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YouTube é lugar de criança? Bem… Tarde demais

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Má notícia: O YouTube não tem as qualidades necessárias para cuidar de crianças. Esse é um serviço exclusivo dos pais. Eu sei… Você coloca a criança na frente da tela e é praticamente o paraíso de calma e tranquilidade, não é mesmo? A Peppa Pig tem o efeito de um rivotril fitoterápico, é mágico. Mas cada vídeo da Peppa Pig tem, ao lado, outras janelinhas de conteúdo relacionado a um clique de distância. E os personagens que o seu filho ama estão, infelizmente, fazendo coisas terríveis em outros canais. E o YouTube? Está cuidando disso com a agilidade de uma repartição pública e a preocupação de um tio distante e solteirão.

YouTube é lugar de criança? Bem… Tarde demais

O YouTube deflagrou na semana passa uma grande operação para identificar e apagar conteúdo inapropriado destinado a crianças, um problema reportado desde o ano passado e que ganhou a própria hashtag, #ElsaGate, no começo de 2017. Refere-se à personagem Elsa, da animação Frozen, e aos vídeos perturbadores de interação nada apropriada entre uma mulher vestida de Elsa e um homem vestido de Homem-Aranha. A interação entre esses personagens específicos - não à toa o mais popular entre os meninos e a mais popular entre as meninas nos últimos anos - inspirou um subgênero de vídeos bizarros no YouTube. Em um deles, um boneco de massinha do Homem-Aranha urina na banheira em que está um boneco de massinha de Elsa. Só para dar um exemplo bem leve. Se você não viu, pode imaginar.

A Peppa Pig, supracitada, foi outra das vítimas de canais maliciosos. A porquinha fofa é emulada em vídeos animados portando facas e ameaçando os outros, bebendo água sanitária e virando zumbi para comer cérebros por aí. O YouTube demorou, demorou e demorou, mas finalmente anunciou que vai cancelar a monetização de 3.5 milhões de vídeos com conteúdo semelhante a esses. E só vai liberar acesso a sátiras para quem estiver logado como alguém com 18 anos ou mais. Justamente o caso de absolutamente todos os pais e mães que dão o próprio celular ou tablet para o filho se divertir. Ou seja… Obrigado por nada.

YouTube é lugar de criança? Bem… Tarde demais

O problema, que já era enorme, ficou ainda maior com novas formas de abuso infantil relacionado à plataforma de vídeos do Google. Uma série de publicações desde o começo de novembro, como o texto do blogueiro James Bridle no Medium, um post do site The Verge e, principalmente, uma reportagem do BuzzFeed, trouxe à tona todo um mercado de canais que são literalmente baseados em exploração de menores. São canais normalmente originários de países do Leste europeu em que adultos colocam crianças (quase sempre os próprios filhos) em situações humilhantes, como presos com cordas e fitas isolantes e sofrendo sequestros encenados protagonizados por palhaços macabros. Não é raro mostrarem crianças chorando pelas cenas ou simplesmente porque os adultos estão assustando-as com aranhas, sapos e outros bichos repulsivos.

Todos os vídeos e canais citados nos textos foram removidos pelo YouTube depois das denúncias, mas outros semelhantes estão a poucos cliques de distância. O público desses canais é feito basicamente de crianças curiosas, como qualquer criança saudável é. Isso, e também adultos com intenções abomináveis. Boa parte dos problemas está nos comentários obscenos desses vídeos, um tema que o YouTube ainda não se dispôs a resolver.

YouTube é lugar de criança? Bem… Tarde demais

Por que essa aparente cumplicidade? Porque o algoritmo do YouTube é feito para você não sair da frente da tela, sempre mostrando conteúdo relacionado. Eternamente, se for preciso. E é uma estratégia normal. O problema é que uma criança não sabe distinguir quando fez uma curva que a levou longe demais. Se já tem idade suficiente para isso, fica intrigada, curiosa para ver por que o Homem-Aranha está fazendo xixi na Elsa do Frozen. Mesmo o YouTube Kids, plataforma feita especificamente para crianças, têm alguns pontos cegos que possibilitam esses desvios na navegação.

Isso tudo significa que temos que pegar em tochas e marchar até o Google para queimar o escritório do YouTube? Claro que não. O YouTube precisa, sim, ser fiscalizado e punido por exibir conteúdo inadequado. Só tirou vídeos e canais do ar porque a imprensa continuou pressionando e denunciando. E só vai agilizar as providências necessárias quando os anunciantes perceberem que estão compactuando com isso sem saber.

YouTube é lugar de criança? Bem… Tarde demais

Tudo colocado nas devidas proporções, o mundo sempre foi cheio de conteúdo inapropriado para crianças. E bloquear os aparelhos eletrônicos de forma eficaz é quase uma quimera. Hoje em dia, é capaz de crianças devolverem o aparelho desbloqueado e ainda com seu iFood e seu WhatsApp atualizados - sabe aquela atualização que estava emperrada simplesmente porque não havia internet quando você nasceu? Além disso, podem ver YouTube no celular dos amiguinhos do colégio, por exemplo. YouTube e outras ferramentas de vídeo ainda menos recomendadas para crianças.

Quem é pai já está cansado de saber, mas os ídolos das novas gerações estão no YouTube. Vocês sabem que tipo de entretenimento eles estão entregando? Assistem juntos? Conversam sobre o que é dito? A única maneira de realmente evitar problemas é a maneira antiga: ficar de olho no que o seu filho está vendo e, no caso dos um pouco mais velhos, manter aberto o canal de comunicação para tratar de qualquer assunto que venha à tona. Nem é preciso um especialista para descobrir isso. Educar os filhos dá um trabalhão mesmo.