CURIOSIDADES

Coreia do Norte

Ricardo Rangel
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Ricardo Rangel

Em “O Grande Gatsby”, Scott Fitzgerald observa que um desastre de automóvel “exige dois motoristas descuidados”. Pela primeira vez, desde que a Coreia do Norte foi criada, em 1948, temos dois motoristas descuidados, Trump e Kim, ao volante. Isso não significa que estejamos na iminência de uma guerra, mas nunca estivemos tão próximos. Até porque, com ou sem cuidado, a Coreia do Norte é uma bomba-relógio.

Trata-se de um país insustentável: a economia não funciona, a pressão ocidental é forte, é impossível impedir o fluxo de informações, o apoio da China é tênue. É certo que o regime dos Kim cairá: o que não se sabe é quando ou como será a transição.

A atitude dos Kim em relação às grandes potências é sempre a mesma: chantagem atômica em troca de ajuda humanitária. Todo ano acontece — e as potências sempre cedem. E qual seria a alternativa? Pagar para ver e, quem sabe, levar Kim a varrer Seul, Tóquio e outras cidades do mapa? É uma má aposta. O problema é que, a cada ano, a Coreia do Norte fica mais poderosa, mais perto de alcançar os EUA com mísseis nucleares. Mais cedo ou mais tarde, os EUA terão que tomar uma providência.

Até agora, a atitude dos EUA vem oscilando entre dois polos. Presidentes falcões, como Bush ou Trump, endurecem e fazem ameaças, achando que Kim vai recuar. Mas nunca dá certo, porque Kim não pode abrir mão do único trunfo que tem: a percepção por parte das potências de que ele estaria, mesmo, disposto a jogar uma bomba atômica em Seul.

Presidentes pombas, como Clinton ou Obama, oferecem estímulos para que os Kim façam uma abertura e deixe o poder suavemente. Mas nunca dá certo, porque a hipótese de abrir o país gradualmente, como fizeram outros países socialistas é extremamente perigosa, senão inviável: os Kim viram o que aconteceu com Ceaucescu e Kaddhafi — e a Romênia e a Líbia não tinham o fator Coreia do Sul. Os norte-coreanos passaram suas vidas ouvindo que a Coreia do Sul é um país miserável e fantoche dos EUA: quando descobrirem que seus irmãos são livres e 30 vezes mais ricos do que eles, pode-se imaginar que sua reação não será dócil e pacífica.

Kim Jong-un e seus acólitos enfrentam um dilema: ou começam a abrir agora, torcendo para não haver um banho de sangue e não serem chacinados no processo, ou postergam ao máximo qualquer abertura, na esperança vaga de que algum milagre aconteça. A crescente tolerância com a iniciativa privada sugere que a Coreia do Norte estaria buscando o primeiro caminho; a escalada na política de desafio e confronto com os EUA sugere a busca do segundo.

O fato é que ninguém consegue entender o que pretende Kim Jong-un, e é isso mesmo que faz o jogo tão perigoso. Só que agora ninguém tampouco entende o que pretende o presidente americano, de modo que o jogo ficou ainda mais perigoso.

A Coreia do Norte é o país mais fechado do mundo, e não há ninguém no Ocidente que possa dizer que o compreende. De toda forma, segue, em capítulos, minha modesta contribuição: o relato da viagem que fiz com Cora Rónai ao país em fins de 2015. 

Uma semana na Coreia do Norte (1 de 6)

“Você não quer ir para a Coreia do Norte?”

A pergunta de minha amiga me pegou completamente de surpresa. A Coreia do Norte é a última ditadura stalinista do mundo, o país mais isolado e desconhecido do planeta: eu já estivera em quase 40 países, mas nunca me passara pela cabeça visitá-la.

“Eu?! Eu, não. De onde veio essa agora?”

“Estou tentando conseguir o visto há quatro anos, e nunca consigo, porque eles não aceitam visitas de jornalistas. Mas agora achei uma agência especializada que diz que consegue.”

Pensei um pouco. “Será?!”

