POLÍTICA

Ao vivo é muito pior

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Fustigados por problemas econômicos persistentes e violentos protestos de rua, alicerces do governo de Maduro começam a apresentar sinais de erosão  

Ao vivo é muito pior

O governo venezuelano de Nicolás Maduro dá sinais de rápido derretimento ante o aprofundamento da crise econômica que empobrece ainda mais a população e causa a escassez de todo tipo de mercadoria no país, de sabonete e papel higiênico à farinha milho que é o principal ingrediente da arepa, base da alimentação dos cidadãos das classes C, D e E. Aferrado ao poder e resistindo aos protestos violentos que exigem sua saída - e já resultaram em um número estimado de quatro dezenas de mortos -, Maduro colhe a tempestade dos erros de semeadura de Hugo Chávez e do chavismo, que falharam na tarefa de libertar a economia da Venezuela da dependência do petróleo.

 Tudo correu razoavelmente bem enquanto o barril do produto estava cotado na faixa dos US$ 100 no mercado internacional, mas quando essa cotação se reduziu para o nível dos US$ 30, a deterioração da situação política se tornou inevitável. Resta a Maduro a aposta na formação de uma assembleia constituinte que contraria todos os conceitos de sufrágio universal - reservando para grupos favoráveis ao governo a maioria das cadeiras no novo fórum. Não como interpretar tal passagem de rolo compressor a não ser como um golpe de Estado, para o deleite de inimigos mortais do chavismo tanto no interior das fronteiras da Venezuela quanto fora delas.

 Incapaz de apresentar e manter pactos que garantam um mínimo de governabilidade com a sociedade venezuelana, Maduro caminha na direção do precipício com suas próprias pernas e não em razão das ações do heterogêneo bloco que lhe faz oposição - composto por cidadãos genuinamente revoltados com a situação econômica e política do país e líderes de movimentos oligárquicos que sustentaram os não menos desastrosos governos que antecederam ao de Chávez.

 Em várias ocasiões, me reuni na Venezuela com o historiador e jornalista Alberto Garrido, que era considerado um dos maiores estudiosos do período de ascensão de Chávez ao poder e relutava em qualificar o chavismo como um movimento de esquerda. Garrido, que morreu de câncer precocemente há alguns anos, via no chavismo uma doutrina resultante de uma aliança cívico-militar mais próxima do peronismo argentino - baseada no centralismo nacionalista e sustentado pela força armada.

 E foi sobre os alicerces fundados pelo companheiros de armas do Exército que Chávez sobreviveu até mesmo à tentativa de golpe de 2002. O governo de Maduro está alicerçado nestas mesmas bases, mas - apesar dos constantes afagos aos militares - elas começam agora a apresentar sinais mais claros de erosão.

("Ao vivo é muito pior" é um verso da canção Apenas um rapaz latino-americano, do cantor e compositor Belchior, que morreu em 30 de abril)