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Conheça o jovem inglês nascido na Zâmbia que vive de reagir ao nosso futebol

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Temos tanta coisa para reclamar sobre a era das mídias sociais que acabamos por negligenciar seu poder transformador. O YouTube atual está um saco, por exemplo. Não recompensa os produtores de conteúdo que têm trabalho e gastos com o que fazem e privilegia quem publica qualquer besteira, desde que com frequência diária. Mas… Sem ele, a vida de um jovem fisioterapeuta inglês que sequer fala português acabou transformada para sempre por milhares de espectadores brasileiros.

Conheça o jovem inglês nascido na Zâmbia que vive de reagir ao nosso futebol

Aram Mulwe é um rapaz de 24 anos nascido na Zâmbia, mas inglês e morador de Londres, no Reino Unido, desde criancinha. Em um vídeo de agosto desse ano, porém, declarou-se parte brasileiro. Não há nenhum indício disso em sua árvore genealógica. Mesmo assim, via YouTube, o Brasil mudou sua vida. E conversamos a respeito deste fenômeno improvável.

Seu canal, chamado AStarForBants, foi criado há um ano sem muitas pretensões além da diversão. Apaixonado por futebol, Aram jogou uma partida contra alguns youtubers famosos de seu país, como KSI (17 milhões de inscritos), Manny (1,4 milhão) e Tobjizzle (1 milhão), viu os respectivos vídeos postados sobre o jogo e sentiu vontade de participar desse mundo. “Eles pareciam ter uma vida livre e feliz”, diz Aram. “Então conversei com eles e decidi tentar também.”

No começo, seus vídeos eram jogando FIFA no videogame, parte do que faziam seus amigos. O que mudou o estilo do canal para sempre não teve nada a ver com futebol. Fez um vídeo de reação, já uma rentável atividade entre os youtubers.

Por algum motivo ainda não totalmente esclarecido, as pessoas gostam de ver a reação de outras ao assistirem a um vídeo, escutarem uma música. No Brasil, youtubers dos mais variados estilos, como Felipe Neto, Mauro Nakada e Malena, têm nas “reações” (normalmente a vídeos musicais do momento) boa parte de seus cliques.

O vídeo escolhido por Aram foi um bem famoso há época, de uma iguana sendo perseguida por serpentes e, o melhor de tudo, escapando heroicamente com saltos e dribles, parte de um documentário da BBC. Não foi um sucesso de views estrondoso, mas o bastante para fazê-lo repetir o formato dali em diante. Seu primeiro grande hit foi com outros mestres dos dribles, o começo de sua relação de carinho com o público brasileiro. “O primeiro vídeo sobre o Brasil foi reagindo a imagens da Seleção Brasileira de 2006 e todas aquelas estrelas jogando no ritmo do samba”, afirmou Aram. “Com o interesse que recebi do público, sabia que algo especial estava acontecendo.”

Aquele time encantador de Ronaldinho, Kaká, Ronaldo e Adriano, o chamado “Quadrado Mágico” acabou sendo precocemente eliminado da Copa de 2006 pela França de Zidane, mas deixou marcas em qualquer jovem que gosta do “futebol arte”. Aram, ainda adolescente, foi um desses impactados. Não sabia que teria tanta empatia dividindo esse encantamento com os próprios brasileiros. “Até hoje as pessoas veem e comentam este vídeo o tempo inteiro!”, diz.

Logo após a exibição da reação ao encantador e ineficiente “Quadrado Mágico”, seu vídeo mais assistido até então, ele recebeu inúmeros pedidos em português para reagir às homenagens que foram feitas depois do acidente de avião que vitimou praticamente todo o time da Chapecoense, a caminho da Colômbia para disputar a final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional. Seu vídeo a respeito foi o primeiro a superar os 100 mil acessos, consolidando a improvável conexão intercontinental via YouTube.

Hoje, praticamente todo o conteúdo do canal de Aram Mulwe é dedicado a reagir a jogos de times e seleções brasileiras. Ele estima que pelo menos 75% de seus 122 mil assinantes seja de brasileiros. Toda semana, ele assiste conosco aos principais jogos do Campeonato Brasileiro, agora em reta final, além da participação de nossos times mais populares na Libertadores e na Copa Sul-Americana. Como não fala português, conta com a ajuda de um fã para traduzir e legendar todos os seus vídeos antes de serem publicados.

Aram já visitou o Brasil, mas quando ainda era um desconhecido por aqui. Veio ao Rio de Janeiro para a Copa de 2014 para ver bom futebol e acompanhou a campanha vergonhosa da seleção da Inglaterra, eliminada em último de seu grupo ainda na primeira fase. Pretende voltar quando atingir uma marca especial em seu canal, como 200 ou 300 mil inscritos, para comemorar com os fãs.

Seu time no Brasil? Ele já é escolado o suficiente para não se meter nessa furada. “Sou neutro em relação ao futebol brasileiro. O único time que torço é o Manchester United!”, diz Aram.