OUTROS

O maior inimigo da verdade não é a mentira, mas a convicção.

Ricardo Rangel
Author
Ricardo Rangel

O maior aliado da verdade é a dúvida. A dúvida nos leva a nos informar, a testar nossas hipóteses, descartar o que se mostra falso e apurar nossas opiniões. O maior inimigo da verdade não é a mentira: é relativamente fácil defendermo-nos dela, basta tratá-la como dúvida. Onde houver diálogo e imprensa livre, a mentira, mais cedo ou mais tarde, será desmascarada.

Não, o maior inimigo da verdade é a convicção. O convicto não duvida, não recua, não corrige: ignora qualquer opinião que o contradiga, e segue em frente, firme, até cair no precipício. Convictos acreditam carregar a virtude em uma mão e a verdade na outra. Convictos no poder são a certeza do desastre. As duas maiores catástrofes do século passado (e de todos os tempos) foram causadas por dois homens convictos, Hitler e Mao (não incluo Stalin porque creio que ele era mais conduzido pela paranoia do que pela convicção). Robespierre, Fidel, Che e tantos outros responsáveis por desastres eram convictos.

Dilma espanta menos por ter feito tudo errado na economia durante cinco anos do que por ter deliberadamente tapado os ouvidos para aqueles que lhe apontaram os erros (virtualmente todos os economistas e jornalistas especializados sérios do país) ¬— Lula, em que pesem seus muitos defeitos, é um homem muito mais razoável: fez tudo errado durante seu segundo mandato, mas dificilmente teria nos conduzido ao buraco em que estamos.

Os eleitores do PT sempre foram, desde a fundação do partidos, os mais politizados e mais bem intencionados, os menos transigentes com a maneira viciada e desonesta de se fazer política e os maiores defensores de uma política limpa e de uma sociedade solidária. O problema é que o PT no poder fez exatamente o contrário de tudo o que sempre pregou: a política mais suja, mais fisiológica e mais desonesta que já vimos.

No entanto, a ideia de que o PT e suas linhas auxiliares permanecem eticamente acima dos partidos “conservadores” é uma convicção da qual os petistas e não-petistas-mas não conseguem abrir mão: ela é maior do que seus ideais de honestidade e bons propósitos. O resultado é esse curioso e melancólico espetáculo: tantas pessoas absolutamente decentes e bem intencionadas defendendo com unhas e dentes aquilo que passaram a vida considerando indefensável.