Meses depois, lá estávamos nós metidos num auditório improvisado numa pequena agência de viagens em Beijing, um lugar esquisitíssimo, dentro de uma vila, ao lado uma locadora de DVD. Algumas dezenas de turistas de todas as nacionalidades, os mais pitorescos já reunidos, sendo brifados sobre o que fazer, e, especialmente, o que não fazer na Coreia do Norte. De andar na rua a dobrar jornais, tudo parecia proibido.

No dia seguinte, numa bela manhã de outubro, embarcamos num Tupolev 204, avião russo novo e em bom estado que nos levou sem sobressaltos até Pyongyang, capital da República Popular Democrática da Coreia, ou DPRK, em duas horas. A Air Koryo é famosa por ser a pior companhia aérea do mundo, mas em nossa experiência, ganha com folga da Cubana de Aviación ou das Aerolineas Argentinas. O aeroporto, surpreendente para um país pobre e que proíbe seus habitantes de viajar, acabava de ser inaugurado e contava com instalações modernas e confortáveis.

A boa impressão causada pelo aeroporto, entretanto, não durou muito. De dentro de seu caixote de vidro, o oficial da imigração (e do exército) me olhou fixamente, de maneira ameaçadora, por um bom tempo, examinou meus documentos, me olhou novamente, repetiu a rotina duas vezes. Finalmente, brandiu o visto, apontando para a fotografia, e em seguida apontou para mim, sugerindo que a foto no visto fosse de outra pessoa. Seria possível que ele acreditasse que eu fosse um espião? Ou apenas desempenhava o papel que sabia ser o que esperavam dele? Foram minutos excruciantes até me liberar.

A alfândega norte-coreana é famosa por revirar as malas em busca de bíblias, filmes sul-coreanos e pornografia, três dos métodos mais rápidos e seguros para se conhecer o interior de um campo de concentração. Para minha surpresa, o oficial (do exército) apenas me perguntou se eu tinha filmes sul-coreanos (não tinha) e me mandou seguir — o primeiro de inúmeros exemplos de inconsistência e comportamento incompreensível das autoridades.

Em seguida conhecemos nossos guias: todo grupo de visitantes, por menor que seja, é necessariamente acompanhado por dois guias locais, um de cada sexo. Turistas são tratados como crianças: a guia vai na frente, mostrando o caminho e o guia vai atrás, garantindo que ninguém se desgarre. Até ao banheiro o turista vai acompanhado. E, naturalmente, os guias vigiam um ao outro.

Uma semana na Coreia do Norte (2 de 6)

Quase todos os estrangeiros ficam hospedados no Yanggakdo International, um hotel enorme, de 47 andares, e decadente que lembra os antigos hotéis de Brasília. A preferência pelo Yanggakdo se explica por ficar ele em uma ilha (no rio Taedong, que atravessa a cidade), o que facilita o trabalho da segurança. No topo do hotel há um restaurante giratório que de fato funciona, o que parece uma afronta em um país com grave escassez de energia.

O elevador do Yanggakdo não marca o quinto andar, mas ele existe. Segundo rumores na Internet, nesse andar estariam os equipamentos para grampear quartos e telefones. Alguns de nós desceram pelas escadas e encontraram não um, mais dois (ou um e meio) andares, com as portas devidamente trancadas. Esses turistas foram vistos pela segurança no circuito de TV, assediados, interrogados e ameaçados de ser impedidos de deixar o país se não pagassem cem dólares (inesperado, dado que corrupção é crime passível de pena de morte).

Pyongyang é uma cidade grande e ampla, com mais de três milhões de habitantes e mais automóveis do que esperávamos. Os prédios de apartamentos são muito altos (até os anos 1970, a Coreia do Norte era consideravelmente mais rica do que sua irmã do sul), na feia arquitetura stalinista que se encontra em Moscou e na Europa Oriental, mas são coloridos, em tons pastel de azul, verde e rosa, o que lhes confere uma certa leveza. Como chegamos no feriado mais importante da década, todos (!) os prédios do país haviam recebido uma mão de tinta, mas logo perceberíamos que, por baixo da tinta, estavam caindo aos pedaços.

