POLÍTICA

A cartada de Renan

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Por Roberto Lameirinhas

A cartada de Renan

Quem tem medo de Renan Calheiros? E quem o teme, teme o quê?

Depois de deixar a presidência do Senado chamuscado pela fogueira da Lava Jato, Renan está assumindo sozinho o papel de opositor ao governo de Michel Temer que partidos políticos como o PSDB não querem fazer e como o PT não podem fazer.

 Renan tinha como rival declarado em seu próprio partido, o PMDB, o deputado cassado e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. E as relações do senador alagoano com Michel Temer, em razão das alianças internas da legenda, nunca foram muito harmoniosas.

 Mas Renan - o político que no ano passado deixou o meio político estupefato ao bancar um desafio público à decisão do STF que o afastaria da presidência do Senado e à estrela máxima da Operação Lava Jato, o juiz Sérgio Moro - tem dado sinais de que pretende ir além da disputa intrapartidária.

 Age com a soberba de um jogador de pôquer que se esforça para convencer a mesa de que tem nas mãos uma grande cartada. Não se sabe bem ainda se por estratégia ou por covardia, mas os demais jogadores, como Temer, não parecem dispostos a pagar para ver.

 Renan não usou de meias-palavras para enviar ao governo a mensagem de que vai se tornar o grande empecilho para que o Planalto leve adiante a ideia de aprovar a reforma da Previdência rapidamente. Disse claramente que, neste caso, vai deixar o governo “errar sozinho”.

 Pouco depois, usando frases enigmáticas, disse “já ter rompido” há tempos com o “governo de Eduardo Cunha” e “ainda não rompeu” com o governo de Temer.

 O Planalto não rebate abertamente. Reage com cautela, por meio de consultas e conversas informais tanto com interlocutores que supostamente têm acesso a Renan quanto com supostos adversários do senador.

 A tese de que as ações de Renan correspondem à pretensão do senador de selar uma aliança com Lula para a eleição de 2018 - uma vez que a popularidade do ex-presidente continua alta lá pelos lados de Alagoas - parece simplista demais. Difícil imaginar que o plano político do senador que surgiu com a ascensão de Fernando Collor e manteve sua influência em todos os governos posteriores esteja restrita ao seu Estado.