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NOHTAS sobre a infâmia de 7/12/2016

Ricardo Rangel
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Ricardo Rangel

Ontem, pressionando pelo Executivo, o Supremo preferiu o bom (manter a votação da PEC) ao certo (destituir um réu da presidência do Senado). São muito raras as vezes em que o bom é preferível ao certo (como na decisão sobre a prisão em segunda instância). Ontem não foi uma dessas vezes.

Carmen Lúcia teve ontem seu batismo de fogo. E fracassou vexaminosamente.

Celso de Mello sempre foi o ministro mais bem fundamentado, que votava de acordo com sua consciência e que menos se deixava pressionar politicamente. Ontem, desmoralizou-se.

Teori Zavascki ia no mesmo caminho de seriedade de Celso de Mello, mas ontem seguiu-o no atalho da desmoralização.

Os três outros, Fux, Toffoli e Lewandowski não se desmoralizaram ontem porque não tinham como se desmoralizar.

Marco Aurélio é o principal responsável pela catástrofe de ontem, mas acertou quando afirmou que venceu o “jeitinho brasileiro”.

O Supremo, em que pesem todas as suas confusões, pairava um ou dos degraus acima da mixórdia que são o Executivo e o Legislativo. Não mais.

Quem afirma que não há problema porque não existe perspectiva de Renan suceder a Temer é cínico, pois sabe que a Constituição não se refere a momentos específicos, mas à eternidade, e esquece-se de que i) nos últimos seis meses, o Brasil livrou-se dos presidentes da república, da câmara, e, quase, o do senado; e ii) existe a perspectiva concreta de Temer ser impugnado, o que faria de Renan vice-presidente.

Estou quase torcendo para que a decisão acabe por fazer a presidência cair no colo de Carmen. Não, não porque Carmen seja melhor. Por vingança.

“Preferiram a desonra à guerra. E terão a guerra.”, disse Churchill acerca de Chamberlain e da curriola de aplacadores que tentaram comprar a paz sacrificando a Tchecoslováquia.

Benjamin Franklin foi mais abrangente do que Churchill: “aqueles que abrem mão de uma liberdade essencial em troca de uma segurança passageira, não merecem nem liberdade nem segurança.”

“Infeliz o país que precisa de heróis”, escreveu Bertolt Brecht. O que diria Brecht de um país que acha que precisa de um herói como Renan Calheiros?

Fernando Henrique perdeu uma excelente chance de ficar de fora do vexame.

NOHTAS sobre a infâmia de 7/12/2016