POLÍTICA

A rua reage

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas
A rua reage

Por Roberto Lameirinhas

São incontáveis os argumentos que pesam contra as reformas trabalhista e previdenciária propostas pelo Executivo de Michel Temer. Enquanto a primeira se pretende realizar sob um ambiente de desemprego que fragiliza a posição dos trabalhadores, a segunda é vendida como a panaceia para os males não apenas da seguridade social, mas para todo o sistema macroeconômico do País. Em comum, ambas começam a ser vistas pela sociedade como o que verdadeiramente são: um esforço de supressão de direitos da camada que forma a base da pirâmide social em benefício de interesses econômicos privados.

 Não surpreende, portanto, que protestos contra essas iniciativas estejam ganhando força em todos os Estados.

 É quase consenso entre analistas econômicos que algumas medidas precisam ser adotadas para assegurar a solvência do sistema previdenciário em médio prazo, mas, para a população, fica cada vez mais clara a impressão de que Temer e seus partidários foram com muita sede ao pote ao propor uma reforma que estabelece a idade mínima de 65 anos, contribuição de ao menos 25 anos e reduções nos valores relativos dos benefícios a serem concedidos.

 O projeto, como está, tende a empurrar contribuintes da previdência oficial para planos oferecidos por instituições particulares e ampliar o estoque de mão de obra, ampliando as taxas de desocupação formal e reduzindo salários. O plano de Temer mantém privilégios do funcionalismo público, de militares e de políticos e não prevê cobrança de débitos bilionários de empresas e massas falidas. Além disso, de acordo com sindicatos e associações de classe, o projeto manipula dados de expectativa de vida, fiscais e atuariais e foi imposto pelo Executivo sem que tivesse sido submetido à mínima discussão com a população.

 Ignorando as manifestações dos protestos da quarta-feira contra as reformas, porém, Temer declara estar “certo de que a população entendeu a necessidade das reformas”, sob a alegação de que se o projeto não for adotado agora “cortes maiores terão de ser feitos daqui a quatro ou cinco anos”. Mas, ao mesmo tempo, deixou aberta a possibilidade de “algumas adaptações”.

 É difícil assumir, no entanto, que o Planalto não admita que grande parcela da sociedade - e dos eleitores, portanto - veja suas ações com desconfiança. O avanço das investigações da Operação Lava-Jato acrescenta ainda outro complicador para os planos de Temer. Com um Congresso cada vez mais interessado em manter seus cargos e foros privilegiados, a capacidade de o Executivo convencer deputados e senadores a aprovar medidas tão impopulares se reduz significativamente.