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Monark, o antigo rei dos games no YouTube, planeja reencontro com os fãs

Rafael P. P.
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Rafael P. P.

Fazia cinco anos desde a última vez que eu tinha entrevistado Bruno Aiub. Em 2012, logo após a ascensão de Felipe Neto e antes do fenômeno Porta dos Fundos, Bruno era “o cara” do YouTube. Quer dizer… Não o Bruno, moleque de São Paulo que evitava a faculdade para jogar Ragnarök no computador. O nome gritado pelos fãs nos encontros de youtubers era Monark, como a bicicleta, seu apelido que virou nome artístico.

Monark, o antigo rei dos games no YouTube, planeja reencontro com os fãs

Monark no quarto onde gravou seus primeiros vídeos (Reprodução do YouTube)

“Ponte, ponte! Ponte, ponte! Ponte, ponte! Assim é bem melhor!”, cantavam com ele as milhares de crianças que se acotovelavam para vê-lo em encontros como a Brasil Game Show. A música tinha sido despretensiosamente improvisada durante uma viagem que fez para Los Angeles com Leon Martins, do canal Coisa de Nerd, em junho daquele ano. Em dias, virou o hino nonsense do canal.

Quando conversei com Bruno em 2012, para uma reportagem sobre games em uma revista semanal, ele mantinha com o amigo Eduardo Faria, o Venom Extreme, que ainda morava em Portugal, uma saudável disputa sobre quem era o maior gamer do YouTube brasileiro. Na ocasião, tinha acabado de alcançar 15 milhões de visualizações em apenas um mês. Em pouco tempo, o canal de Monark, RandonsPlays, se tornaria o 8º do Brasil a ultrapassar a marca de 1 milhão de inscritos, depois de Porta dos Fundos e PC Siqueira (Mas Poxa Vida), antes de Kéfera Buchmann (5inco Minutos) e Cauê Moura (Desce a Letra).

Todos os nomes citados continuam seguindo, ainda hoje, a trilha de sucesso iniciada nos primórdios do YouTube. Fizeram filmes, livros, programas de TV e são conhecidos até por quem sequer tem o costume de ver vídeos na internet. Todos, menos Monark. “Pra ser bem sincero, eu não aguentei a pressão de ser youtuber”, me disse Bruno Aiub, hoje com 27 anos, em uma conversa por Skype na semana passada.

Bruno continua morando em Curitiba, no Paraná, para onde foi no auge do sucesso em 2013 com a intenção de fundar uma empresa de produção de conteúdo para o YouTube com Leon, do Coisa de Nerd, e Eduardo Faria, o Venom Extreme. Até chegou a trabalhar nisso com Leon, que também saiu de Goiânia-GO com a mulher, Nilce Moretto, para a capital paranaense. Venom desistiu da ideia pouco tempo depois de voltar de Portugal, preferindo ficar perto da família em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, Leon e Nilce se mudaram para o Canadá e Monark ficou sozinho em Curitiba.

Monark, o antigo rei dos games no YouTube, planeja reencontro com os fãs

Venom, Monark e Leon (Reprodução da internet)

Seu canal RandonsPlays continua com quase 3,3 milhões de inscritos - tem ainda o MonarkPlays, com 525 mil, e o MonarkMine, de Minecraft, com 533 mil -, números que, ainda hoje, são um sonho distante para a maioria dos produtores de conteúdo da plataforma. Mas… E os vídeos? Cadê? Já estavam escassos, espaçados. Desde o dia 10 de junho de 2017, porém, pararam completamente.

Desde que foi para Curitiba, Monark passou a explicitar em vídeo as questões que tinha sobre o conteúdo que levava ao público. Entre o fim de 2013 e o começo de 2014, já falava abertamente sobre o processo de depressão que estava sofrendo. “Eu sou um ser humano meio quebrado no sentido psicológico”, afirmou em um vídeo de maio de 2014, como justificativa para não alimentar mais o canal que havia criado apenas para gameplays de Minecraft. “Eu vou pedir a paciência de vocês no futuro. Daqui a um ano, dois, eu sei que vou me deprimir de novo. É o jeito que eu sou”, disse há época. Aconteceu mesmo.

No YouTube, se você não alimenta seu canal com vídeos diários ou com uma frequência perfeita, o algoritmo acaba esquecendo de você. É cruel com os produtores de conteúdo, principalmente os que entram nessa vida bem jovens, caso da grande maioria.

Bruno Aiub começou a fazer vídeos com 19 anos de idade no quarto em que morava na casa da mãe. “Minha vida era jogar Ragnarök e ficar xingando as pessoas no microfone, no chat”, diz. “Aí, do nada, começo a fazer vídeo no YouTube, ganho dinheiro, posso fazer outras coisas, arrumar uma namorada bonita… Aí, cara, a única coisa que eu queria fazer era viver a vida, e não continuar me f****** no YouTube.”

