OUTROS

Entrevista com Nicholas Negroponte (1995)

Ricardo Rangel
Author
Ricardo Rangel

Entrevista com Nicholas Negroponte

Ricardo Rangel

Nicholas Negroponte, diretor do Media Lab (centro de pesquisas do MIT) e colunista da revista Wired, está lançando o livro “Vida Digital” (veja matérias ao lado). Abaixo, transcrevo entrevista que me concedeu através da Internet.

O Globo: A cada vez que uma nova tecnologia aparece (desta vez é a superestrada da informação), alguém apregoa que vai haver uma revolução na sociedade e que teremos a terra prometida, mas, com freqüência, o tiro sai pela culatra. A televisão, particularmente, fez com que as pessoas lessem, conversassem e pensassem menos do que antes. Podem-se comparar os videogames à TV? Como fazer com que o mundo digital escape desse destino?

Nicholas Negroponte: Para começar, não seja tão rigoroso com a televisão. Eu não assisto, mas meu pai adora ver os esportes. Ela faz companhia a muitos idosos. Concordo que causa mais mal do que bem, mas não estou certo de que queira livrar-me dela. Isto posto, os computadores abrem enormes possibilidades, e, já que é você que está no comando, pode fazer o que bem entender. Acho que são coisas muito diferentes.

O Globo: Quando a televisão apareceu, muita gente chamou atenção para suas possibilidades educativas. Você acha que a Internet vai ter sucesso onde a TV falhou? Como?

NN: Acho que sim, na medida em que ela fornece às crianças uma janela para o mundo, a maior paisagem intelectual já oferecida até hoje. Acabo de visitar uma escola em Houston onde vi 1300 crianças de baixa renda brincando com 1300 Compaqs e 1300 Netscapes [software de acesso gráfico à Net]. Foi a primeira vez que quis ter 10 anos de novo.

O Globo: E as questões comerciais?

É o comércio que vai alavancar a Internet. Seja um cineasta independente tentando vender um documentário, seja alguém vendendo sapatos sob-medida, o comércio é o grande negócio. Sugerir que a chamada information highway é algo diferente, que vai ser negociado em Bruxelas é uma tolice.

O Globo: Em seu livro, você sugere que o acesso à informação deve ser subsidiado, de forma que as empresas paguem mais por seus bits para que estudantes não precisem pagar pelos seus. Isso vai ocorrer? Como poderemos distinguir uns dos outros?

NN: Já está ocorrendo. Mas a questão importante é mesmo como diferenciar os usuários. É uma boa pergunta, porque, na Net, você pode ter as piores intenções, que ninguém fica sabendo. Sinceramente, não sei como isso vai se resolver. Prefiro ser honesto do que cínico. É um problema realmente complicado.

O Globo: Muitos dos esforços para construir a superestrada da informação estão decepcionando. A experiência da Rochester Telephone (norte de Nova York) foi cancelada e a da Time Warner (em Orlando) está atrasada e cara demais. Quanto tempo vai se passar até que possamos entrar na era digital de maneira barata e efetiva?

NN: Essas experiências foram mal concebidas e levadas a cabo segundo um modelo do mundo antiquado e centralista. Um sistema hierarquizado e mal implementado merece falhar, mas isso não significa que vá acontecer o mesmo com um sistema descentralizado. A Net, na verdade, está indo muito, muito bem.

O Globo: A maior parte das pessoas acima dos 40 não tem qualquer intimidade com PCs (ou mesmo videocassetes), nem quer ter. Você acha que as interfaces dos computadores vão o melhorar, de forma que essas pessoas os utilizem, ou a revolução digital terá que esperar que a próxima geração esteja no comando? Ou ambas as coisas vão acontecer ao mesmo tempo?

NN: A interface é deplorável mas vai melhorar rápido. A idade que você cita é otimista. Pessoas acima de 25 (não 40) não têm intimidade nenhuma com PCs. Na verdade, muita gente de mais de 55 está se conectando mais rápido do que os mais jovens porque tem tempo suficiente. As crianças vão obrigar seus pais a se informatizar. Não há escapatória. É tarde demais para se considerar velho demais, é o mundo “deles”. Muitos idosos que perderam os cônjuges freqüentemente descobrem que estar conectado pode ser de grande ajuda.

O Globo: Uma das grandes questões sobre a superestrada da informação é quem vai construí-la, se a empresas de TV a cabo ou se as companhias telefônicas; há uma concordância que, por enquanto, nenhuma delas tem condições de fazê-lo. O que vai acontecer? Vai haver uma série de fusões nos próximos anos? Quem são os candidatos?

NN: A própria Natureza vai construí-la. Fibra ótica é mais barato do que cobre. As companhias telefônicas sabem fazer comutação. Em 30 anos, vamos olhar para trás e pensar: “que estranho, em 1995, se achava que as empresas de cabo e de telefone eram diferentes.” São a mesma coisa. As empresas de cabo têm que aprender a comutar. As telcos têm que aprender a ser mais empreendedoras.

O Globo: O que você acha de esforços como Iridium (Motorola) e Teledesic (Bill Gates & Craig McCaw), que pretendem integrar o mundo usando dezenas ou centenas de satélites de baixa órbita? Isso vai funcionar? Faz sentido? Vai contra o conceito da “inversão Negroponte” (passar para cabo toda a comunicação fixa, de modo a deixar o ar livre para a transmissão de dados para coisas móveis)?

