexual. O percentual de mulheres que têm esse temor, no entanto, é bem maior: 90%, contra 42% dos homens.

Isso porque sexo é uma arma de poder. Nos reinos animais, é usado para demonstrar dominância: cachorros montam uns sobre outros para demonstrar quem é que manda. Pode ver que até algumas fêmeas fazem isso nas pernas dos donos (um tanto omissos, diga-se a verdade). E vocês lembram das focas que estupravam pinguins? Especialmente os pinguins reis?

#vamosfazerumescândalo

Isso não só é a necessidade de sexo, mas de sentir o poder sobre o outro. Algumas vezes, isso se expressa até com as crianças como vítimas. O que só demonstra mais uma vez como somos animalizados e totalmente escravos de instintos bestiais, capazes de subjugar qualquer apelo da razão.

Precisamos mudar isso, né?! Pelas mulheres que são mães, esposas, irmãs e filhas.

(Curta metragem "Maioria Oprimida", de Eleanore Pourriat")

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