CURIOSIDADES

Os sonhos da rua - Sobre aspirações e metas de pessoas desabrigadas

Autor

Por Jessica Santos de Souza

Os sonhos da rua - Sobre aspirações e metas de pessoas desabrigadas

Foto por Lucas Conejero

 

O ser humano é motivado por seus objetivos e sonhos. Sem eles ficamos perdidos e vivendo como máquinas em piloto automático.

Agora vamos pensar nas pessoas em situação de rua. Bem elas são seres humanos como nós e portanto têm variados desejos e sonhos.

O que mais escuto dessas pessoas é o desejo de ser tratado como um ser humano, ser “visto” pela sociedade. Eles vivem em lugares bem públicos e as pessoas não olham, não falam e por vezes ainda atravessam a rua.

Sabe o nosso dia a dia em casa? Limpar, cozinhar, lavar roupa e etc? Sim, muitos adaptam o cantinho que moram e todos os dias fazem tudo isso. E há uma questão de comunidade que nós muitas vezes não temos com nossos vizinhos, eles dividem comida, cobertores e cuidam de cachorros de estimação.

Ter um lugar onde morar é uma aspiração recorrente. Muitos acabaram nas ruas por causa de vício em drogas ou violência em casa. Também encontramos pessoas que em épocas de crise financeira perdem seus empregos e terminam nas ruas com suas famílias por não ter condição de pagar o aluguel.

Durante algum tempo e principalmente em operações diferentes eu estive na Cracolândia e conheci algumas pessoas que me impressionaram e me fizeram repensar todos os clichês e preconceitos que ainda tinha sobre a rua, o vício e o uso de drogas. Um jovem me impressionou e acabamos ficando conversando durante algumas horas.

Richard era um rapaz sorridente e vaidoso que estava no Centro de Convivência para Crianças e Adolescentes Mauá, em frente à Estação Júlio Prestes, no centro de São Paulo.

Ia lá praticamente todos os dias para tomar banho, participar de oficinas diversas (como capoeira e artesanato) e se alimentar, assim como muitas outras crianças e adolescentes em situação de rua que frequentavam o centro desde o final de 2011 e durante a Operação Sufoco do Governo Alckmin.

O sonho do adolescente, de 17 anos, era ser cantor. Na época me disse que já tinha desistido de cantar, mas gostaria de entrar em uma faculdade e se formar em inglês ou em algo relacionado a direitos humanos, mas parou de estudar na 4ª série.

Richard contou que não usava mais drogas e também não entrava em confusões na rua. Já tinha tentado morar em abrigos, mas não tinha se adaptado às regras e a convivência nesses lugares.

Era começo de 2012, e ele havia passado o Natal com os irmãos. Richard começou a morar na rua com 8 anos, logo após sua mãe falecer. Com os olhos marejados ele me disse que voltaria para casa se os irmãos pedissem, mas que já estava bem feliz de ter retomado o contato com eles.

Assim como ele, há centenas de crianças e adolescentes crescendo nas ruas das grandes cidades. Há famílias inteiras e também muitos adultos que perderam o contato com suas famílias e mesmo querendo voltar a esse convívio não sabem como fazer.

Falta moradia, emprego, comida e o principal, falta perspectiva e programas governamentais que deem dignidade e oportunidade.

O consumo de álcool muitas vezes acontece para mascarar a fome ou o frio, assim como o consumo de crack e outras drogas. Não faz sentido usar a polícia e as guardas municipais para arrancar os poucos pertences que essas pessoas têm com e expulsá-los da rua.

Os abrigos e outros locais de atendimento das Prefeituras seguem regras que complicam a entrada imediata destas pessoas em situação de rua.

Não existe fórmula mágica para mudar essa situação. Mas cada um de nós pode mudar o olhar sobre as pessoas e cobrar o poder público investimento e programas específicos.

 

Os sonhos da rua - Sobre aspirações e metas de pessoas desabrigadas
Os sonhos da rua - Sobre aspirações e metas de pessoas desabrigadas