NN: Espero que funcione. De certa forma, vai contra a “inversão Negroponte”, mas, de forma global, faz sentido e, com alguma sorte, conseguiremos acomodar a comunicação com as coisas que se movem, que é o que interessa.

Com a facilidade com que se pode copiar (ou mesmo melhorar) e distribuir qualquer material digital, o conceito de direito autoral vai ser mudado para sempre. Haverá uma revolução ética? A idéia de autoria, da forma que a conhecemos, continuará a fazer sentido? Como conseguiremos proteger o direito autoral e combater a pirataria?

NN: Precisaremos de novos conceitos e será necessário reformular o que entendemos por propriedade intelectual e o que incentivará as pessoas a continuar criando. Uma sugestão, por exemplo, é lançar um livro através da publicação de uma pequena sinopse e de um índice. As pessoas pagariam pequenas quantias como 1 dólar por cópia. O autor acompanharia isso como se fosse uma bomba de gasolina. Quando o total chegasse a uma quantia suficiente, o autor apertaria um botão e, a partir daí, de alguma forma, o livro cairia em domínio público. A idéia não é minha, mas uma das muitas novas maneiras de se lidar com propriedade intelectual.

Como podemos garantir que a Internet permanecerá uma comunidade aberta e democrática? Existe o perigo de haver ricos e pobres no que se refere a informação?

NN: Como é uma organização descentralizada, vai permanecer aberta quase que por definição. Hoje em dia, o que separa as pessoas entre pobres e ricos de informação é uma questão que está mais ligada às gerações do que à economia. Essa situação anômala vai mudar em 3 ou 5 anos. Quando isso ocorrer, países como o Brasil já vão ter se livrado do estorvo que é o monopólio das telecomunicações e os fabricantes vão estar vendendo PCs por US$200.

Mesmo assim, há esforços consideráveis para controlar uma rede que sempre teve a liberdade como característica principal. Exemplos recentes são o chip Clipper (que tornaria todo e qualquer e-mail vulnerável ao Governo americano), a perseguição a Philip Zimmermann, author do PGP (software para proteção de mensagens), por ter tornado seu programa disponível a quem quisesse e a tentativa de se banir material sexual da Rede. Há alguma chance de haver um big brother digital?

NN: Tudo isso apenas mostra que o que temos pela frente é algo enorme. O Governo está amendrontado, mas não poderia controlar a Net, mesmo que quisesse. Não há interruptores para desligá-la. Nem um big brother conseguiria.

Quem é Nicholas Negroponte?

Ricardo Rangel

Nicholas Negroponte tomou contato com os computadores em 1964, quando estudava arquitetura no Massachussets Institute of Technology (MIT) e passou a estudar computação gráfica, um campo que ainda estava nascendo. De lá pra cá, os computadores se tornaram sua profissão e, com o tempo, Negroponte é diretor do Media Lab (do qual foi um dos fundadores, em 1985), o centro de pesquisas da universidade onde se formou, uma das mais conceituadas do mundo. O Media Lab é um laboratório interdisciplinar dedicado a estudar a comunicação humana em todas as formas possíveis, e tem um orçamento anual de mais de US$ 10 milhões, 73% dos quais oriundos de mais de 75 entidades privadas. Além de lecionar no MIT — hoje é titular da cadeira de Tecnologia de Mídia — Negroponte foi professor visitante nas universidades de Michigan, Yale e Berkeley e dá cerca de 100 palestras por ano

Em 1980, foi chairman do programa “Computadores na Vida Cotidiana”, da Federação Internacional de Sociedades Processadoras de Informação. Dois anos depois, aceitou convite do Governo francês para ser o primeiro diretor executivo do Centro Mundial para a Computação Pessoal e Desenvolvimento Humano, projeto experimental criado para explorar o potencial tecnológico dos computadores e aprimorar a educação em países subdesenvolvidos. Há pouco mais de dois anos, Negroponte ajudou a fundar a revista Wired, onde assina, desde então, uma concorrida coluna dedicada a estudar as conseqüências da convergência digital sobre nossas vidas. Foram essas colunas que forneceram a base para seu novo livro, “Vida Digital”.

Quando, há 25 anos, escreveu um livro sobre a hipótese de haver diálogo entre pessoas e máquinas, Negroponte foi tachado de mistificador. Em 1980 defendeu, junto com outros pesquisadores, a tese de que tecnologias como impressão, cinema e computação convergiriam para algo chamado multimídia. Foi chamado de charlatão. Hoje, depois de uma vida inteira como visionário, Negroponte constata, quase alivado, que boa parte de suas visões está se tornando realidade.

Nicholas Negroponte completou seu livro bebendo Chablis — sua adega é controlada através de uma planillha Excel — sob o sol da Ilha de Patmos, na Grécia (onde tem uma casa), o mesmo local onde São João escreveu o Apocalipse. De certa forma, é uma indicação de que Nicholas tem a missão de ensinar um novo evangelho, desta vez digital. Mas convém lembrarmo-nos que era também na Grécia que os heróis eram fulminados quando cometiam o pecado da hubris — a empáfia.