YOUTUBE

Estrela do YouTube filma vítima de suicídio e apaga vídeo após críticas

Author

O jovem americano Logan Paul, de 22 anos, mostrou nesta virada de ano que chegou naquele ponto perigoso da fama que te deixa completamente fora da realidade. Quando não há mais ninguém ao seu lado para dizer “isso vai dar merda...”. Isso, e uma completa falta de empatia. Porque deu merda. Mas antes vou explicar rapidamente quem é Logan Paul, e por que nem ele escapa impune depois de mostrar um cadáver em vídeo.

Estrela do YouTube filma vítima de suicídio e apaga vídeo após críticas

Logo antes da fama, Logan era um jovem e promissor atleta no equivalente ao Ensino Médio dos Estados Unidos, com destaque na luta livre e, principalmente, no futebol americano. Era tudo o que qualquer garoto de sua idade queria ser: bonito, atlético, bem humorado, sempre o centro das atenções.

Sua fama local virou nacional através do Vine, uma espécie de Twitter de vídeos, com postagens de até seis segundos. Logan tornou-se um dos perfis mais conhecidos do Vine, chegando a fazer muito dinheiro com campanhas publicitárias. Só para dar alguns exemplos de seus vídeos na plataforma, aqui está um compilado:

Muitas estrelas do Vine voltaram ao ostracismo com o anúncio do fim da plataforma, no começo de 2017. Não Logan. Ele conseguiu transferir sua fama para o YouTube, onde tem hoje 15 milhões de inscritos em seu canal de vlogs e 4,2 milhões em seu canal de curtas, séries e videoclipes.

E ele também é famoso por isso:

Estrela do YouTube filma vítima de suicídio e apaga vídeo após críticas

Logan Paul não criou o “dab”, mas foi um dos principais responsáveis por sua popularização. É uma pose de vitória, também conhecida por ser a comemoração de quem conseguia vencer o “Desafio da Garrafa”, ou “Water Bottle Flip Chalenge”, febre no mundial no Vine e no YouTube em 2016.

Até que, no último fim de semana, Logan Paul postou o que chamou de “o vlog mais real que já fiz”, intitulado, em tradução livre “Nós encontramos um corpo na Floresta dos Suicidas no Japão”. Ele e seus amigos viajaram pelo Japão e, durante a passagem pelo Monte Fuji, visitaram a floresta Aokigahara, famosa pela grande densidade de árvores, o silêncio absoluto e a triste marca de ser o segundo cenário mais escolhido no mundo por quem comete suicídio, perdendo apenas para a ponte Golden Gate, em São Francisco, nos Estados Unidos.

O plano dos jovens era passar 24 horas acampados lá dentro, e o clima era de descontração, com piadinhas imaturas sobre o medo de fantasmas e nenhum pingo de respeito pelas pessoas que morreram ali, pelos sobreviventes do suicídio e pelas vítimas de depressão, uma doença que mata cada vez mais jovens como ele e a grande maioria de seu público. Para quem conseguiu ver o vídeo - e me incluo - a primeira sensação é a de torcer para que o título fosse uma brincadeira, mesmo que de mau gosto. Não era.

Estrela do YouTube filma vítima de suicídio e apaga vídeo após críticas

Eles entram na floresta e, pouco tempo depois, avistam o que parecia um homem pendurado em uma árvore. O que qualquer pessoa com bom senso faria era parar de filmar, chamar a polícia e nunca publicar nada daquilo. Talvez se informar a respeito do tema e fazer um textão para seus fãs sobre o ocorrido. Mas, não. Ele não só publicou como se aproximou do cadáver, chegando a dar zoom em detalhes. Até tentou um discurso edificante sobre como o suicídio não deveria ser uma resposta à depressão, sobre como todo mundo tem gente que ama e se preocupa contigo… Nada que tirasse o gosto amargo de sua atitude revoltante, sua completa falta de empatia.

É daqueles momentos em que vemos algo e nos perguntamos “Será que ninguém percebeu que estavam fazendo merda?” Ninguém percebeu. “Por que a gente ainda está aqui? Que porra estamos fazendo?”, disse Logan Paul em determinado momento do vídeo, com seu gorro do Little Green Man, personagem do desenho Toy Story. Deveria ter se ouvido nesse breve instante de lucidez.

Como qualquer um pode imaginar - menos os membros de sua equipe, tudo indica -, o vídeo provocou uma enxurrada de críticas nas redes sociais. A mais didática foi a do youtuber Chris Ryan, um ativista da causa de prevenção de suicídios e apoio às vítimas de depressão. Em tradução livre: “Caro Logan Paul. Você não tenta conscientizar sobre suicídio e prevenção ao suicídio filmando um homem que se enforcou. Você não fica próximo de uma vítima de suicídio e faz piadas. Você não mostra um corpo para milhões de crianças. Isso é horrível.”

Para quem entende inglês, o melhor vídeo sobre o assunto até o momento da publicação deste post é o do também youtuber Boogie2988, ele próprio uma vítima da depressão. No Brasil, uma das críticas mais contundentes foi do youtuber Luba, que volta e meia menciona a causa da prevenção do suicídio em seus vídeos.

Depois de um dia no ar e quase 6 milhões de acessos, Logan Paul deletou o vídeo. Por muito menos, o YouTube já deletou canais inteiros, mas parece não querer se envolver na treta de um dos mais queridinhos nomes da plataforma (espero atualizar este parágrafo em breve, mas… nada ainda).

Depois de retirar o vídeo do ar, Logan Paul fez um dos mais arrogantes pedidos de desculpa que eu já li na vida, algo que só poderia se esperar - sei lá… - de uma criança mimada. Nunca de um homem com influência sobre milhões de jovens. Mais uma vez, em tradução livre (a imagem do tweet original está a seguir):

“Esta é uma primeira vez para mim. Eu nunca enfrentei críticas como essas antes, porque nunca cometi um erro como esse antes. Estou cercado de pessoas boas e acredito que tomo boas decisões, mas eu sou um ser humano, eu posso errar. Eu não fiz isso pelas visualizações. Eu consigo visualizações. Fiz isso porque pensei que poderia causar uma onda positiva na internet, não provocar uma tempestade de negatividade. (...) Eu faço essa m**** todos os dias. Tenho feito um programa de TV de 15 minutos TODOS OS DIAS pelos últimos 460 dias. Dá para entender que é fácil se deixar levar pelo momento sem entender completamente as ramificações daquilo. Sou constantemente lembrado do tamanho do alcance que eu tenho, e que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades… Pela primeira vez na minha vida digo com pesar que lidei incorretamente com esse poder. Não vai acontecer de novo.”

É importante aproveitar a oportunidade para falar do consagrado trabalho de prevenção ao suicídio que faz o Centro de Valorização da Vida, fundado em São Paulo em 1962 e presente, hoje, em 18 estados mais o Distrito Federal. Quem está passando por um momento difícil na vida e precisa de apoio emocional pode ligar para os telefones 141 ou 188 (o número varia de acordo com a região) ou, pelo site www.cvv.org.br, procurar ajuda via chat, Skype ou e-mail. “Mesmo que você não tenha certeza de que precisa de nossa ajuda, não tenha receios em entrar em contato com a gente."