Os anos de 2014 e 2015 em seu canal deixaram clara a confusão de prioridades que acontecia em sua cabeça. Passou a se interessar por política e colocou conteúdo relacionado ao assunto em seus vídeos, algo que pareceu completamente descolado dos interesses de seu público e que, hoje, olhando para trás, ele considera “um dos grandes erros” que cometeu. “Eu nem estava preparado para fazer essa mudança tão drástica. Eu não tinha cabeça para isso. É difícil… Jovem, sozinho, mudei de cidade…”, diz, relembrando dos passos de sua vida atrás das câmeras. “Eu sou uma pessoa normal, não sou um super-herói. E eu era bem sozinho. Eu sempre fui bem sozinho, nunca tive uma base enorme, nem familiar.”

Ciente do que ordenava o algoritmo que regia a sua vida - e a de todos os youtubers -, Bruno passou a forçar a barra e fazer vídeos a qualquer custo. Veio a depressão, mas também alguns vídeos ruins, feitos puramente por obrigação. “Não queria que a galera achasse que eu ia parar. Forcei a fazer conteúdo todo dia, ou bastante conteúdo. Fiquei nessa por uns dois anos”, diz. “Percebi que não adianta você fazer por fazer. Tem que fazer porque tem um propósito.”

O último fato novo para o grande público envolvendo Monark foi sua participação na Horn Produções, do amigo Gustavo Horn. No vídeo bem-humorado de apresentação do projeto, Monark é descrito como o cara “que cuida da papelada e contato com o cliente”. Um mês depois, no último dia 10 de junho, abandonou seu canal.

A lógica indicaria um envolvimento com o YouTube atrás das câmeras, em parceria com Horn. Na prática, não é bem assim. “Meu objetivo [com a produtora] não é ganhar dinheiro, é que ele consiga realizar seu sonho”, afirma. Mas está vivendo de quê? “Minha vida financeira é o passado. Eu juntei uma grana grande aí e estou vivendo dela”, diz Bruno. “O que eu fiz foi ajudar um amigo.”

Para seu público dos tempos de séries de Minecraft - a maior parte deve estar na faculdade hoje em dia -, é impossível dissociar os vídeos de Monark da colaboração que fazia com outros youtubers gamers. Que fim levaram essas amizades? “Ainda sou amigo do Leon, do Venom, do Edu [BRKsEDU, Eduardo Benvenuti]... O contato não é tão frequente, mas ainda me considero amigo deles”, afirma. E Bruno assume a culpa por qualquer hiato na comunicação. “Não tenho o costume de mandar uma mensagem de WhatsApp só com ‘E aí, tudo bom?’, mas eu acho que deveria desenvolver isso”, afirma. “Eu me considero uma pessoa meio antissocial. Sou meio desligado. Mas só tenho sentimentos positivos por essa galera.”

Lembra especificamente do esforço de Leon Martins, seu parceiro no sonho da empresa em Curitiba, seu companheiro de viagens na concepção acidental do sucesso “Ponte, ponte!”. “Em 2014, 2015, o Leon falava pra mim ‘Vai lá, cara, foca no canal…’. Ele percebia que eu estava meio desgastado. E tinha razão”, diz Bruno.

Monark, o antigo rei dos games no YouTube, planeja reencontro com os fãs

Leon e Monark gravando juntos (Reprodução do YouTube)

A boa notícia é que o desgaste que provocou a pausa com os vídeos não será para sempre. Bruno Aiub não quer prometer nada para não ter que lidar com a frustração do público, mas está planejando um retorno à internet. Nos planos atuais, o retorno envolverá lives na Twitch.tv de games como Dota 2 - sua paixão - e PlayerUnknown’s Battlegrounds - o jogo da moda - com edições dos melhores momentos publicadas no canal do YouTube.

Além disso, planeja criar um canal específico para falar sobre seus interesses atuais na vida - “os avanços da inteligência artificial, as empresas do Elon Musk, o que está acontecendo no Oriente Médio, a revolução econômica da China para o desenvolvimento sustentável…” - e inaugurar um podcast em vídeo, um bate-papo informal com convidados sobre assuntos variados. A inspiração é Joe Rogan, ator e comediante, mais conhecido pelos comentários que faz durante as lutas do UFC. Ele tem um podcast sem tema fixo que é visto e ouvido por milhares de pessoas semanalmente. 

Mas… calma. Tudo isso são planos para o ano que vem. No momento, continua sua jornada de autoconhecimento, focado em garantir que voltará de forma saudável para si e para seu público. “Precisei me isolar um pouquinho para viver uma vida sem toda aquela correria”, diz. “Por mais que eu não volte a fazer aquele sucesso enorme, de ser o maior canal de games do Brasil, eu sei que existe um espaço para mim que é o suficiente. Até para ter uma vida legal, fazendo um conteúdo de que me orgulhe.”

“Vamos ver, né?”, diz Bruno, depois de alguns segundos pensando. “Pode ser que daqui a 5 anos a gente faça uma entrevista debaixo da ponte”, afirma, antes de sua gargalhada característica. “Debaixo da ‘Ponte, ponte’!”