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Phoenix: As lições de vida de um jovem gamer um ano após seu renascimento

Rafael de Pino
Autor
Rafael de Pino

Há exatamente um ano, Guilherme Nogueira estava jogando uma partida muito disputada do jogo Overwatch. Era um sábado ensolarado em São Paulo, dia 19 de novembro de 2016. O rapazinho ruivo de 19 anos era um dos rostos mais conhecidos entre os youtubers de games, sob a alcunha de PhoenixBR. Entre seus pares, esteve sempre entre os mais queridos. Durante a partida de Overwatch, porém, em um time de desconhecidos, contra desconhecidos, ele não estava nada feliz.

Phoenix: As lições de vida de um jovem gamer um ano após seu renascimento

Phoenix ainda no hospital e, depois, em uma viagem de trabalho em São Francisco

Enquanto jogava, sua mãe disse que ia ao cinema e deixou-o sozinho em casa. Mais uma vez… Rotina. Sua preocupação maior era com um cara que havia caído em seu time três vezes sem levar a sério o que estava fazendo. Queria apenas bagunçar o game. Foram três derrotas seguidas, inevitáveis e enervantes. Tentou esquecer e começou outro jogo, dessa vez sem seu mais recente nêmesis do Overwatch. Tudo ia bem até que Guilherme teve uma dor de cabeça muito, muito forte. Aos poucos, começou a perceber que não conseguia mais teclar direito no mouse e no teclado.

A partida era competitiva, ele não poderia apenas deixar o jogo pra lá. Seus companheiros de time dependiam dele para subir ou não de ranking. Não poderia fazer como o cara que havia feito ele perder a cabeça momentos antes. Não podia, nunca. Mas tudo tem um limite. Sempre, sempre há coisas mais importantes na vida do que um jogo.

Phoenix: As lições de vida de um jovem gamer um ano após seu renascimento

Imagem de um vídeo de Phoenix no YouTube sobre o jogo Overwatch

Para ele, o limite foram pontadas fortes na cabeça, diferentes de qualquer outra enxaqueca que havia enfrentado. Aos poucos, sua visão parecia ter ficado mais lenta. Até que a mão direita, a do mouse, parou de fazer parte de seu corpo. Ele clicava no mouse, nada acontecia. Tirou a mão do mouse e colocou de novo. Clicou, e… nada. Olhou para a mão e ela não estava mais no mouse. Não tinha voltado. Alguma coisa muito séria estava acontecendo.

Guilherme Nogueira, 19 anos, não fazia a menor ideia, mas estava sofrendo um acidente vascular cerebral, conhecido popularmente como AVC. Seu irmão chegou em casa a tempo de socorrê-lo. Ele não conseguia sequer andar. Apesar de tudo, esteve consciente o tempo inteiro. O jovem só foi saber que tinha sofrido um AVC quando tudo já estava resolvido, horas depois, em um hospital. Foram tantos procedimentos que não havia muito tempo para explicar. E ele não conseguia perguntar.

Que fique claro que o game não pode ser apontado como gatilho e muito menos como causa de um problema desses. Não há explicações exatas sobre o que provocou o AVC de Guilherme. O primeiro vídeo em seu canal foi postado alguns dias depois, feito por alguns dos maiores youtubers gamers do Brasil. Nele, a mensagem era de que estava tudo bem, mas ainda demoraria para que novas atualizações fossem feitas.

Seu público no YouTube, quase 700 mil inscritos, demoraram bem mais que os amigos - muitos foram visitá-lo no hospital - para saber o que havia acontecido em detalhes. Sua rotina de vídeos diários havia sido interrompida de uma hora para a outra. O primeiro alento do próprio para os fãs foi no finalzinho de dezembro de 2016, um vídeo de Natal gravado com bastante edição para ficar inteligível. “Aproveite esta época com suas pessoas queridas porque, se tem uma coisa que eu aprendi com isso tudo, foi que essas pessoas são muito importantes para nossa vida. Eu não sei o que faria nesse momento sem elas. Estou feliz de poder passar essa época com eles depois disso tudo”, disse, com claro cansaço e dificuldade de fala.

Mais detalhes, apenas em outra data especial. Bem especial. Dia 5 de março de 2017, seu aniversário de 20 anos. No vídeo, ele explica em detalhes o que aconteceu. É possível ver sua dificuldade em falar e em mover a mão direita, mas o avanço do tratamento é claro. Tudo depois de um longo período de reabilitação com fisioterapia e fonoaudiologia. Do alto de seus 20 aninhos, ensinava. E também demonstrava uma de suas primeiras conquistas.

Logo depois desse especial de aniversário, PhoenixBR respondeu às inúmeras perguntas do público em outra gravação bem esclarecedora sobre a doença que não dá muitos avisos de que está contigo, de que vai mudar sua vida para sempre.

Hoje, dia 19 de novembro de 2017, faz um ano que Guilherme teve a sua vida completamente mudada por um AVC. PhoenixBR renasceu, como prediz seu nome artístico, mas ainda está longe de alimentar com frequência seu canal do YouTube. Como qualquer experiência traumática, esta deve ter mudado para sempre suas prioridades, muito mais do que mudou seu corpo. Um tweet, curto e revelador, foi o bastante para comemorar suas conquistas desde o renascimento.

O youtuber PhoenixBR, com 750 mil inscritos, está há 3 meses sem publicar. Mas não desapareceu. Continua jogando ao vivo em seu canal na Twitch.tv, coisa bem mais prática do que gravar e editar vídeos para o YouTube. E seu game mais jogado ainda é Overwatch, o mesmo que o irritou naquela manhã de sábado, há um ano. No mais, sua vida praticamente voltou ao normal, com viagens sobre jogos e encontros com os fãs.

Seu tweet é um alento para os seguidores e seus vídeos no YouTube são um alerta importante sobre a brevidade da vida. Um garoto de 20 anos teve que aprender precocemente, e da pior forma, que tudo pode desmoronar de uma hora para outra. E agora pode ensinar que devemos viver cada momento como se fosse o último, essa lição clichê que a gente só parece absorver quando o trauma é conosco. Valeria a pena brigar com alguém durante um jogo se aquele fosse o último momento? Valeria ter perdido qualquer momento precioso desses nos últimos dias, nos últimos meses, nos últimos anos?