POLÍTICA

Da conveniência das tragédias

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Por Roberto Lameirinhas

Da conveniência das tragédias

Teorias conspiratórias são irritantes. Oferecem em geral argumentos simplistas destinados a satisfazer o que se convencionou chamar de senso comum. Acabam caindo no ridículo com o tempo. Sim, o homem foi à Lua, não se encontrou nenhum indício de que a CIA tenha matado JFK e nada indica que Tancredo Neves tenha sido baleado em meio a uma entrevista que concedia à repórter Glória Maria.

 Isto posto, é difícil não relacionar a queda do avião que transportava o ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki à conveniência de seu desaparecimento dias antes da homologação das delações premiadas mais aguardadas da Operação Lava Jato: a dos executivos da Construtora Norberto Odebrecht, incluindo o filho de seu proprietário, Marcelo Odebrecht.

 A mídia já tinha anunciado que as delações citariam integrantes de praticamente todos os partidos do País. De Michel Temer a Aécio Neves, passando por Renan Calheiros e José Serra. De Dilma Rousseff a Luiz Inácio Lula da Silva, incluindo nomes importantes de seus respectivos governos.

 Diferentemente do que se pode depreender no Brasil de hoje, a queda de aviões novos - com manutenção em dia e pilotados por profissionais reconhecidamente experientes - é exceção absoluta, e não regra. O caso da queda de aeronave que matou Zavascki é particularmente perturbador.

 Ele foi precedido pela ação de membros da organização de ultradireita MBL que - inconformados com a decisão de Zavascki de reivindicar para o STF o foro da investigação sobre Lula - divulgou o endereço do ministro e de seus parentes nas redes sociais. O filho do ministro, o advogado Francisco Zavascki, já tinha denunciado ameaças à vida de Teori.

 E, na inacreditável conversa gravada de Romero Jucá com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, Zavascki é mencionado como um homem que “não tem ligações”  - ou seja, que dificilmente seria refém de algum esquema destinado, nas palavras de Machado, de “estancar a sangria” da Lava Jato.

Da conveniência das tragédias

 Não custa ressaltar: como relator do inquérito da Lava Jato no STF, cabia a Zavascki homologar delações e determinar a urgência ou não dos processos que envolviam acusados com foro privilegiado - presidente da República, ministros, senadores e deputados.

 A julgar pelo que a mídia tem informado, Zavascki tinha abandonado o descanso do recesso do Judiciário para analisar as delações dos executivos da Odebrecht, que seriam homologadas entre a última semana de janeiro e a primeira de fevereiro. Retornava a Paraty para retomar o que restava do descanso e voava de carona com o amigo e dono do avião, Carlos Alberto Fernando Filgueiras - dono do grupo empresarial Emiliano e réu em processo por crime ambiental no STF.

 Caberá ao presidente da República - que teria recebido doações da Odebrecht para campanhas eleitorais própria e de aliados - nomear o substituto de Zavascki, que por sua vez, segundo interpretação de juristas, herdará o caso da Lava Jato. Essa nomeação pode ser rápida ou não, levando-se em conta o trâmite da escolha e da sabatina no Senado. De todo modo, o avanço da Lava Jato no STF sofrerá significativo atraso.