Em razão do feriado, o centrinho da capital estava todo iluminado, mas, em volta, a cidade permanecia às escuras. Como falta eletricidade praticamente o tempo todo, o governo entrega os andares mais baixos aos idosos e deixa os andares mais altos para os mais jovens. Falta de energia implica falta d’água, o que significa que, por toda parte, há cisternas improvisadas dentro dos banheiros, e a água é usada por meio de baldes e cuias.

Não sabíamos bem o que esperar, mas com certeza esperávamos algo extraordinário, de modo que as primeiras cenas que vimos ao descer do ônibus chegaram a nos chocar de tão prosaicas: pessoas conversando, bicicletas passando para cá e para lá, homens pintando canteiros. O suprassumo do realismo socialista. Como no jogo dos sete erros, entretanto, a sensação de estranhamento era palpável, apesar de ser difícil dizer exatamente o quê estava errado. Parecia que faltava às pessoas algum propósito, como se seus corpos estivessem ali, mas suas mentes estivessem em outro lugar. Não havia dúvida para nós de que aquelas pessoas haviam sido plantadas ali, que, como afirmam tantos livros, faziam parte de uma encenação para passar aos turistas uma falsa impressão de normalidade, quando a Coreia do Norte é tudo menos um país normal. O resultado obtido é o oposto, uma impressão de falsidade, que nos perseguiu por toda parte e sempre que víamos uma cena um pouco menos óbvia, perguntávamo-nos se ela seria de verdade ou não.

O Parque Aquático, supercolorido, cheio de piscinas, chafarizes e escorregadores, com um incrível volume de água e uma temperatura de sauna, como fazendo pouco da escassez de energia e de água, parecia meio vazio no momento em que chegamos, mas em minutos ficou cheio de banhistas; as outras áreas do clube, as lanchonetes, a sala de jogos e as quadras de tênis, no entanto, permaneceram desertas.

O supermercado também parecia artificial, não sabemos por quê, mas é diferente daqueles encontrados em qualquer país onde já estivemos. A maioria dos produtos tem o prazo de validade vencido: há empresas que compram em outros países produtos vencidos no atacado e os revendem para a Coreia do Norte com grandes descontos. Naturalmente, o parque e o supermercado são para a elite, não para o povo, que obtém mantimentos nos centros de distribuição do governo e se diverte jogando Janggi (o xadrez coreano) e outros jogos.

Uma semana na Coreia do Norte (3 de 6)

Os norte-coreanos, especialmente crianças e adolescentes, sorriem para os visitantes, que são, para eles, uma curiosidade: até recentemente os únicos estrangeiros no país eram funcionários de embaixadas, mas não sorriem muito entre si, e os adultos parecem tristes, ou talvez resignados. Mesmo nas danças em massa, em que centenas de pessoas dançam em praça pública, e das quais nos foi permitido participar, os norte-coreanos nos fazem bem-vindos, mas ninguém sorri. Em uma das raríssimas vezes em que nos foi permitido andar na rua em meio aos norte-coreanos, entretanto, alguns de nós participaram de um tiro ao alvo com os locais, que se divertiram bastante conosco.

As mulheres costumam ser belas, sempre bem vestidas, muitas trajam o joseonot, o vestido típico, e levam os cabelos limpos e impecáveis, o que surpreende, dada a escassez de água — não por acaso, cabelos compridos são sinônimo de status. Os homens não são bem-apessoados, mas têm uma elegância sóbria em suas calças e jaquetas verdes escuras.

Além de magros, são todos muito baixos: não espanta, dado que a subnutrição é endêmica há décadas (como só se pode ir aonde o governo permite, não sabemos se ainda há fome e miséria como houve anos atrás). A agricultura segue o modelo soviético, de fazendas estatais, que nunca funcionou bem em parte alguma, com a agravante da pouca mecanização: não vimos praticamente nenhum trator. Toda a semeadura, o transplante do arroz e a colheita são feitas manualmente, e a produtividade é tão baixa que todos os habitantes do país (com exceção da altíssima nomenklatura) participam da colheita — e, ainda assim, o país depende de ajuda humanitária estrangeira para se alimentar.

A creche rural que visitamos era um modelo de perfeição socialista: crianças bonitas, bem alimentadas e sorridentes, que tiram os visitantes para dançar ao som de um acordeão tocado por uma simpática monitora. Lindo, comovente e obviamente falso. Mas acreditamos quando a guia informou que os pais agricultores moram longe e só ficam com os filhos por um dia a cada dez.

