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Quanto mais proibição, mais tráfico.

Quebrando o Tabu
há 9 meses1.3k visualizações

Por Fábio Chap

Quanto mais proibição, mais tráfico.
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Beck dá lucro. Como açúcar dá lucro, como Coca-Cola dá lucro, como marcas de café dão lucro. Talvez você até pense que o mundo seria melhor se consumíssemos menos açúcar, menos Coca-Cola e menos café. Mas aposto que você não acredita que proibir a venda de açúcar, Coca-Cola e café seja a melhor saída, certo? Porque, como geral curte um brigadeiro, um refri e um café relaxante, a sociedade iria continuar consumindo esses produtos mesmo que eles fossem proibidos, certo? Por que então você pensa diferente pro beck? Pra maconha? Pro baseado?

Quanto mais proibição, mais tráfico.

 

Hoje pra quem o beck dá lucro? Pro tráfico e pro crime organizado. E quando falo tráfico e crime organizado não parto do pressuposto que só tem preto pobre envolvido, não. Tem muito bacana na cadeia produtiva (e distributiva) das drogas. O preto pobre só trabalha no Varejo. O atacado é composto de 'senhores de bem'.

Quanto mais proibição, mais tráfico.

 

Pra quem o beck poderia dar lucro se fosse legalizado? Pequenos agricultores, inclusive da periferia, que vendam maconha e produtos derivados dela, mas, a partir desse momento sem violência envolvida no processo. Poderão vender localmente e também via lojas virtuais pra todo o Brasil. As experiências internacionais com a legalização apontam uma redução grande nos índices de violência.

Quanto mais proibição, mais tráfico.

 

A quem a guerra às drogas prejudica mais? Principalmente policiais e moradores de periferia. Em geral são negros, homens e jovens. E essa história se repete por todo Brasil. Morre policial honesto e morre policial bandido. Morre morador honesto e morre morador bandido. É uma bola de neve armamentista. Onde policiais e traficantes comercializam ou disputam armas em verdadeiras batalhas urbanas. É guerra.

Quanto mais proibição, mais tráfico.

 

Como fica a guerra polícia X tráfico se a maconha for legalizada? Primeiramente será observada uma diminuição massiva do número de encarceramentos. Depois, uma diminuição relevante no número de homicídios. Uma vez que haverá menos motivos para intervenções militares na quebrada, vão morrer menos moradores e menos policiais. A polícia poderá se focar no combate ao tráfico de armas e não vai mais ficar enxugando gelo; correndo atrás de pivete com pochete.

Quanto mais proibição, mais tráfico.

 

Como fica a guerra polícia X tráfico se a maconha for mantida proibida? Vai continuar morrendo morador inocente, policial inocente, morador bandido, policial bandido. Talvez o número de 60 mil homicídios por ano aumente. Inclusive, essa é a realidade dos últimos anos. A cada ano sobe mais e mais o número de mortos nessa guerra. Vale sempre enfatizar: é mais morte (por ano) do que na Guerra da Síria.

Quanto mais proibição, mais tráfico.

 

É possível erradicar o uso de maconha no Brasil e no mundo? É possível acabar com o uso de açúcar, café e Coca-Cola? Não, né? Da maconha também não. Melhor a gente enxergar a realidade e trabalhar a partir daí. Quanto mais proibir, mais formas de comercializar ilegalmente vão encontrar. Já morreu gente demais por conta de uma simples planta que se provou bem menos prejudicial - por vezes, até medicinal - do que diversas substâncias legalizadas em nossa sociedade.

**

Por quê você não escreveu nada sobre o uso medicinal da maconha; que, de longe, é o tema mais importante pra ser debatido? Prefiro deixar esse aspecto para profissionais da saúde. Entendo pouco, sei pouco, mas sei que é um absurdo constrangedor impedir o acesso de doentes ao medicamento que pode curá-los. Ter que entrar na justiça pra poder medicar um filho/uma filha? Vergonha, Brasil. Vergonha.

Ayahuasca: Um mergulho nas águas profundas do inconsciente

Quebrando o Tabu
há 9 meses2.5k visualizações

Por André Castilho

Ayahuasca: Um mergulho nas águas profundas do inconsciente
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Só se constrói uma sociedade melhor passando pela desconstrução do próprio eu. Esta é a proposta da medicina indígena ancestral ayahuasca: oferecer um mergulho nas águas profundas do inconsciente - onde moram os sofrimentos que alimentam nossa infelicidade - para trazer à tona indivíduos mais conscientes e conectados com sua essência e com a natureza.

Também chamada de rainha, vegetal ou daime, a ayahuasca é resultado de um complexo cozimento de um cipó (jagube ou mariri) e das folhas de um arbusto (chacrona), nativos da Amazônia. Foram os seringueiros Mestre Irineu e Mestre Gabriel que, no início do século XX, trouxeram para a civilização moderna o chá que há quatro milênios vem sendo consumido pelos povos andinos e amazônicos. De lá para cá, a bebida sagrada já foi condenada por colonizadores e pela Santa Inquisição e, hoje, resiste bravamente aos nossos tabus.

