POLÍTICA

Das platitudes de cada dia

Roberto Lameirinhas
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Roberto Lameirinhas

Por Roberto Lameirinhas

Certo, certo. Às vezes é difícil mesmo preencher as linhas que faltam para deixar no tamanho aquele texto de jornal ou apresentar alguma consideração para completar aqueles intermináveis segundos de comentários em programas de rádio e TV. Mas o volume de platitudes pronunciadas no Brasil e fora dele pelos chamados “analistas internacionais” se ampliou de forma dramática nos últimos dias, com o ataque de mísseis dos EUA a uma base das forças pró-governo da Síria.

Das platitudes de cada dia

Base síria atacada pelos EUA em imagem do Departamento de Defesa 

Não é culpa apenas dos acadêmicos e dos “jornalistas especializados”. Leitores, ouvintes e espectadores já não se satisfazem somente com os fatos e anseiam pelo “jogar para a frente”, pelo “o que virá depois”, pelos “cenários possíveis”. E aí vem a enxurrada de “é um ataque de consequências imprevisíveis” e “só o tempo dirá quem ganha e quem perde”. Li outro dia a conclusão de que “a Síria é a Síria e a Coreia do Norte é a Coreia do Norte”. 

 Ok, amigo, isso eu já sabia. Exceto por algumas coisas - como o aumento do meu imposto a pagar e a virada do tempo quando chego à praia -, o futuro tem mesmo essa tendência a ser incerto.

 E não há modelos - históricos, matemáticos ou astrofísicos - que possam ser aplicados de forma a produzir uma sequência lógica de eventos. Aí surgem as “revelações” por parte dos “especialistas”, principalmente os que povoam os programas jornalísticos da TV americana: “(Bashar) Assad pertence à seita alauita do Islã”; “Rússia e Síria são aliados históricos”; “Israel acompanha com preocupação a escalada da tensão”. Há uma tentativa de convencer o interlocutor de que ter conhecimento dessas informações confere erudição incontestável do analista - que o torna algo que uma amiga minha chama de “especialista nesses paranauê aí”. Mas são fatos que se constituem no contexto do evento, e não fenômenos capazes de alterar suas consequências.    

 Fiquemos no exemplo citado de intervenções americanas. É lugar comum dizer que a ação liderada pelos EUA no Afeganistão “criou um vácuo de poder” após a queda do regime do Taleban, o que teria aberto uma luta sangrenta entre os comandantes mujahedin locais. Mas o fim do reinado do Taleban não criou nada: as estimadas 1.500 facções que historicamente disputam o poder no país - inclusive durante a era do Taleban - seguem fazendo isso. Dizer que haveria luta pelo domínio do território não era uma previsão, era apenas a constatação da continuidade de uma situação de séculos. É algo que em jornalismo se convencionou chamar de “notícia”, de “factual”, não de análise.

 No caso Síria-Assad/EUA-Trump/Rússia-Putin, o tom dos “analistas” ganhou certa gravidade, como se realmente Washington e Moscou estivessem dispostos a lançar mão de seus códigos nucleares para assegurar a manutenção de suas respectivas influências na região do Eufrates.