Os norte-coreanos comem pouco e mal, mas a comida servida aos turistas (em restaurantes onde não há clientes locais) é farta e variada — mas nem por isso saborosa. Oscila entre condimentada e extremamente condimentada e é sempre fria: em um país com pouca energia, aquecer alimentos é proibido, e houve um tempo em que dava cadeia. Apesar disso, os seis holandeses de nosso grupo adoraram tudo, e quem provou a sopa de carne de cachorro elogiou. Curiosamente, não há frutas. A cerveja é excelente, mas o soju, destilado similar ao baijiu chinês não desperta interesse; as bebidas alcoólicas importadas são muito caras, mesmo para turistas, com exceção do Cognac, a bebida preferida dos poderosos, que custa o mesmo preço do Ocidente — bebidas importadas, naturalmente, só são acessíveis à nomenklatura e aos turistas.

A relação do país com os turistas é contraditória. De um lado, o país precisa de nós, não apenas de nosso dinheiro, mas para angariar simpatias que possam levar a uma redução das sanções internacionais que visam a combater sua política nuclear — o aeroporto estalando de novo é um esforço nesse sentido: a Coreia do Norte espera receber dois milhões de turistas em 2020. Por outro lado, somos uma excelente fonte de informações para o povo norte-coreano, e o governo teme, com razão, que essas informações fomentem a rebeldia que acabará por derrubá-lo. O resultado é que os guias nos tratam bem, mas as autoridades nos olham com profunda suspeição.

Uma semana na Coreia do Norte (4 de 6)

Pyongyang é repleta de monumentos, sempre no estilo kimilsunista: colossal, suntuoso e kitsch. Um dos mais grandiosos é o do monte Mansu, em homenagem a Kim Il-sung e Kim Jong-il. Kim Il-sung é o Pai da Pátria, o Grande Líder, o Presidente Eterno, que, instalado por Stalin à testa do país em 1948, governou a Coreia do Norte com mão-de-ferro até sua morte em 1994; Kim Jong-il, o Querido Líder, o Eterno Secretário-Geral, seu filho e herdeiro, ficou no poder desde a morte do pai até o fim de 2011 (o ditador atual é seu filho, Kim Jong-un, o Supremo Líder).

São duas estátuas gigantescas que, com semblante satisfeito, miram o infinito, cercadas por outros monumentos mostrando o povo, que marcha rumo a um futuro glorioso. É espantosa a quantidade de pessoas — em meia hora, centenas — que depositam flores aos pés das estátuas e se curvam em reverência (mesmo dos turistas exige-se que se curvem perante os monumentos aos líderes). Como aconteceria tantas vezes, ficamos em dúvida se aquelas pessoas faziam aquilo de sua própria iniciativa, ou se estavam ali apenas para nos impressionar.

O culto à personalidade na DPRK supera em muito aqueles outrora praticados na URSS, na China e em Cuba. Todo habitante do país carrega no peito um pin com a imagem dos líderes e é obrigado a reservar uma parede em sua casa para pendurar seus retratos; todos os prédios públicos têm imagens dos líderes e uma inscrição dizendo as datas de suas visitas. Insultar um líder é o mais grave dos crimes, e a definição do que é insulto é ampla. Ao fotografar as estátuas dos líderes, é proibido cortar seus pés. Ao dobrar jornais, as fotos dos líderes devem ser mantidas intactas, e é proibido jogar fora jornais que contenham tais fotos (para onde vão os jornais velhos é um mistério). O assunto é tão grave que, em 2009, um cidadão que queimou notas de dinheiro com a efígie de Kim Il-sung foi condenado por traição e fuzilado.