É raso limitar os efeitos da ayahuasca aos sintomas físicos observados por quem está do lado de fora da experiência: alucinações, mal estar gastrointestinal, alteração das funções motoras. Por trás deste véu de pré-conceitos estão experiências sensoriais tão pessoais e com tanta margem de interpretação, que seria imprudente mencioná-las fora do contexto de um ritual. O fato é que, seja dentro de uma tribo ou de um laboratório científico, praticamente todos que têm contato com o DMT - a molécula presente na ayahuasca - experimentam as “mirações”, que fornecem uma visão bem clara daquele lado obscuro da personalidade que somos ensinados a enfiar debaixo do tapete, e que uma hora transborda em forma de distúrbios psíquicos ou físicos, drenando nosso potencial de sermos o que viemos ser.

As mirações são como um livro ilustrado da própria vida, em que se é possível percorrer por páginas abertas aleatoriamente, acessando capítulos e parágrafos que normalmente gostaríamos de pular. Através de memórias, símbolos e códigos fractais, o paciente tem a oportunidade de lidar com as questões mais profundas de seu ser. Cabe a ele escolher como quer encarar as questões que se apresentam: aceitando-as e, consequentemente, abrindo novas portas de percepção que o levarão ao perdão, à auto-aceitação, à libertação de culpas, medos e traumas; ou negando-as, o que vem a tornar a experiência quase que insuportável: é quando ocorre a temível “peia”.

A grande diferença da ayahuasca para qualquer outro tratamento terapêutico, é que ela funciona como um atalho para se chegar mais rápido ao ponto. Uma só sessão pode equivaler a anos de meditação ou de terapia. E por isso mesmo, tem se tornado cada vez mais comum terapeutas tradicionais quebrando o tabu da profissão e recomendando o uso de ayahuasca aos seus pacientes - eles próprios têm feito uso da medicina. Existem dezenas de estudos científicos que comprovam a eficácia da ayahuasca na recuperação de quadros depressivos, dependência química e distúrbios de comportamento.

Nos círculos ayahuasqueiros, também são comuns os testemunhos de curas de doenças físicas. Segundo a sabedoria indígena, quase todas as doenças são resultado de uma questão interior que foi negligenciada ao longo da vida, e que condensou-se na densidade da matéria, acarretando na doença, que nada mais é que um aprendizado. A dor é um lembrete de que há algo a ser trabalhado, que não pode mais ser ignorado. E é aí que entra a medicina da ayahuasca, levando o paciente para além dos sintomas, até a origem da doença, dando a oportunidade para que ele desfaça os nós atados. É o que algumas vertentes da ciência vêm chamando de cura quântica - e que pode ser acessada por outros canais, como meditação ou medicina oriental, por exemplo.

O “marketing” boca-a-boca de pacientes e o recente interesse da ciência pelo DMT, somados aos documentários e reportagens sobre o chá, têm acelerado a disseminação da bebida, hoje utilizada por igrejas, grupos xamânicos, clínicas de recuperação e até mesmo no sistema prisional (como o caso da ONG Acuda, em Rondônia, que recupera e ressocializa presidiários por meio de terapias com a substância). E se antes a bebida era consagrada apenas na floresta, hoje ela está também nos centros urbanos. A popularização da medicina tem seu preço: abriu margem para pseudo-gurus e charlatões, que tiram vantagem do poder do chá para manipular pessoas ou criar seitas voltadas a seu próprio benefício. Além disso, por imprudência ou despreparo, alguns líderes de centros ayahuasqueiros acabam por ignorar os cuidados exigidos pela substância, como, por exemplo, sua restrição absoluta a esquizofrênicos, por seu potencial em agravar o quadro da doença, resultando em histórias que podem ter fins trágicos. Tudo isso dá margem e fomento para os ataques dos setores conservadores da sociedade, influenciados pela parcialidade da mídia, em boa parte bancada pelas grandes farmacêuticas (o que rende uma reflexão à parte).

Existe muita literatura e documentários que elucidam melhor o tema, tanto do aspecto científico e terapêutico quanto cultural. No Brasil, ao contrário de muitos países, o uso da ayahuasca é permitido, desde que dentro de um contexto religioso. Portanto, se você tem interesse em saber mais sobre o chá e seus efeitos terapêuticos, o melhor canal é entrar em contato com grupos que fazem o uso responsável da bebida. Mas antes de consagrá- lo, faça uma profunda reflexão. Tenha consciência de que você vai ter acesso a um “eu” que talvez não corresponda à imagem que você tenha de si. A tendência do ego é espernear ao ser confrontado e desconstruído. Ao tomar o chá, você pode não ter controle sobre este processo. Além disso, durante o efeito da substância, você fica vulnerável. Certifique-se de estar em um local seguro e de confiança, com pessoas que possam auxiliá-lo em qualquer necessidade. E, o mais importante: respeite a medicina.

A ayahuasca é apenas uma das muitas ferramentas disponíveis para nos levar até a ponte que nos conecta à nossa essência. Para atravessá-la, é preciso ter a coragem de nos livrarmos dos sapatos e pisarmos descalços nas pedras e espinhos que deixamos em nosso próprio caminho. Quando cada um de nós tivermos chegado do outro lado, vamos perceber que, juntos, demos um passo à frente enquanto humanidade. 

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quebrandootabu
Por um mundo mais inteligente e menos careta.