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Dos papéis da direita e da esquerda (ou Mercado X Estado)

Falei da importância de uma esquerda inteligente e sensata para o funcionamento da democracia, e mencionando, en passant, que só o Estado distribui renda. Alguns discordaram, afirmando que o que distribui renda é o próprio mercado e que o Estado é inútil, ou quase inútil. Dada a lamentável gestão da coisa pública feita pelo PT nos últimos 13 anos, essa visão não chega a surpreender, mas está equivocada.

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No mercado absolutamente livre, as empresas menos eficientes desaparecerão ou serão absorvidas pelas mais eficientes, num processo de consolidação que gerará empresas cada vez maiores e em número cada vez menor, até criar um monopólio ou um oligopólio cartelizado. O monopólio (ou o oligopólio cartelizado, que dá na mesma) usará seu um enorme poder para inviabilizar a concorrência, reduzir salários e manipular demandas e preços de forma a maximizar lucros. É o que antigamente se denominava capitalismo selvagem. Não estou fazendo juízo de valor e não se trata de uma questão moral: é assim que a coisa acontece. Así es. Não mate o mensageiro.

Não se convenceu? Continua levando fé na capacidade do mercado de socializar (epa, que verbo fui escolher) a riqueza? Então considere qualquer empresa bem sucedida: depois de dez anos sem nenhuma interferência do Estado, você acredita que a diferença de renda entre os proprietários da empresa e seus empregados terá crescido ou diminuído?

O esforço civilizatório não cabe à economia, que é amoral, mas à sociedade, que se pretende moral e que se organiza politicamente no Estado. Cabe ao Estado a criação de leis, regras e normas que impeçam ou moderem o fenômeno descrito no parágrafo anterior, e garantam que haja paz e justiça social. Parte desse esforço é criar condições igualitárias de competição: saneamento, saúde e educação para todos; leis de defesa da concorrência; agências de regulação e fiscalização independentes. Mesmo assim, se houver um mínimo de liberdade, não haverá igualdade, pois os seres humanos não são iguais: dependendo do grau de desigualdade, serão necessárias políticas de distribuição de renda (no Brasil de hoje, em que a desigualdade é brutal, elas com certeza o são).

A esquerda, que não confia nas grandes empresas, tentará criar regras e normas em excesso; a direita, que não confia no Estado, tentará se livrar ao máximo de regras e normas. Ambas têm razão: nenhum organismo suficientemente grande ou poderoso, seja privado ou público, merece confiança: seja quem for, mais cedo ou mais tarde avançará sobre os direitos dos indivíduos. O desafio é encontrar o ponto ótimo entre o mercado, de um lado, produzindo, e o Estado, do outro, fazendo somente o que lhe é próprio e impedindo abusos. E é por isso que é importante termos as duas forças, direita e esquerda, em equilíbrio. Será melhor se tanto direita como esquerda forem inteligentes e sensatas, a primeira sabendo que justiça social é importante para a sobrevivência de todos, a segunda sabendo que só o mercado cria riqueza.

Outro comentário mais ou menos frequente que li é que a esquerda é invariavelmente estúpida, que essa esquerda de que falei — inteligente, sensata, honesta — nunca vai existir no Brasil. Bem, considerando-se a performance passada e presente da esquerda brasileira, fica mesmo difícil de acreditar (mas o track record da direita não é muito melhor).

Da diferença entre esquerda e direita

Passei um bom tempo tentando evitar as palavras direita e esquerda por entender que, com a queda do muro de Berlim, elas haviam deixado de fazer sentido. A esquerda simplesmente não tinha mais nada a propor: havia a democracia — e só. Acabei desistindo e voltei a usá-las, porque essas palavras vão continuar a nos assombrar, até porque não temos nada para pôr em seu lugar.

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Norberto Bobbio escreveu um livrinho que é uma beleza, Direita e Esquerda — Razões e Significados de uma Distinção Histórica, tentando desesperadamente -- com muito brilho, mas sem grande sucesso -- encontrar um abrigo para as pessoas de esquerda (como ele mesmo), que, com a queda do muro, entraram nunca brutal crise de identidade. Bobbio chegou à conclusão de que os conceitos de direita e esquerda permanecem válidos, e que direita identifica aqueles que dão mais valor à liberdade, enquanto que a esquerda dá mais valor à igualdade.

Mas é isso?! Tudo bem, faz sentido, mas onde é que fica aquela superioridade moral que permitia à esquerda considerar-se guardiã da virtude e monopolistada generosidade, e olhar o mundo de maneira altaneira e condescendente?

Quando a palavra esquerda foi criada, durante a Revolução Francesa, ela identificava aqueles que defendiam a igualdade e a liberdade e a fraternidade e pão para todo mundo e tudo isso e o céu também, enquanto que a direita era a reação, os crápulas que mantinham o povo em grilhões e o obrigavam a (não) comer o pão (ou brioche) que a nobreza amassava — no século seguinte a direita deixou de ser a nobreza e passou a ser a burguesia, mas continuou crápula.

Mas se, como defende Bobbio, a diferença entre os mocinhos e os vilões é que estes querem mais liberdade e aqueles querem mais igualdade, e eu gosto mais de azul, e você de vermelho, mas é todo mundo democrata e aquele papo de revolução e tal morreu… então… que diabo de diferença é essa? para onde foi aquela oposição radical entre direita e esquerda? e a virtude desta última?

Foram para o beleléu. A oposição radical entre direita e esquerda não existe mais. Direita e esquerda modernas não são mais antípodas, mas complementares. Uns querem mais liberdade (menos interferência do Estado), outros querem mais igualdade (proporcionada pelo Estado), mas todo mundo quer crescimento com justiça social dentro do mesmo sistema político-econômico de democracia representativa com economia de mercado.

A oposição radical que existe hoje, especialmente em países subdesenvolvidos como o nosso, não é entre direita e esquerda, mas entre progressistas e retrógrados. Os progressistas são o que chamo de direita e esquerda sensatas.

Retrógrados são essa gente que quer nos levar de volta para o século XIX: misóginos, homofóbicos, racistas, golpistas (a direita braba e boçal de Bolsonaro, Crivella e companhia); a esquerda tola e equivocada que acha que todo rico é canalha e todo empresário é ladrão (PCO, PSTU, PCdoB e a maior parte do PT e do PSOL); e, por fim, aquela turminha bacana de moral homogênea: Sarney, Renan, Maluf, Jader, Collor et caterva. Esses são os verdadeiros reacionários. Infelizmente, é gente paca.

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