O Arco do Triunfo, construído em 1982 para homenagear o papel de Kim Il-sung no combate aos japoneses tem 25.500 blocos de granito, um para cada dia da vida do Grande Líder até então. É motivo de grande orgulho para os norte-coreanos que o Arco seja “como o de Paris, só que maior”. De fato, é muito maior, mas falta-lhe a legitimidade histórica que sobra no outro. Segundo a hagiografia, Kim Il-sung assumiu a liderança da resistência coreana em 1925 e a liderou incansavelmente até a vitória, em 1945. O problema é que, em 1925, Kim tinha apenas 12 anos, o grupo que ele, de fato, liderava em 1940 foi derrotado e quem expulsou os japoneses da Coreia foram as bombas atômicas americanas. Esse tipo de mitificação e falsificação histórica é martelado nas cabeças de norte-coreanos e turistas o tempo todo, e rapidamente se torna nauseante.

Quando fazemos perguntas difíceis, os guias repetem a cantilena oficial sem constrangimento e são capazes de afirmar, sem piscar um olho, que Kim Il-sung assumiu o comando da resistência aos 12 anos. Uma das perguntas que os visitantes mais se fazem é até que ponto os guias acreditam no que dizem (a lavagem cerebral começa na infância) e até que ponto sabem que estão repetindo inverdades, mas o fazem porque não têm alternativa.

A Coreia do Norte é um país onde só existe imprensa oficial — aparelhos de rádio e TV têm os sintonizadores travados no canais de propaganda, e alterá-los para que possam sintonizar canais da China e da Coreia do Sul é crime gravíssimo, e leva a um campo de concentração ou à morte — e que restringe quase absolutamente as comunicações com o exterior. Mesmo assim, há um crescente fluxo de informações clandestinas por meio de rádios e TVs alterados, impressos, DVDs e, ultimamente, pendrives. Os guias se controlam para não dizer o que pensam nem demonstrar interesse demais, mas, quando o assunto é a Coreia do Sul, ficam aflitos de curiosidade.

As livrarias que visitamos, para turistas, contêm única e exclusivamente obras escritas pelos Kim ou sobre eles. Não pudemos ir às livrarias para os locais, mas, aparentemente, há maior variedade: além da imprensa oficial, há muita literatura russa, e também clássicos ocidentais, como Dickens e Shakespeare (é fácil entender que Oliver Twist ou David Copperfield, sobre as más condições de vida na Inglaterra do século XIX, seja liberados, mas um censor atento não deveria deixar passar o Rei Lear ou Júlio César, por exemplo).

Países ditos socialistas têm um gosto especial por embalsamar os pais da pátria, como fizeram com Lênin, Mao e Ho Chi Minh, mas a Coreia do Norte é um caso à parte. No Palácio do Sol Kumsusan, um edifício gigantesco e espetacularmente solene, repousam não apenas os corpos do Grande Líder e do Querido Líder, mas também muitas de suas propriedades, incluindo carros, barcos e até um vagão de trem, além de prêmios, presentes e medalhas, como faraós modernos. Os visitantes curvam-se em frente, à direita e à esquerda do corpo de cada líder, num total de seis reverências em uma manhã.

O culto à personalidade é o principal aspecto da propaganda norte-coreana, mas não é o único. Por toda parte há cartazes, quase sempre vermelhos, com soldados de fuzil na mão e palavras de ordem conclamando o povo a defender o país e lutar até a vitória inevitável. E a música, marcial e gloriosa, que toca 24 horas por dia em toda parte, é uma provação contínua.

Uma semana na Coreia do Norte (5 de 6)

A visita ao Museu da Guerra Vitoriosa de Libertação da Pátria, dedicado à Guerra da Coreia, guiada por uma oficial do exército, é uma profissão de fé contra os americanos, que, à traição, teriam invadido o Norte em 1950, e uma ampla elegia ao Exército Popular da Coreia, que jamais teria perdido uma batalha. Considerando-se que foi o Norte que invadiu o Sul e que os americanos, entrando na guerra dois meses depois, venceram quase todas as batalhas, a versão norte-coreana é um exercício de surrealismo. A situação só se equilibrou quando os chineses entraram no conflito, e empurraram a fronteira de volta para onde estava originalmente. Admitir isso, entretanto, equivaleria a reconhecer que Kim Il-Sung provocou a morte de três milhões de pessoas (80% civis) em vão, de modo que o país se aferra à fantasia.

