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Da diferença entre esquerda e direita

Ricardo Rangel
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Ricardo Rangel

Passei um bom tempo tentando evitar as palavras direita e esquerda por entender que, com a queda do muro de Berlim, elas haviam deixado de fazer sentido. A esquerda simplesmente não tinha mais nada a propor: havia a democracia — e só. Acabei desistindo e voltei a usá-las, porque essas palavras vão continuar a nos assombrar, até porque não temos nada para pôr em seu lugar.

Norberto Bobbio escreveu um livrinho que é uma beleza, Direita e Esquerda — Razões e Significados de uma Distinção Histórica, tentando desesperadamente -- com muito brilho, mas sem grande sucesso -- encontrar um abrigo para as pessoas de esquerda (como ele mesmo), que, com a queda do muro, entraram nunca brutal crise de identidade. Bobbio chegou à conclusão de que os conceitos de direita e esquerda permanecem válidos, e que direita identifica aqueles que dão mais valor à liberdade, enquanto que a esquerda dá mais valor à igualdade.

Mas é isso?! Tudo bem, faz sentido, mas onde é que fica aquela superioridade moral que permitia à esquerda considerar-se guardiã da virtude e monopolistada generosidade, e olhar o mundo de maneira altaneira e condescendente?

Quando a palavra esquerda foi criada, durante a Revolução Francesa, ela identificava aqueles que defendiam a igualdade e a liberdade e a fraternidade e pão para todo mundo e tudo isso e o céu também, enquanto que a direita era a reação, os crápulas que mantinham o povo em grilhões e o obrigavam a (não) comer o pão (ou brioche) que a nobreza amassava — no século seguinte a direita deixou de ser a nobreza e passou a ser a burguesia, mas continuou crápula.

Mas se, como defende Bobbio, a diferença entre os mocinhos e os vilões é que estes querem mais liberdade e aqueles querem mais igualdade, e eu gosto mais de azul, e você de vermelho, mas é todo mundo democrata e aquele papo de revolução e tal morreu… então… que diabo de diferença é essa? para onde foi aquela oposição radical entre direita e esquerda? e a virtude desta última?

Foram para o beleléu. A oposição radical entre direita e esquerda não existe mais. Direita e esquerda modernas não são mais antípodas, mas complementares. Uns querem mais liberdade (menos interferência do Estado), outros querem mais igualdade (proporcionada pelo Estado), mas todo mundo quer crescimento com justiça social dentro do mesmo sistema político-econômico de democracia representativa com economia de mercado.

A oposição radical que existe hoje, especialmente em países subdesenvolvidos como o nosso, não é entre direita e esquerda, mas entre progressistas e retrógrados. Os progressistas são o que chamo de direita e esquerda sensatas.

Retrógrados são essa gente que quer nos levar de volta para o século XIX: misóginos, homofóbicos, racistas, golpistas (a direita braba e boçal de Bolsonaro, Crivella e companhia); a esquerda tola e equivocada que acha que todo rico é canalha e todo empresário é ladrão (PCO, PSTU, PCdoB e a maior parte do PT e do PSOL); e, por fim, aquela turminha bacana de moral homogênea: Sarney, Renan, Maluf, Jader, Collor et caterva. Esses são os verdadeiros reacionários. Infelizmente, é gente paca.