POLÍTICA

De “golpe” em “golpe”

Roberto Lameirinhas
Author
Roberto Lameirinhas
De “golpe” em “golpe”

Por Roberto Lameirinhas

George Orwell dizia que os vencedores sempre tinham a prerrogativa de perpetuar sua versão da história. Há quem rejeite a afirmação - e aforismo generalistas são mesmo para que sejam postos em dúvida. Mas três episódios ocorridos nos últimos dias em três países sul-americanos diferentes têm sido relatados sob óticas distintas, dependendo da fonte. Como os vencedores desses processos ainda não estão completamente definidos, é prudente duvidar de todas as versões e de todas as histórias.

 O primeiro caso ocorreu na Venezuela, onde o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) suspendeu os poderes da Assembleia Nacional - a câmara única do Legislativo do país, dominado pela oposição antichavista. Levando-se em conta que o TSJ, corte máxima da Venezuela, é completamente subserviente ao Executivo, a maior parte dos analistas consultados pela mídia ocidental qualificou a ação de “golpe”. E golpe é mesmo a designação que se dá à ação de um poder que se sobrepõe a outro, ainda que sob alegações frágeis como desobediência de ordem judicial ou… sei lá… outra alegação frágil qualquer.

 Verdade também que não faltam golpistas na Venezuela. Falta sabonete, arroz, açúcar, leite, papel higiênico, mas golpista não falta. Mas é bom ponderar que nem todos eles estão no Palácio Miraflores. Por exemplo, os mesmos deputados cassados dias atrás buscavam, no começo do ano, meios para votar a destituição de Nicolás Maduro em razão de um “abandono de cargo” que nunca existiu. E boa parte da oposição venezuelana está no nível “ministério do Temer” na escala de apreço pela ética política e democracia. Muitos deles exerciam posições de poder antes da eleição de Hugo Chávez, em 1998, quando os venezuelanos sofriam com problemas muito parecidos com os que sofrem hoje: escassez, fome, miséria, hiperinflação, desemprego e abusos de direitos humanos.

 Mas Maduro recuou e a Assembleia voltou a funcionar. De repente, as atenções da mídia do continente se voltaram para as possíveis sanções da Organização dos Estados Americanos (OEA) - cuja importância é normalmente ridicularizada por essa mesma mídia - contra a Venezuela. As ações da OEA ficaram na base do “manifesta preocupação” e “faz enérgica chamada ao diálogo”, e a vida seguiu.

 O segundo caso, no Paraguai, foi mais confuso. Inicialmente, uma multidão de vândalos do estilo “black blocs” tinha ateado fogo no Senado para impedir a tramitação de uma proposta que permitiria ao presidente Horacio Cartes candidatar-se à reeleição. Pouco tempo depois, soube-se que o ex-presidente Fernando Lugo, deposto em 2012, também apoiava a proposta de reeleição. Aí, os vândalos se converteram em “cidadãos indignados” que impediram um “golpe” contra a Constituição paraguaia.

 No terceiro caso, Lenín Moreno, candidato apoiado pelo presidente Rafael Correa, venceu o segundo turno da eleição presidencial de domingo no Equador, derrotando por margem estreita um banqueiro de retórica política ainda mais estreita. Na interpretação de uma emissora brasileira, porém, o triunfo de Moreno se deveu a uma “fraude eleitoral”. Quem tinha acompanhado o processo no Equador por meio de TVs de outros países imaginava uma grande revelação do repórter enviado a Quito para, enfim, desmascarar a roubalheira dos bolivarianos liderados por Correa. Mas o intrépido jornalista cobria a eleição equatoriana de Washington e a “evidência” da “fraude” era que uma das pesquisas de boca de urna tinha previsto a vitória do banqueiro por dois pontos porcentuais de diferença. Convenientemente, claro, ele omitiu que outras duas bocas de urna previam o triunfo de Moreno.