A joia da coroa do museu fica a alguns quilômetros do edifício, descendo o rio Taedong: é o USS Pueblo, um navio-espião americano capturado em águas norte-coreanas em 1968. Os tripulantes foram libertados em troca de uma admissão por parte dos EUA de que o navio estava em uma missão de espionagem, de um pedido de desculpas e de uma promessa de não mais espionar no futuro, tudo por escrito. Foi a primeira e única vez em sua história que os americanos fizeram algo no gênero.

O tratado de armistício que encerrou a Guerra da Coreia, em 1953, estabeleceu uma faixa de quatro quilômetros de largura onde ficou vedada qualquer mobilização militar, que por isso se chama Zona Desmilitarizada, ou DMZ, e que passou a servir como fronteira de facto entre as duas Coreias — imediatamente ao norte e ao sul dela estão as duas regiões mais militarizadas do mundo. A estrada até Panmunjom, logo ao norte da DMZ, 160 quilômetros ao sul de Pyongyang, está em más condições e surpreende pela largura, seis pistas!, e pelo tráfego: absolutamente nenhum. Em um dos checkpoints dessa estrada (checkpoints são comuns, pois o governo proíbe que os norte-coreanos façam viagens, inclusive domésticas), o exército exigiu inspecionar minha câmara, pois alguém julgara me ter visto fotografando militares quilômetros antes. Se fosse verdade, eu poderia ser preso.

Depois de recebermos as explicações sobre a DMZ , e ouvirmos as inevitáveis loas ao glorioso exército norte-coreano e as críticas à vileza do inimigo, visitamos a cabana onde o armistício foi efetivamente assinado — vale notar que a paz definitiva nunca foi assinada, e, tecnicamente, a Coreia do Norte continua em guerra com a Coreia do Sul e com os EUA. Na cabana, estão a mesa onde ocorreram as negociações e um pequeno museu mostrando as conquistas norte-coreanas e a covardia do adversário. Demorei-me um pouco mais examinando a memorabilia, fui chamado à atenção por um soldado e, de forma ameaçadora, devidamente enxotado.

O oficial que nos guiava, por outro lado, era bastante simpático. Ao saber que era um coronel sênior, equivalente a general de brigada no Brasil, fiquei um tanto cético: não achei que fizesse sentido um oficial de tão alta patente ser cicerone de turistas. Pensando melhor, entretanto, faz todo o sentido: com cerca de 1,2 milhão de militares na ativa (e mais de 8 milhões na reserva), incrível para um país de apenas 25 milhões de habitantes, a DPRK tem o quarto maior exército do mundo, e, como o país não entra em guerra há 60 anos, o que mais deve haver são militares ociosos. O exército forma um enorme contingente de mão-de-obra gratuita — escrava — para o governo, empregada em todo o tipo de trabalho, em particular na construção civil. Compreende-se por que é proibido fotografar militares trabalhando.

Na DMZ há um mirante de onde é possível avistar algo que os norte-coreanos afirmam ser um muro de concreto construído pelos americanos que, supostamente, chega a ter 8 metros de altura por 19 de largura e acompanha a fronteira entre os dois países, do Mar Amarelo ao Mar do Japão. O muro não é visível dos satélites (dizem estar coberto de terra), mas não deve haver muita gente fora da DPRK capaz de acreditar que seja possível construir-se um muro de 240 quilômetros sem ninguém perceber.

O ponto alto de nossa visita deveria ser a parada militar, na capital, em comemoração dos 70 anos da fundação do Partido dos Trabalhadores da Coreia, mas os guias não sabiam dizer a que horas ela ocorreria (era necessário esperar a chuva passar) ou mesmo se a veríamos. Ficamos três ou quatro horas esperando instruções até finalmente ser conduzidos a pé até uma esquina, onde, uma hora depois, já de noite e sem iluminação, pudemos ver a dispersão dos blindados (mas não das tropas) após a parada. Com esse tipo de tratamento, vai ser difícil convencer muitos turistas a visitar o país, mas, apesar da frustração, a visão dos tanques surgindo das trevas em meio ao delírio da multidão foi notável.

