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Da diferença entre esquerda e direita

Passei um bom tempo tentando evitar as palavras direita e esquerda por entender que, com a queda do muro de Berlim, elas haviam deixado de fazer sentido. A esquerda simplesmente não tinha mais nada a propor: havia a democracia — e só. Acabei desistindo e voltei a usá-las, porque essas palavras vão continuar a nos assombrar, até porque não temos nada para pôr em seu lugar.

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Norberto Bobbio escreveu um livrinho que é uma beleza, Direita e Esquerda — Razões e Significados de uma Distinção Histórica, tentando desesperadamente -- com muito brilho, mas sem grande sucesso -- encontrar um abrigo para as pessoas de esquerda (como ele mesmo), que, com a queda do muro, entraram nunca brutal crise de identidade. Bobbio chegou à conclusão de que os conceitos de direita e esquerda permanecem válidos, e que direita identifica aqueles que dão mais valor à liberdade, enquanto que a esquerda dá mais valor à igualdade.

Mas é isso?! Tudo bem, faz sentido, mas onde é que fica aquela superioridade moral que permitia à esquerda considerar-se guardiã da virtude e monopolistada generosidade, e olhar o mundo de maneira altaneira e condescendente?

Quando a palavra esquerda foi criada, durante a Revolução Francesa, ela identificava aqueles que defendiam a igualdade e a liberdade e a fraternidade e pão para todo mundo e tudo isso e o céu também, enquanto que a direita era a reação, os crápulas que mantinham o povo em grilhões e o obrigavam a (não) comer o pão (ou brioche) que a nobreza amassava — no século seguinte a direita deixou de ser a nobreza e passou a ser a burguesia, mas continuou crápula.

Mas se, como defende Bobbio, a diferença entre os mocinhos e os vilões é que estes querem mais liberdade e aqueles querem mais igualdade, e eu gosto mais de azul, e você de vermelho, mas é todo mundo democrata e aquele papo de revolução e tal morreu… então… que diabo de diferença é essa? para onde foi aquela oposição radical entre direita e esquerda? e a virtude desta última?

Foram para o beleléu. A oposição radical entre direita e esquerda não existe mais. Direita e esquerda modernas não são mais antípodas, mas complementares. Uns querem mais liberdade (menos interferência do Estado), outros querem mais igualdade (proporcionada pelo Estado), mas todo mundo quer crescimento com justiça social dentro do mesmo sistema político-econômico de democracia representativa com economia de mercado.

A oposição radical que existe hoje, especialmente em países subdesenvolvidos como o nosso, não é entre direita e esquerda, mas entre progressistas e retrógrados. Os progressistas são o que chamo de direita e esquerda sensatas.

Retrógrados são essa gente que quer nos levar de volta para o século XIX: misóginos, homofóbicos, racistas, golpistas (a direita braba e boçal de Bolsonaro, Crivella e companhia); a esquerda tola e equivocada que acha que todo rico é canalha e todo empresário é ladrão (PCO, PSTU, PCdoB e a maior parte do PT e do PSOL); e, por fim, aquela turminha bacana de moral homogênea: Sarney, Renan, Maluf, Jader, Collor et caterva. Esses são os verdadeiros reacionários. Infelizmente, é gente paca.

NOHTAS sobre a infâmia de 7/12/2016

Ontem, pressionando pelo Executivo, o Supremo preferiu o bom (manter a votação da PEC) ao certo (destituir um réu da presidência do Senado). São muito raras as vezes em que o bom é preferível ao certo (como na decisão sobre a prisão em segunda instância). Ontem não foi uma dessas vezes.

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Carmen Lúcia teve ontem seu batismo de fogo. E fracassou vexaminosamente.

Celso de Mello sempre foi o ministro mais bem fundamentado, que votava de acordo com sua consciência e que menos se deixava pressionar politicamente. Ontem, desmoralizou-se.

Teori Zavascki ia no mesmo caminho de seriedade de Celso de Mello, mas ontem seguiu-o no atalho da desmoralização.

Os três outros, Fux, Toffoli e Lewandowski não se desmoralizaram ontem porque não tinham como se desmoralizar.

Marco Aurélio é o principal responsável pela catástrofe de ontem, mas acertou quando afirmou que venceu o “jeitinho brasileiro”.

O Supremo, em que pesem todas as suas confusões, pairava um ou dos degraus acima da mixórdia que são o Executivo e o Legislativo. Não mais.

Quem afirma que não há problema porque não existe perspectiva de Renan suceder a Temer é cínico, pois sabe que a Constituição não se refere a momentos específicos, mas à eternidade, e esquece-se de que i) nos últimos seis meses, o Brasil livrou-se dos presidentes da república, da câmara, e, quase, o do senado; e ii) existe a perspectiva concreta de Temer ser impugnado, o que faria de Renan vice-presidente.

Estou quase torcendo para que a decisão acabe por fazer a presidência cair no colo de Carmen. Não, não porque Carmen seja melhor. Por vingança.

“Preferiram a desonra à guerra. E terão a guerra.”, disse Churchill acerca de Chamberlain e da curriola de aplacadores que tentaram comprar a paz sacrificando a Tchecoslováquia.

Benjamin Franklin foi mais abrangente do que Churchill: “aqueles que abrem mão de uma liberdade essencial em troca de uma segurança passageira, não merecem nem liberdade nem segurança.”

“Infeliz o país que precisa de heróis”, escreveu Bertolt Brecht. O que diria Brecht de um país que acha que precisa de um herói como Renan Calheiros?

Fernando Henrique perdeu uma excelente chance de ficar de fora do vexame.

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