Por falar em trevas, a falta de energia elétrica em Pyongyang é impressionante, mas ela impressiona mesmo é fora da capital: durante o percurso de duas horas de viagem até o Monte Myohang, não vimos uma única aglomeração iluminada sequer, as poucas lâmpadas eram alimentadas por geradores e existiam unicamente para iluminar os monumentos aos líderes. O hotel em que ficamos dispunha de luz por poucas horas, sempre instável. Pela manhã, a surpresa: não estávamos num vilarejo no meio do nada, mas em uma cidade de 300 mil habitantes — inteiramente às escuras durante todo o tempo.

Uma semana na Coreia do Norte (final)

Depois de tantos monumentos, soldados, armas e propaganda, foi um alívio visitar o interior, repleto de rios, vales e montanhas belíssimos, onde tudo é bucólico e nada é ameaçador. O principal destino era um templo budista, mas, sabedores da perseguição que o regime move contra todo tipo de religião, foi com certo ceticismo que ali chegamos. A guia afirma que o culto religioso é livre, mas diz haver apenas 60 templos budistas no país inteiro (só em Seul, na Coreia do Sul, há mais do que isso). Será que os monges não seriam atores, colocados ali para nos convencer da tolerância governamental com a religião? Era perfeitamente possível.

Mas o monge nos fez sentar e executou um ritual autêntico e comovente. Os monges não usam o pin dos líderes — mas somente quando desempenham sua função: fora do templo, são cidadãos como outros quaisquer, e usam os brochinhos. O templo, único lugar onde pudemos comprar frutas (peras, mini-maçãs, mini-kiwis, todos deliciosos) é dos lugares mais belos e de maior paz em que já estive.

No mesmo dia, estivemos em um dos locais mais bizarros de toda a viagem, espécie de templo profano celebrando a Amizade Internacional, ou melhor, a amizade do mundo por Kim Il-sung e Kim Jong-il: um museu com uma coleção inesgotável de presentes do mundo inteiro: carros, um avião, ursos e jacarés, objetos enviados por diversas organizações de esquerda, incluindo o PCdoB e o PT, e uma bola autografada por Pelé “para o amigo Kim Jong-il”.

A DPRK é o país mais restritivo do mundo, no entanto, debaixo da carapaça comunista, existem uma economia e um mercado ainda incipientes, mas que lutam para prosperar. Durante a crise dos anos 90, os habitantes foram obrigados a produzir, vender e comprar alimentos, e o governo preferiu fazer vista grossa a condenar a população à morte por inanição.

Desde a chegada de Kim Jong-un ao poder, a vista grossa aumentou, e hoje há propriedade privada para automóveis, apartamentos, bares, restaurantes e até minas — a rigor, tudo pertence ao governo, mas contratos paralegais garantem que os “donos” de facto usufruam de suas posses. No único dia em que conseguimos escapar do cerco dos guias, fomos jantar com um diplomata que conhece Pyongyang bem: nesse dia, bebemos vinho italiano e comemos lagostim, atum branco e fois-gras, algo impensável para um norte-coreano mortal (apesar de privado, é provável que o restaurante receba algum tipo de subsídio, pois o menu de nove pratos custa meros 50 dólares).

Como eu disse no prólogo a esta série, os analistas mais otimistas acreditam que essa tolerância com a iniciativa privada e o crescimento da atividade comercial nos últimos anos sugerem uma opção pela primeira alternativa, mas a trajetória errática, com constantes ameaças e testes de mísseis intercontinentais, aponta para o lado.

A DPRK é um país diferente de todos os outros, e nossa viagem foi certamente a mais estranha e sui generis que já fizemos. De certa maneira é uma jornada ao passado, uma visita ao apogeu da Guerra Fria; de outra, é uma viagem para fora do tempo, para uma realidade paralela e distópica. Há farta literatura sobre o país, mas a obra que melhor o define foi escrita antes de sua criação: é 1984, de George Orwell.

Voltar da Coreia do Norte tampouco é trivial. Uma vez em Beijing, experimenta-se um estranhamento tão grande quanto na chegada a Pyongyang. De repente, você não se sente mais vigiado, pode andar na rua, tomar um táxi, entrar em qualquer restaurante… quando se fica embriagado de liberdade em um país como a China, definitivamente, há algo de muito estranho acontecendo.